sexta-feira, 18 de setembro de 2026

VÊS COM MAUS OLHOS O FACTO DE EU SER BOM?

XXV- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 20, 1-16 

"Continuamos o caminho para Jerusalém, e Jesus está preocupado porque os seus discípulos — a comunidade — se estão a perder em perguntas, pedidos e comportamentos inoportunos (“quem é o maior no Reino de Deus?”, “os discípulos repreendem os pequenos que se aproximam de Jesus”, “dai os primeiros lugares do Reino aos meus filhos”, pede a mãe de Tiago e de João...). Jesus anuncia o que o espera por ter feito da sua vida um serviço até ao fim, mas a sua comunidade não quer nem compreender nem ouvir.

Perante esta confusão da comunidade, que quer conhecer os critérios de relevância e importância no Reino de Deus — critérios que se revelam nas palavras e nas ações de Jesus —, Ele conta-lhes uma parábola marcante por ser inquietante, irritante e provocadora: a dos trabalhadores da vinha. Ao lermos o Evangelho deste domingo, devemos perceber que o último versículo do capítulo 19 — “E muitos que são primeiros serão últimos, e muitos que são últimos serão primeiros” — deveria ser o primeiro versículo do capítulo 20, onde nos é narrada a parábola que termina da mesma maneira no versículo 16: “assim, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos”.

É uma parábola que rompe com a lógica da relação contratual com Deus. É uma parábola que nos mergulha na novidade radical do Evangelho; não me cansarei de repetir que a Boa Nova de Jesus não é "mais do mesmo". O dono da vinha — vinha que representa o Reino de Deus — vai contratando trabalhadores ao longo do dia: ao amanhecer, a meio da manhã, ao meio-dia, a meio da tarde, na penúltima hora (a famosa "undécima hora"), numa jornada de sol a sol, de doze horas... Ele encontra os últimos desta vida: aqueles que dizem “ninguém nos contratou”. Envia-os para trabalhar na vinha; são os últimos, aqueles de quem ninguém se lembra, os que não têm oportunidades, possivelmente os mais desajeitados e sem competências sociais, como diríamos hoje.

No final do dia, o salário era pago diariamente; diz ao encarregado que pague a todos a mesma diária, começando pelos últimos. Evidentemente, os primeiros protestam e murmuram contra o patrão: “nós, que suportamos o calor abrasador do dia... e recebemos o mesmo”. Isto não nos faz lembrar a queixa do irmão mais velho na parábola do filho pródigo — quando o pai sai para o ir buscar, tal como fez com o filho mais novo, e ele não quer entrar e recrimina-o: “eu, que estive em casa sempre, sem desobedecer a uma ordem tua...” —? A coerência do Evangelho é fascinante.

O dono da vinha, perante o protesto dos primeiros, lança-lhes três questões, e atrevo-me a dizer que na segunda está todo o Evangelho.

A primeira questão é óbvia: não me venham falar de justiça ou injustiça, pois acordaram comigo o salário normal e justo e concordaram.

A segunda é a chave: “Será que não tenho liberdade para fazer o que quero com o que é meu?” Genial! Quando estabeleço uma relação de contrato, de lei, e não de gratuidade com Deus, acontece que o importante sou eu; Deus torna-se uma mera variável dependente do meu comportamento: “se trabalho doze horas, pagas-me por doze; se trabalho uma, pagas-me por uma; se me comporto bem, recompensas-me; se me comporto mal, castigas-me... mas sou eu, ó Deus, quem dita o ritmo”. E Deus diz-me — diz-nos —: quem és tu para me dizer o que devo fazer?

A terceira flui naturalmente: “Será que não te alegras por eu ser bom?” Reconheçamos que temos dificuldade em aceitar as consequências de Deus ser bom. Se vivermos o facto de estarmos na vinha desde a primeira hora como uma dádiva, alegremo-nos por Deus ser bom e por estes últimos também receberem o pagamento.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Retirada do Google imagens em 19.09.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-25º Domingo Comum-Ano A, em 19.09.2026. Tradução livre

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BRAÇOS NUS DE JESUS


«Depois cruxificaram-n’O  e repartiram entre si os Seus vestidos, sorteando-os para verem o que levava cada um.»  Mc 15, 24
Imaginar Jesus pregado numa cruz não é fácil, Ele, O Filho amado de Deus Pai, sujeito a tão cruel estado.
O Todo Poderoso, deixa-Se pregar no madeiro  sem resistir, entregando-Se por Amor à Humanidade, por toda Humanidade, a  do presente, a do passado e a do futuro.  É o Verbo feito Carne, que  aceita  inscrever-Se  no madeiro, que nunca recusa a Vontade e  a Sabedoria do Pai.
Tão alto é o preço do nosso Resgate, mas  muito mais alto é o Amor de  Jesus  por todos nós. Quem muito perdoou, muito amou.
Nasceu Jesus  e foi deitado numa manjedoura, na sua morte, foi  pregado numa cruz. Mas aqueles Braços de Menino,  que  só puderam contar com  a ternura de  Maria e José,  já estavam abertos para  todos abraçar. Na Sua caminhada entre nós , Jesus teve sempre os Braços abertos para acolher, acarinhar, tocar, orar ao Pai, transformar, perdoar,  curar…No madeiro teve os Braços abertos para nos resgatar, e agora Ressuscitado, Seus  Braços abertos estão  para sempre nos receber…
Braços nus de Jesus sobre a cruz, "sem nada "e "com tudo"...
Braços nus de Jesus, Braços de Pai, de Mãe, de Irmão. Braços Santos!
No nosso caminhar, quando cairmos, saibamos confiar nos Braços de Jesus para Ele nos erguer, se nos sujarmos,  saibamos aproximar de Jesus para Ele nos purificar, no desânimo, saibamos encontrar o abraço de Jesus para nos animar.
Neste mundo que ainda é frio, saibamos ter os braços abertos como Jesus, para carinhosamente suavizar o fardo dos nossos irmãos mais abatidos.
Diác. José Luís Leão/2015
Imagem: Retirada do Google imagens em 14.09.2026;
Senhor,  que eu nunca me esqueça dos Braços Teus!

