sexta-feira, 18 de setembro de 2026

VÊS COM MAUS OLHOS O FACTO DE EU SER BOM?

XXV- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 20, 1-16 

"Continuamos o caminho para Jerusalém, e Jesus está preocupado porque os seus discípulos — a comunidade — se estão a perder em perguntas, pedidos e comportamentos inoportunos (“quem é o maior no Reino de Deus?”, “os discípulos repreendem os pequenos que se aproximam de Jesus”, “dai os primeiros lugares do Reino aos meus filhos”, pede a mãe de Tiago e de João...). Jesus anuncia o que o espera por ter feito da sua vida um serviço até ao fim, mas a sua comunidade não quer nem compreender nem ouvir.

Perante esta confusão da comunidade, que quer conhecer os critérios de relevância e importância no Reino de Deus — critérios que se revelam nas palavras e nas ações de Jesus —, Ele conta-lhes uma parábola marcante por ser inquietante, irritante e provocadora: a dos trabalhadores da vinha. Ao lermos o Evangelho deste domingo, devemos perceber que o último versículo do capítulo 19 — “E muitos que são primeiros serão últimos, e muitos que são últimos serão primeiros” — deveria ser o primeiro versículo do capítulo 20, onde nos é narrada a parábola que termina da mesma maneira no versículo 16: “assim, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos”.

É uma parábola que rompe com a lógica da relação contratual com Deus. É uma parábola que nos mergulha na novidade radical do Evangelho; não me cansarei de repetir que a Boa Nova de Jesus não é "mais do mesmo". O dono da vinha — vinha que representa o Reino de Deus — vai contratando trabalhadores ao longo do dia: ao amanhecer, a meio da manhã, ao meio-dia, a meio da tarde, na penúltima hora (a famosa "undécima hora"), numa jornada de sol a sol, de doze horas... Ele encontra os últimos desta vida: aqueles que dizem “ninguém nos contratou”. Envia-os para trabalhar na vinha; são os últimos, aqueles de quem ninguém se lembra, os que não têm oportunidades, possivelmente os mais desajeitados e sem competências sociais, como diríamos hoje.

No final do dia, o salário era pago diariamente; diz ao encarregado que pague a todos a mesma diária, começando pelos últimos. Evidentemente, os primeiros protestam e murmuram contra o patrão: “nós, que suportamos o calor abrasador do dia... e recebemos o mesmo”. Isto não nos faz lembrar a queixa do irmão mais velho na parábola do filho pródigo — quando o pai sai para o ir buscar, tal como fez com o filho mais novo, e ele não quer entrar e recrimina-o: “eu, que estive em casa sempre, sem desobedecer a uma ordem tua...” —? A coerência do Evangelho é fascinante.

O dono da vinha, perante o protesto dos primeiros, lança-lhes três questões, e atrevo-me a dizer que na segunda está todo o Evangelho.

A primeira questão é óbvia: não me venham falar de justiça ou injustiça, pois acordaram comigo o salário normal e justo e concordaram.

A segunda é a chave: “Será que não tenho liberdade para fazer o que quero com o que é meu?” Genial! Quando estabeleço uma relação de contrato, de lei, e não de gratuidade com Deus, acontece que o importante sou eu; Deus torna-se uma mera variável dependente do meu comportamento: “se trabalho doze horas, pagas-me por doze; se trabalho uma, pagas-me por uma; se me comporto bem, recompensas-me; se me comporto mal, castigas-me... mas sou eu, ó Deus, quem dita o ritmo”. E Deus diz-me — diz-nos —: quem és tu para me dizer o que devo fazer?

