"Pedro confessou muito bem que Jesus é o enviado do Pai
(domingo anterior), é aquele que havia de vir, anunciado pelo Batista, é o
Filho que vem das entranhas compassivas do Deus da Vida, é o Ungido, o Cristo…
mas Pedro não entende, ou não quer entender, que a questão não é confessar
corretamente quem é Jesus — até os demónios confessam que Jesus é o Filho de
Deus —, mas sim segui-lo na maneira como ele se situa na vida, deixar-se
comover ao perceber como se vive como Filho, surpreender-se com o que Jesus entende
por ser o Messias de Deus. Podemos saber toda a "ortodoxia" de cor e
estar terrivelmente mal situados na vida.
Quando Pedro ouve Jesus anunciar o que pode acontecer em
Jerusalém — «sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos
escribas» —, enfrenta Jesus e repreende-o. Pedro não quer ouvir falar de um
Jesus que se entrega; quer um Messias triunfante, legitimado pelo sucesso e
pelo reconhecimento. Jesus é contundente: "Afasta-te de mim, Satanás!
Estás a preparar-me uma cilada, escandalizas-me". O mesmo que disse nas
tentações, diz agora a Pedro. Não é que Pedro queira poupar Jesus da adversidade
pela amizade e pelo carinho; se assim fosse, a resposta de Jesus não teria sido
tão radical. Precisamos de evitar leituras "adocicadas" do Evangelho.
Aqui, mais uma vez, encontramo-nos no âmago do Evangelho:
Jesus é fiel até ao fim; é aquele que não foge quando vê o lobo aproximar-se,
que não foge quando fica a saber que Herodes o quer matar... "até ao fim,
até ao terceiro dia, estarei a curar os doentes e a expulsar os demónios".
Jesus quer ir a Jerusalém, sabendo o que pode vir pela
frente; não por obstinação, mas por compaixão. Não vai a Jerusalém por um
destino fatal, desejado por um deus cruel que quer sacrifícios sangrentos —
atenção: as imagens arcaicas de Deus continuam actuantes! Quer ir porque Jesus
é filho de Israel e Jerusalém é o auge da sua alegria, como diz o salmista,
embora saiba que a transformaram no lugar dos “traficantes da dor”. Sabe que
converteram o lugar de oração e de encontro dos povos num “covil de ladrões”.
Como filho de Israel, quer levar a compaixão para o centro do poder religioso,
mesmo sabendo que pode ser triturado por ele. Não quer deixar ninguém sem
possibilidade de abertura ao Reino que está a acontecer.
Ora, após o confronto com Pedro, Jesus diz aos discípulos que
quem quiser ganhar tem de perder; quem quiser autoafirmar a sua vida tem de a
libertar, tem de a ceder; quem o quiser seguir tem de carregar as suas perdas
de prestígio, de relevância, de riqueza, de vanglória, de domínio, de
prepotência… isto é carregar a cruz e caminhar com Ele até ao fim. “Ganhar o
mundo não serve de nada se arruinar a vida.” Obrigado, Francisco Javier, pelo
belo testemunho que nos deste sobre isto! ... Pensar como os homens e pensar
como Deus são coisas incompatíveis. Pensar como Deus é percorrer um caminho
humilde, compassivo, livre, pacificado, caminhando com ternura e sentido de
justiça. Obrigado, Jesus, porque contigo é possível caminhar.
Toni Catalá, SJ"
Imagem: Retirada do Google imagens em 30.08.2026;
Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-22º Domingo Comum-Ano A, em 30.08.2026. Tradução livre