[LU] Cruz fiel e redentora - Manuel de Faria


 

sábado, 12 de setembro de 2026

NÃO DEVIAS TU TAMBÉM TER COMPAIXÃO DO TEU COMPANHEIRO ?

XXIV- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 18, 21-35

"Jesus continua com os seus discípulos a caminho de Jerusalém, instruindo-os sobre como lidar com os conflitos na comunidade, tal como foi proclamado no evangelho do passado domingo. Pedro insiste em perguntar quantas vezes é preciso perdoar o irmão que ofende. A resposta de Jesus é contundente: sempre! (setenta vezes sete).

É neste momento que surgem a inquietação, o mal-estar, a culpa e o sentimento de infidelidade em muitos seguidores e seguidoras de Jesus. Enredamo-nos no nosso "mundo afectivo raquítico e ofendido" e transformamo-lo no critério supremo para o perdão; constatamos a enorme dificuldade que temos em perdoar e, então, duvidamos que o Deus da vida também nos perdoe sempre e definitivamente.

Se ficarmos presos ao "eu", não há saída. Acomodamo-nos na ofensa, na ferida, e a nossa vida torna-se amarga. Perdemos a ternura, a compaixão e a doçura, dando lugar ao ressentimento e à impotência — sobretudo quando continuamos a rezar «tal como nós perdoamos». Quanto sofrimento gera o querer perdoar e não conseguir, o experimentar a impotência! Por outro lado, tem-se a impressão de que Jesus não está a falar com seres de outra galáxia, nem com uma elite, mas a exortar homens e mulheres como nós. Jesus não pede o impossível, mas leva-nos ao limite para que as nossas potencialidades aflorem.

Jesus diz-nos que é preciso cortar, soltar (perdoar) a ofensa, não nos acomodarmos nela, para evitar que se desencadeiem dinâmicas infernais de ódio, vingança e injustiça. Se não tomarmos uma atitude, destruir-nos-emos. É preciso interromper a longa trajetória de ódios que passam de geração em geração. Jesus é judeu e sabe que as vinganças se eternizam: “Caim será vingado sete vezes, e Lameque, setenta e sete” (Gn 4,24). Para Jesus, o perdão nunca pode ser menos abrangente do que os desejos de vingança; caso contrário, já não existiríamos...

Jesus responde a Pedro com uma parábola que dispensa explicações: sou capaz de perdoar se me sinto perdoado. O problema é que, hoje, não sentimos necessidade de ser perdoados; tornamo-nos deuses. Sentir necessidade de perdão não significa fazer o papel de vítima, alimentando a baixa autoestima ou espiritualidades que nos corroem por dentro… mas sim reconhecer que, se nos sobrestimamos — o orgulho —, prejudicamos os outros; e se nos subestimamos — não nos reconhecendo como criaturas agraciadas —, prejudicamo-nos a nós próprios... e é essa a nossa tendência.

Só o olhar compassivo de Jesus nos coloca de volta no nosso devido lugar. Só a experiência de um amor compassivo, que nos abraça e nos faz sentir amados, nos restaura. Assim, é mais fácil que o nosso "eu" ferido não se prenda à amargura e à injustiça, mas se volte para a compaixão pelo outro.

A parábola mostra-nos, de forma genial, onde pode levar esta falta de reconhecimento grato — que é o que nos permite sentir o perdão incondicional —: à nossa própria destruição. Para nos amar, o nosso Deus pede apenas que nos deixemos amar; por isso, ele lança fora e perdoa tudo aquilo que acreditamos nos afastar dele e nos manter no orgulho. O homem e a mulher que se sentem amados são capazes de sentir compaixão pelo próximo.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Retirada do Google imagens em 12.09.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-24º Domingo Comum-Ano A, em 12.09.2026. Tradução livre

Voici ce cœur (St Jean Eudes) | Processionnal d'offertoire - Sacré Cœur | Official Lyrics Video

 


sábado, 5 de setembro de 2026

O QUE FAÇO POR UMA IGREJA MAIS FIEL A JESUS?