A terceira flui naturalmente: “Será que não te alegras por eu ser bom?” Reconheçamos que temos dificuldade em aceitar as consequências de Deus ser bom. Se vivermos o facto de estarmos na vinha desde a primeira hora como uma dádiva, alegremo-nos por Deus ser bom e por estes últimos também receberem o pagamento.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Retirada do Google imagens em 19.09.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-25º Domingo Comum-Ano A, em 19.09.2026. Tradução livre

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BRAÇOS NUS DE JESUS


«Depois cruxificaram-n’O  e repartiram entre si os Seus vestidos, sorteando-os para verem o que levava cada um.»  Mc 15, 24
Imaginar Jesus pregado numa cruz não é fácil, Ele, O Filho amado de Deus Pai, sujeito a tão cruel estado.
O Todo Poderoso, deixa-Se pregar no madeiro  sem resistir, entregando-Se por Amor à Humanidade, por toda Humanidade, a  do presente, a do passado e a do futuro.  É o Verbo feito Carne, que  aceita  inscrever-Se  no madeiro, que nunca recusa a Vontade e  a Sabedoria do Pai.
Tão alto é o preço do nosso Resgate, mas  muito mais alto é o Amor de  Jesus  por todos nós. Quem muito perdoou, muito amou.
Nasceu Jesus  e foi deitado numa manjedoura, na sua morte, foi  pregado numa cruz. Mas aqueles Braços de Menino,  que  só puderam contar com  a ternura de  Maria e José,  já estavam abertos para  todos abraçar. Na Sua caminhada entre nós , Jesus teve sempre os Braços abertos para acolher, acarinhar, tocar, orar ao Pai, transformar, perdoar,  curar…No madeiro teve os Braços abertos para nos resgatar, e agora Ressuscitado, Seus  Braços abertos estão  para sempre nos receber…
Braços nus de Jesus sobre a cruz, "sem nada "e "com tudo"...
Braços nus de Jesus, Braços de Pai, de Mãe, de Irmão. Braços Santos!
No nosso caminhar, quando cairmos, saibamos confiar nos Braços de Jesus para Ele nos erguer, se nos sujarmos,  saibamos aproximar de Jesus para Ele nos purificar, no desânimo, saibamos encontrar o abraço de Jesus para nos animar.
Neste mundo que ainda é frio, saibamos ter os braços abertos como Jesus, para carinhosamente suavizar o fardo dos nossos irmãos mais abatidos.
Diác. José Luís Leão/2015
Imagem: Retirada do Google imagens em 14.09.2026;
Senhor,  que eu nunca me esqueça dos Braços Teus!

[LU] Cruz fiel e redentora - Manuel de Faria


 

sábado, 12 de setembro de 2026

NÃO DEVIAS TU TAMBÉM TER COMPAIXÃO DO TEU COMPANHEIRO ?

XXIV- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 18, 21-35

"Jesus continua com os seus discípulos a caminho de Jerusalém, instruindo-os sobre como lidar com os conflitos na comunidade, tal como foi proclamado no evangelho do passado domingo. Pedro insiste em perguntar quantas vezes é preciso perdoar o irmão que ofende. A resposta de Jesus é contundente: sempre! (setenta vezes sete).

É neste momento que surgem a inquietação, o mal-estar, a culpa e o sentimento de infidelidade em muitos seguidores e seguidoras de Jesus. Enredamo-nos no nosso "mundo afectivo raquítico e ofendido" e transformamo-lo no critério supremo para o perdão; constatamos a enorme dificuldade que temos em perdoar e, então, duvidamos que o Deus da vida também nos perdoe sempre e definitivamente.

Se ficarmos presos ao "eu", não há saída. Acomodamo-nos na ofensa, na ferida, e a nossa vida torna-se amarga. Perdemos a ternura, a compaixão e a doçura, dando lugar ao ressentimento e à impotência — sobretudo quando continuamos a rezar «tal como nós perdoamos». Quanto sofrimento gera o querer perdoar e não conseguir, o experimentar a impotência! Por outro lado, tem-se a impressão de que Jesus não está a falar com seres de outra galáxia, nem com uma elite, mas a exortar homens e mulheres como nós. Jesus não pede o impossível, mas leva-nos ao limite para que as nossas potencialidades aflorem.

Jesus diz-nos que é preciso cortar, soltar (perdoar) a ofensa, não nos acomodarmos nela, para evitar que se desencadeiem dinâmicas infernais de ódio, vingança e injustiça. Se não tomarmos uma atitude, destruir-nos-emos. É preciso interromper a longa trajetória de ódios que passam de geração em geração. Jesus é judeu e sabe que as vinganças se eternizam: “Caim será vingado sete vezes, e Lameque, setenta e sete” (Gn 4,24). Para Jesus, o perdão nunca pode ser menos abrangente do que os desejos de vingança; caso contrário, já não existiríamos...

Jesus responde a Pedro com uma parábola que dispensa explicações: sou capaz de perdoar se me sinto perdoado. O problema é que, hoje, não sentimos necessidade de ser perdoados; tornamo-nos deuses. Sentir necessidade de perdão não significa fazer o papel de vítima, alimentando a baixa autoestima ou espiritualidades que nos corroem por dentro… mas sim reconhecer que, se nos sobrestimamos — o orgulho —, prejudicamos os outros; e se nos subestimamos — não nos reconhecendo como criaturas agraciadas —, prejudicamo-nos a nós próprios... e é essa a nossa tendência.

Só o olhar compassivo de Jesus nos coloca de volta no nosso devido lugar. Só a experiência de um amor compassivo, que nos abraça e nos faz sentir amados, nos restaura. Assim, é mais fácil que o nosso "eu" ferido não se prenda à amargura e à injustiça, mas se volte para a compaixão pelo outro.

A parábola mostra-nos, de forma genial, onde pode levar esta falta de reconhecimento grato — que é o que nos permite sentir o perdão incondicional —: à nossa própria destruição. Para nos amar, o nosso Deus pede apenas que nos deixemos amar; por isso, ele lança fora e perdoa tudo aquilo que acreditamos nos afastar dele e nos manter no orgulho. O homem e a mulher que se sentem amados são capazes de sentir compaixão pelo próximo.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Retirada do Google imagens em 12.09.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-24º Domingo Comum-Ano A, em 12.09.2026. Tradução livre

Voici ce cœur (St Jean Eudes) | Processionnal d'offertoire - Sacré Cœur | Official Lyrics Video

 


sábado, 5 de setembro de 2026

O QUE FAÇO POR UMA IGREJA MAIS FIEL A JESUS?


XXIII
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 18, 15-20

"«Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles». A melhor forma de tornar Cristo presente na sua Igreja é manter-nos unidos, agindo «em seu nome», movidos pelo seu Espírito. A Igreja não precisa tanto das nossas declarações de amor ou das nossas críticas, mas sim do nosso compromisso real. Não são poucas as perguntas que podemos colocar a nós próprios.

O que faço para criar um clima de conversão coletiva no seio desta Igreja, sempre necessitada de renovação e transformação? Como seria a Igreja se todos vivessem a adesão a Cristo mais ou menos como eu a vivo? Seria ela mais ou menos fiel a Jesus?

O que ofereço em termos de espírito, verdade e autenticidade a esta Igreja, tão necessitada de radicalidade evangélica para oferecer um testemunho credível de Jesus no meio de uma sociedade indiferente e descrente?

Como contribuo, com a minha vida, para edificar uma Igreja mais próxima dos homens e mulheres do nosso tempo, que saiba não só ensinar, pregar e exortar, mas, sobretudo, acolher, escutar e acompanhar aqueles que vivem perdidos, sem conhecer o amor nem a amizade?

O que ofereço para construir uma Igreja samaritana, de coração grande e compassivo, capaz de esquecer os seus próprios interesses para viver voltada para os grandes problemas da humanidade?

O que faço para que a Igreja se liberte dos medos e das servidões que a paralisam e a prendem ao passado, e se deixe penetrar e vivificar pela frescura e pela criatividade que nascem do evangelho de Jesus?

O que eu ofereço, nestes momentos, para que a Igreja aprenda a «viver em minoria», sem grandes pretensões sociais, mas de maneira humilde, como «fermento» oculto, «sal» transformador, pequena «semente» disposta a morrer para dar vida? Que faço por uma Igreja mais alegre e esperançosa, mais livre e compreensiva, mais transparente e fraterna, mais crente e credível, mais de Deus e menos do mundo, mais de Jesus e menos dos nossos interesses e ambições? A Igreja muda quando nós mudamos; converte-se quando nós nos convertemos.

6 de setembro

José António Pagola"

Imagem: Retirada do Google imagens em 05.09.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-23º Domingo Comum-Ano A, em 05.09.2026. Tradução livre

Taize Ubi caritas