XXIII
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 18, 15-20

"«Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles». A melhor forma de tornar Cristo presente na sua Igreja é manter-nos unidos, agindo «em seu nome», movidos pelo seu Espírito. A Igreja não precisa tanto das nossas declarações de amor ou das nossas críticas, mas sim do nosso compromisso real. Não são poucas as perguntas que podemos colocar a nós próprios.

O que faço para criar um clima de conversão coletiva no seio desta Igreja, sempre necessitada de renovação e transformação? Como seria a Igreja se todos vivessem a adesão a Cristo mais ou menos como eu a vivo? Seria ela mais ou menos fiel a Jesus?

O que ofereço em termos de espírito, verdade e autenticidade a esta Igreja, tão necessitada de radicalidade evangélica para oferecer um testemunho credível de Jesus no meio de uma sociedade indiferente e descrente?

Como contribuo, com a minha vida, para edificar uma Igreja mais próxima dos homens e mulheres do nosso tempo, que saiba não só ensinar, pregar e exortar, mas, sobretudo, acolher, escutar e acompanhar aqueles que vivem perdidos, sem conhecer o amor nem a amizade?

O que ofereço para construir uma Igreja samaritana, de coração grande e compassivo, capaz de esquecer os seus próprios interesses para viver voltada para os grandes problemas da humanidade?

O que faço para que a Igreja se liberte dos medos e das servidões que a paralisam e a prendem ao passado, e se deixe penetrar e vivificar pela frescura e pela criatividade que nascem do evangelho de Jesus?

O que eu ofereço, nestes momentos, para que a Igreja aprenda a «viver em minoria», sem grandes pretensões sociais, mas de maneira humilde, como «fermento» oculto, «sal» transformador, pequena «semente» disposta a morrer para dar vida? Que faço por uma Igreja mais alegre e esperançosa, mais livre e compreensiva, mais transparente e fraterna, mais crente e credível, mais de Deus e menos do mundo, mais de Jesus e menos dos nossos interesses e ambições? A Igreja muda quando nós mudamos; converte-se quando nós nos convertemos.

6 de setembro

José António Pagola"

Imagem: Retirada do Google imagens em 05.09.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-23º Domingo Comum-Ano A, em 05.09.2026. Tradução livre

Taize Ubi caritas

 


domingo, 30 de agosto de 2026

PENSAS COMO OS HOMENS, NÃO PENSAS COMO DEUS


XXII
- Domingo do Tempo Comum -Ano A
Texto Sagrado: Mt 16, 21-27

"Pedro confessou muito bem que Jesus é o enviado do Pai (domingo anterior), é aquele que havia de vir, anunciado pelo Batista, é o Filho que vem das entranhas compassivas do Deus da Vida, é o Ungido, o Cristo… mas Pedro não entende, ou não quer entender, que a questão não é confessar corretamente quem é Jesus — até os demónios confessam que Jesus é o Filho de Deus —, mas sim segui-lo na maneira como ele se situa na vida, deixar-se comover ao perceber como se vive como Filho, surpreender-se com o que Jesus entende por ser o Messias de Deus. Podemos saber toda a "ortodoxia" de cor e estar terrivelmente mal situados na vida.

Quando Pedro ouve Jesus anunciar o que pode acontecer em Jerusalém — «sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas» —, enfrenta Jesus e repreende-o. Pedro não quer ouvir falar de um Jesus que se entrega; quer um Messias triunfante, legitimado pelo sucesso e pelo reconhecimento. Jesus é contundente: "Afasta-te de mim, Satanás! Estás a preparar-me uma cilada, escandalizas-me". O mesmo que disse nas tentações, diz agora a Pedro. Não é que Pedro queira poupar Jesus da adversidade pela amizade e pelo carinho; se assim fosse, a resposta de Jesus não teria sido tão radical. Precisamos de evitar leituras "adocicadas" do Evangelho.

Aqui, mais uma vez, encontramo-nos no âmago do Evangelho: Jesus é fiel até ao fim; é aquele que não foge quando vê o lobo aproximar-se, que não foge quando fica a saber que Herodes o quer matar... "até ao fim, até ao terceiro dia, estarei a curar os doentes e a expulsar os demónios".

Jesus quer ir a Jerusalém, sabendo o que pode vir pela frente; não por obstinação, mas por compaixão. Não vai a Jerusalém por um destino fatal, desejado por um deus cruel que quer sacrifícios sangrentos — atenção: as imagens arcaicas de Deus continuam actuantes! Quer ir porque Jesus é filho de Israel e Jerusalém é o auge da sua alegria, como diz o salmista, embora saiba que a transformaram no lugar dos “traficantes da dor”. Sabe que converteram o lugar de oração e de encontro dos povos num “covil de ladrões”. Como filho de Israel, quer levar a compaixão para o centro do poder religioso, mesmo sabendo que pode ser triturado por ele. Não quer deixar ninguém sem possibilidade de abertura ao Reino que está a acontecer.

Ora, após o confronto com Pedro, Jesus diz aos discípulos que quem quiser ganhar tem de perder; quem quiser autoafirmar a sua vida tem de a libertar, tem de a ceder; quem o quiser seguir tem de carregar as suas perdas de prestígio, de relevância, de riqueza, de vanglória, de domínio, de prepotência… isto é carregar a cruz e caminhar com Ele até ao fim. “Ganhar o mundo não serve de nada se arruinar a vida.” Obrigado, Francisco Javier, pelo belo testemunho que nos deste sobre isto! ... Pensar como os homens e pensar como Deus são coisas incompatíveis. Pensar como Deus é percorrer um caminho humilde, compassivo, livre, pacificado, caminhando com ternura e sentido de justiça. Obrigado, Jesus, porque contigo é possível caminhar.

Toni Catalá, SJ"

Imagem: Retirada do Google imagens em 30.08.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-22º Domingo Comum-Ano A, em 30.08.2026. Tradução livre

Quién podrá apartarnos de su amor | Música Católica

 


sábado, 22 de agosto de 2026

TU ÉS O MESSIAS, O FILHO DO DEUS VIVO


XXI
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 16,13-20

"Quando Jesus pergunta aos seus discípulos: "Quem é que as pessoas dizem que Eu sou?", é porque está perplexo perante as reações que a sua atuação provoca. No passado domingo, vimos um Jesus que se afasta da Galileia porque precisa de um alento perante a pressão dos fariseus e dos letrados. Regressa à Galileia (é bom ler Mt 15,29-39 para saborear o evangelho deste domingo) e continua a envolver-se com compaixão: a ele recorrem "coxos, cegos, aleijados, surdo-mudos e muitos outros doentes", e as pessoas comuns, o povo simples, "louvavam o Deus de Israel" pelo que viam. Jesus comove-se diante da multidão que o segue, pois "não têm o que comer", e não pode deixá-los partir assim, "porque desfaleceriam pelo caminho". Realmente, o evangelho é um hino à compaixão e à vida!

Mas Jesus depara-se com o facto de que os saduceus e fariseus — os «proprietários de Deus» — não vêem motivos para louvar o Deus de Israel pelo facto de o povo recuperar a dignidade e a saúde; "querem e pedem um sinal vindo do céu", dando a impressão de que os "sinais da terra" não lhes bastam. Que cegueira, que falta de compaixão, que falta de sensibilidade, que falta de coração para não ver que a Glória de Deus reside no facto de as suas criaturas viverem! Jesus está perplexo: para uns, louva o Deus Vivo; para outros — "os de má intenção" —, o que faz é "apenas humano", obra de Belzebu. Encontramo-nos, mais uma vez, no núcleo mais íntimo da experiência de Jesus: "Pai, as pessoas simples compreendem-Me; os sábios e entendidos, não" (Mt 11,25-30).

Jesus pergunta porque não esperava que a sua compaixão agitasse o sistema religioso da forma como o estava a fazer. Retira-se de novo para Cesareia de Filipe, a norte da Galileia, quase em terra fenícia, para ficar a sós com os seus. Aquela pergunta: “Quem é que o povo diz que...?” — não se dirige a todo o mundo, mas apenas à sua comunidade. É tempo de esclarecer as coisas, de falar sobre o que se passa com a sua comunidade, e Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Esta confissão é profunda e certeira; toca a identidade mais íntima de Jesus. É como quem diz: “Jesus, tu és o presente do Pai, tu és aquele que havia de vir, tu és aquele que vem das entranhas compassivas do Pai e Criador, tu és o seu Filho...”. Jesus diz a Pedro que, sobre esta confissão de fé, será edificada a sua comunidade futura — a Igreja — e que nada, nenhum inferno deste mundo, poderá derrotar a compaixão, a ternura e a fidelidade inabalável do Deus da Vida, que se manifesta em Jesus e na comunidade por Ele convocada.

Mas Jesus sabe o que o espera: senadores, letrados e sumos sacerdotes não descansarão enquanto não se livrarem dele... Contudo, Pedro já não quer ouvir isso; não quer saber de um Messias, de um Cristo, que se entrega até ao fim simplesmente porque veio para servir; de um Filho que prefere abdicar da vida, entregá-la, em vez de se afirmar gerando violência. Não se testemunha Deus pela força, mas pela fraqueza compassiva. Pedro não quer saber de um Bom Pastor que não foge. Jesus é muito claro com Pedro: “Tu és Satanás e só gerarás sofrimento se não pautares a tua vida pela compaixão; nesse caso, não serás a pedra sobre a qual se edifica a comunidade...”. Pedro, tal como nós, terá de passar pelo abandono do Getsémani e encontrar a paz no amor incondicional — a Páscoa do Senhor — para compreender verdadeiramente quem é Jesus e o que é o seu Reino.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Fotografia de Cristo Crucificado-Igreja dos Capuchinhos  em Gondomar

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-21º Domingo do Tempo Comum -Ano A, em 22.08.2026. Tradução livre

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MULHER, GRANDE É A TUA FÉ


XX- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 15,21-28

"Jesus atravessa um momento difícil. Como verdadeiro filho de Israel, sente-se enviado para curar as ovelhas perdidas do seu povo; no entanto, depara-se apenas com incompreensão e rejeição por parte daqueles que conhecem a Lei e gerem a relação do povo com Deus. Sente-se enviado para o seu próprio povo, mas vê-se obrigado a retirar para território "pagão" — Tiro e Sídon —, pois "veio para o que era seu, e os seus não o receberam". Aqueles que deveriam ser mais sensíveis aos sinais messiânicos da vinda do Reino de Deus não o acolhem; os fariseus e os escribas endureceram os corações e não suportam Jesus — não lhe dão tréguas.

A razão deste afastamento temporário da Galileia é que Jesus precisa de se distanciar do seu povo. Ele sofre com o que está a vivenciar. Precisa de uma "pausa no caminho". Precisa de "tomar distância", e é então, em território pagão, que uma mulher lhe pede compaixão. Não nos deve surpreender que Jesus fique desconcertado e "não lhe responda uma única palavra". O seu próprio povo não o acolhe, mas «outros» — pagãos — pedem-lhe a cura. A mulher cananeia vive uma angústia profunda; parece não encontrar alívio nem cura na sua própria terra pagã. Ela clama por socorro, recorrendo ao Filho de David — uma última esperança, invocando aquele que, em Israel, estava destinado a restaurar o que se havia perdido.

O processo pelo qual Jesus chega a compreender que a compaixão é para todos — para os que estão dentro e para os que estão fora, tanto para os judeus como para os gentios — é vital; é um processo doloroso e fascinante, tanto para Jesus como para nós. Temos dificuldade em aceitar a plena humanidade de Jesus — uma humanidade exatamente igual à nossa, exceto pelo «pecado», que é precisamente o que nos desumaniza.

Jesus está constantemente a "crescer" em humanidade; não está isento de «crescer» em sabedoria — o Evangelho diz-nos isso claramente. É por isso que só reage quando desafiado e confrontado por uma mulher gentia. A mulher não encontra a salvação no seu próprio "contexto pagão", enquanto Jesus a oferece ao seu "contexto religioso", apenas para enfrentar a rejeição. Ela diz-lhe que não deseja tirar nada a Israel — «o pão dos filhos» —; no entanto, afirma de forma provocadora que todos têm direito a, pelo menos, "algumas migalhas de compaixão". Causa um profundo impacto em Jesus.

Em terra estrangeira e confrontado por uma estrangeira, Jesus questiona as suas próprias perceções da realidade enquanto filho de Israel; percebe que a fé, a confiança e a sensibilidade para a necessidade de salvação existem mesmo entre os "de fora". Esta mulher abre os olhos a Jesus; rompe as fronteiras da Palestina, levando-o a olhar para além desses limites.

É certo que o mistério pascal de Jesus nos abre à universalidade; contudo, é também profundamente consolador ver um Jesus que — enquanto viveu a sua missão pelas estradas da Galileia — é desafiado e forçado a reexaminar as suas convicções judaicas herdadas, reconhecendo, por fim, a grande fé desta mulher cananeia e admitindo que a compaixão se estende a todos. Esta história deita por terra qualquer tentativa de qualquer grupo — seja ele qual for — de monopolizar a fé como uma posse; como nos diz brilhantemente S. Paulo, ninguém tem direito exclusivo a Cristo.

Toni Catalá SJ"

magem: Retirada da "Google imagens" a 13.08.2026, 

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-20º Domingo do Tempo Comum -Ano A, em 13.08.2026. Tradução livre

Laissez-vous consumer | Emmanuel Music

 


terça-feira, 11 de agosto de 2026

CORAGEM! SOU EU, NÃO TENHAM MEDO!

XIX - Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 14,22-33

"O mar, as ondas, a tempestade representam o inóspito, a profunda incerteza, aquilo que está fora do nosso controlo. O povo judeu nunca foi um povo marítimo; no máximo, alguns eram pescadores costeiros no Mar da Galileia. A terra seca representa segurança, raízes, terreno familiar… Jesus ordenou-lhes que embarcassem, que se aventurassem no imprevisível. O Reino de Deus que Jesus proclama e que se concretiza não se trata de permanecer no que é seguro, no que é familiar… Jesus pede-nos para “embarcar” em jornadas que, desde o início, não oferecem qualquer garantia de sucesso, mas sim jornadas que podem falhar e afundar-nos.

Então, Jesus é “imprudente”? Sim, de facto, é imprudente, assume riscos, nem sempre calcula as consequências das suas palavras e ações no Reino: “Quem dizem que Eu sou?”… “Vai-te embora, Herodes quer matar-te…”. “Ele ficou admirado com a tua falta de fé”… “Os teus parentes dizem que és mentalmente instável.” Mas Jesus é vivido a partir da confiança em Deus Pai e Criador, e não da confiança na “sabedoria prudente do mundo”.

Jesus impele-nos para o novo e para o desconhecido, mas nunca nos deixa sós (“Tende coragem… não tenhais medo”). Devemos reconhecer que, ao seguir Jesus, o medo de falhar e de afundar, o medo de desaparecer, tanto a nível pessoal como eclesial, leva-nos muitas vezes a querer encontrar “tábuas de salvação” longe do Senhor. Encontrar “tábuas de salvação” nos poderes deste mundo é uma tentação crónica e prejudicial (…).

Pedro quer aproximar-se do Senhor, caminhando sobre as águas, mantendo-se firme no meio das adversidades, mas também provar-Lhe que é Ele mesmo (“se ​​​​és tu…”). Pedro não está no âmbito da confiança incondicional no Senhor; ainda está numa relação de “Jesus, precisas de me provar…”. Pedro afunda-se, dominado pelo medo.

É sempre Jesus que estende a mão e nos tira do lamaçal; Ele é o único que nos salva. Não nos podemos salvar sozinhos. Isto, na nossa cultura arrogante e narcisista, é “heresia”. É verdade que não preciso de um salvador que “salve” apenas para depois me escravizar ou subjugar como fazem os “líderes”, diz Jesus. Só quero um Salvador que tenha compaixão de nós porque Ele também passou pelo abismo, e o Pai ressuscitou-O dos mortos e fez de nós Seus irmãos e irmãs.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Retirada da Sessão da "Comunidade Emanuel" em Paray-Le-Monial, França- 02 a 07.08.2026.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-19º Domingo do Tempo Comum-Ano A, em 11.07.2026. Tradução livre.



sexta-feira, 31 de julho de 2026

BUSCANDO DEUS


XVIII 
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 14,13-21

Quase sem perceber e empurrado por vários fatores, temos gradualmente desumanizado aquele gesto muito sincero e humano de sentar-se à mesa para comer juntos.

A comida tornou-se para muitos algo puro e funcional, necessário para organizar rapidamente e precisamente dentro do dia de trabalho. Está cada vez mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar ao redor da mesa. Em muitas casas, aquela mesa feita para ser cercada não é mais útil para os pais e os filhos se encontrarem, partilharem suas vidas, conversarem e descansem juntos.

Outros estão a acostumarem-se a "alimentar o seu corpo" nesses refeições impessoais em restaurantes ou no canto do balcão de autoatendimento. Não há poucos que sejam forçados a participar em refeições cerimoniais ou de trabalho, onde o gesto amigável de comer juntos é substituído por interesse, pragmatismo ou ostentação.

O gesto de Jesus, que convida as pessoas a recuar para partilhar uma refeição simples, abençoando Deus pelo pão que recebemos, pode ser um apelo a nós. Como Xabier Basurko diz em seu estudo "Partilhar o Pão", comer é muito mais do que "introduzir uma certa quantidade de calorias no corpo".

A necessidade de alimentar-se é, acima de tudo, um sinal da nossa pobreza radical. Os seres humanos são feitos para comer com os outros, partilhando a mesa com família e amigos. Comer juntos é para fraternizar, para dialogar, para crescer na amizade, para partilhar o dom da vida.

É por isso que é tão difícil agradecer a Deus quando alguém tem mais comida do que aquele que a precisa, enquanto outros sofrem de miséria e fome. Sentimos culpa por essas palavras de Gandhi: "Tudo o que você come sem necessidade é roubo do estômago do pobre." Talvez nos países de prosperidade devamos aprender a abençoar a mesa de outra forma: agradecendo a Deus, mas ao mesmo tempo, pedindo perdão por nossa insolidariedade e tornando-nos conscientes da nossa responsabilidade em relação aos famintos da Terra.

2 de Agosto,

José António Pagola"

Imagem: Retirada da "Google imagens" a 31.07.2026, 

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-18º Domingo do Tempo Comum, em 31.07.2026. Tradução livre

Voici le corps et le sang du Seigneur | Emmanuel Music


 

sábado, 25 de julho de 2026

BUSCAR A DEUS


XVII 
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 13,44-52

Os estudos sociológicos indicam que a crise religiosa na Europa caminha para uma «indiferença» crescente — uma indiferença silenciosa, alheia a qualquer consideração sobre Deus. No entanto, um número cada vez maior de pessoas, impulsionadas por um certo "anseio por Deus", sente a necessidade de procurar "algo diferente", uma nova forma de acreditar n'Ele. Como se procura Deus?

Sem dúvida, cada pessoa deve partir da sua própria experiência. Não é necessário copiar os outros, nem fazer algo forçado ou artificial. Cada um conhece os seus desejos e fragilidades, os seus vazios e os seus medos. Cada um conhece a sua própria "necessidade" de Deus. A voz d'Ele nunca se cala; Não grita com os lábios, mas sussurra aos nossos corações.

É precisamente por isso que procurar Deus externamente — em livros, argumentos ou debates — não chega. "Discutir religião" é uma coisa; procurar Deus com um coração sincero é algo bem diferente. Percebemos por nós mesmos quando estamos a fugir de Deus e quando estamos verdadeiramente a procurá-Lo. Santo Agostinho exprimiu-o assim: "Não te disperses. Volta-te para o teu interior. A verdade habita no homem interior".

Procurar Deus exige esforço, mas o encontro com Ele nunca é fruto de uma vontade fanática ou de um ascetismo forçado. Deus é um dom, e o que importa é acolhê-Lo com "simplicidade de alma". Lembremos a reflexão da velha prioresa na obra *Diálogos das Carmelitas*, de Georges Bernanos: "Uma vez deixada para trás a infância, é preciso sofrer muito para retornar a ela — assim como a aurora só reaparece após uma longa noite. Terei eu me tornado criança novamente?"

Não é sensato procurar Deus confiando apenas nas próprias intuições. Há muitas formas de se enganar ou de permanecer preso a um ciclo de egocentrismo, focado apenas nos próprios sentimentos e ideias. Por isso, é melhor partilhar e comparar a própria experiência com alguém que nos possa guiar com base na sua própria vivência de Deus. Esta partilha mútua pode ser o melhor incentivo para continuar a procurá-Lo. Na sua parábola do "tesouro escondido no campo", Jesus fala do homem que, "cheio de alegria", vende tudo o que possui para adquirir o tesouro. Procurar a Deus não gera tristeza nem amargura; Pelo contrário, isto gera alegria e paz, pois a pessoa começa a descobrir onde reside a verdadeira felicidade. Lembremo-nos de Santo Agostinho: "Só aquilo que faz uma pessoa boa a pode fazer feliz."

26 de julho

José Antonio Pagola"

Imagem: Propriedade do blog.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-17º Domingo do Tempo Comum- Ano A, em 25.07.2026. Tradução livre

Céleste Jérusalem — Chant de l'Emmanuel


sábado, 18 de julho de 2026

AO ARRANCAR O JOIO, PODE ACABAR POR ARRANCAR O TRIGO...

XVI - Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 13,24-43

"Ter as coisas absolutamente claras, saber exactamente quem é quem — quem pertence ao lado de dentro e quem ao de fora , demarcar rigorosamente territórios geográficos e ideológicos, possuir critérios claros e distintos para diferenciar os justos dos pecadores… tudo isto é simplesmente contrário ao Evangelho. Jesus diz-nos claramente que não nos cabe separar o trigo do joio, pois correríamos o risco de errar.

O que há em nós que, apesar da clareza do Evangelho, nos leva sempre à tentação de arrancar o joio? Parece que, «desde a fundação do mundo», sentimos a necessidade de nos afirmarmos negando o outro — aquele que é diferente, desigual, estranho ou estrangeiro. Somos tão vulneráveis ​​e medrosos que viver com a diferença nos destabiliza, levando-nos a arquitetar a sua eliminação. Só quando percebermos que tanto o "trigo" como o "joio" habitam o coração de cada pessoa é que evitaremos a pressa de pegar na foice e iniciar a colheita.

Sempre que nós, criaturas, quisemos brincar aos Deuses — mascarando os nossos medos e agindo como ceifeiros , não geramos nada além de terror, sofrimento e morte. Não somos nós os ceifeiros; são os anjos de Deus. Quanto sofrimento poderíamos evitar se reconhecêssemos seriamente que não somos nós os ceifeiros!

Quando dizemos que só os anjos de Deus - e repito: não nós -farão a colheita no final, pode parecer que estamos a incentivar uma atitude de «vale tudo» ou uma sensação de impotência perante a injustiça, a corrupção e o mal. No entanto, o facto de não sermos os ceifeiros não significa que não sejamos chamados a discernir onde brota o trigo e onde cresce o joio — tanto no nosso próprio coração como nas diversas esferas da realidade que habitamos. Claramente, uma esfera não é igual à outra. O que Jesus nos diz é que a palavra final não nos pertence; não temos a lucidez necessária para conhecer cada recanto do coração humano.

Saber viver enquanto se escuta o Espírito do Vivente — eis em que consiste o discernimento — conduz-nos por caminhos de vida, e não de morte e destruição. Porque há tanto ódio, tanto fel e tanto veneno na nossa Igreja e na sociedade, dirigidos àqueles que não pensam nem percebem a realidade da mesma forma que eu? Isto não provém do Espírito do Senhor, que é manso e humilde de coração. Acredito sinceramente que precisamos de uma mudança de perspetiva. O Reino trata do fermento e da semente de mostarda, não da lógica do mundo. O Reino trata da simplicidade das pequenas coisas, não da necessidade doentia de segurança, reconhecimento e domínio.

Por detrás deste impulso de separar, excluir, eliminar, devastar e ceifar — manifestado em insultos, escárnio, tentativas de descrédito e violência, verbal ou de outra natureza — reside uma profunda insegurança existencial. Uma vida dedicada a seguir o Senhor Jesus é um processo contínuo de enraizamento n’Ele. Enraizar a vida n’Aquele que é Compassivo — «vinde a Mim... e encontrareis descanso» — significa saber onde encontro as minhas raízes enquanto ser criado. Ao descobrir a minha vida abraçada por uma Ternura Incondicional, já não preciso de empunhar a foice nem de causar sofrimento; já não preciso de me afirmar à custa de quem quer que seja. Sentimo-nos, então, convidados a percorrer a vida sabendo que a palavra final pertence aos Seus anjos — e, numa das grandes tradições místicas judaicas, o facto de os anjos deterem a palavra final significa que velam por nós na presença do Pai Celestial (Mt 18,10).

Toni Catalá SJ"

Imagem: Propriedade do blog.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-16º Domingo do Tempo Comum-Ano A, em 18.07.2026. Tradução livre

Tu as mis sur moi ta main | Emmanuel Music



sábado, 11 de julho de 2026

ACOLHEI A SEMENTE DO REINO DE DEUS

'De novo começou a ensinar à beira-mar. Uma enorme multidão vem agrupar-se junto dele e, por isso, sobe para um barco e senta-se nele, no mar, ficando a multidão em terra, junto ao mar. Ensinava-lhes muitas coisas em parábolas e dizia nos seus ensinamentos:

«Escutai: o semeador saiu a semear. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram-na. Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra e logo brotou, por não ter profundidade de terra; mas, quando o sol se ergueu, foi queimada e, por não ter raiz, secou. Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, sufocaram-na, e não deu fruto. Outra caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta e a cem por um.» E dizia: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.»
(…) E acrescentou: «Não compreendeis esta parábola? Como compreendereis então todas as outras parábolas?
O semeador semeia a palavra. Os que estão ao longo do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; e, mal a ouvem, chega Satanás e tira a palavra semeada neles. Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso, são aqueles que, ao ouvirem a palavra, logo a recebem com alegria, mas não têm raiz em si próprios, são inconstantes e, quando surge a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, logo desfalecem. Outros há que recebem a semente entre espinhos; esses ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a sedução das riquezas e as restantes ambições entram neles e sufocam a palavra, que fica infrutífera. Aqueles que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra, a recebem, dão fruto e produzem a trinta, a sessenta e a cem por um» ''       Mc4,1-9; 13-20
Aqui temos o Nosso Maior Amigo, Jesus, sobre um barco no Mar da Galileia, ensinado os seus discípulos que estão sobre a areia. Jesus no barco, mas não é derrubado pela adversidade (o mar), os discípulos em terra, mas sentem a pouca estabilidade que a areia lhes oferece, precisam de mais…Em termos de fecundidade,  o mar é cheio de vida, peixinhos, algas, etc. A areia por seu lado é árida, poucas plantas nascem e crescem sobre ela…
É neste cenário real que Jesus apresenta e explica a parábola do semeador. Jesus ensina-nos a descobrir o sucesso, e por vezes, insucesso, da sementeira. Como pode haver insucesso se a Semente é Muito Boa? É isso, que vamos tentar descobrir…
1.Factores externos de influência, que vêm ao nosso encontro /atitude a ter perante eles:
-Distrações
A semente que caiu à beira do caminho- veio um passarinho e tomou-a. Na explicação da parábola, Jesus diz-nos que este passarinho é o demónio e  que nos rouba a semente. Na nossa caminhada, podem  corresponder às distrações que vêm até nós, e nos conseguem roubar atenção do essencial , a Palavra de Deus. Será que o facebook , twiter,os sms,os jogos, as séries televisivas, etc, me  estarão  a roubar a vida de “levezinho”? Ou será, que só lhes dedico tempo na medida certa…
-Desânimo
A semente que caiu em terreno pedregoso-cresceu, veio o calor e secou. Jesus diz-nos , que este calor resulta das tribulações e perseguições por causa da Palavra e  que vêm ter connosco. Como cedemos? É quando perdemos a força. Quando nos deixamos levar pelo desânimo (uma das maiores ciladas do demónio). Recebemos com alegria mas desfalecemos. Todos temos um telemóvel, e quando a bateria fica gasta, o que fazemos? Carregamo-la com ajuda de um carregador… Como podemos ganhar novo ânimo: rezando, como Jesus nos ensinou!
-Divisão, o pecado
A semente que caiu entre espinhos-cresceu, mas os espinhos sufocaram-na. Os espinhos são a sedução das riquezas e as restantes ambições, diz-nos Jesus. Então o que está aqui em causa é a divisão, o pecado. Queremos o bem, mas também queremos o mal. O segredo para inverter esta situação,  é  Servir a Deus e aos irmãos.
2.Factores de internos
-Deus que nos habita
A semente que caiu em bom terreno- cresceu e deu fruto. As condições, as boas disposições, vêm de Deus que está em nós. Apenas cuidamos daquilo que recebemos de Graça e pela Sua Graça. Escutamo-La  com alegria, guardamo-La com todo coração e confiamos no milagre da vida. Esta rebenta, cresce e dá muito, e bom fruto.
-Confiança,  a  Conversão torna o  nosso coração arável
Nas zonas do Douro,  onde a pedra  dos monte e colinas é moída, partida e composta pelo trabalho do homem, dá origem às melhores vinhas do mundo. Estas, resistem ao sol muito quente e dão bom fruto.
As Beiras Portuguesas, ensinaram-me que no inverno se deve afastar a terra de junto da cepa, e que mais tarde,  se deve a voltar a aproximar. Assim, o teor de humidade é o ideal, para que a raiz possa permanecer em todas as estações do ano , e dar bom fruto.
O bom podador faz milagres numa vinha. Deixemos que Deus nos pode,  limpando-nos de todo mal.
Portanto, recebendo a Palavra de Deus, a Boa Semente,  com uma nova Atitude de Conversão, com Fé, Alegria, Esperança, em Oração e Caridade, todo o nosso coração será de Deus um dia, e dará frutos do Reino! Todos os nossos corações serão um só, em Cristo Jesus.
Diac. José Luís Leão-2017