sábado, 13 de junho de 2026

PROGRAMA LIBERTADOR


XI
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 9, 36-10.8

"Muitos cristãos acreditam que vivem a sua fé de forma responsável porque observam cuidadosamente determinadas práticas religiosas e procuram alinhar o seu comportamento com as leis morais e as normas eclesiásticas.

Da mesma forma, muitas comunidades cristãs acreditam que cumprem fielmente a sua missão porque se esforçam por oferecer serviços de catequese e formação na fé e se empenham em celebrar o culto cristão com dignidade.

Será que era só isso que Jesus pretendia instaurar quando enviou os seus discípulos ao mundo? Será esta a vida que ele quis incutir no coração da história?

Precisamos de ouvir novamente as palavras de Jesus para redescobrir a verdadeira missão dos crentes no meio desta sociedade. O evangelista Mateus regista o seu mandamento assim: “Ide e pregai que o reino dos céus está próximo. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. De graça recebestes, de graça dai”.

A nossa primeira tarefa hoje é também proclamar que Deus está perto de nós, empenhado em preservar a felicidade da humanidade. Mas esta proclamação de um Deus salvador não se faz apenas através de discursos e palavras evocativas. Não se assegura apenas através do catecismo ou da educação religiosa. Jesus recorda-nos como proclamar Deus: trabalhando desinteressadamente para dar vida nova às pessoas.

“Curar os doentes”, isto é, libertar as pessoas de tudo o que lhes rouba a vida e lhes causa sofrimento. Curar a alma e o corpo daqueles que se sentem destruídos pela dor e angustiados pela dureza impiedosa do quotidiano.

“Ressuscitar os mortos”, isto é, libertar as pessoas daquilo que bloqueia as suas vidas e mata a sua esperança. Despertar de novo o amor pela vida, a confiança em Deus, a vontade de lutar e o desejo de liberdade em tantos homens e mulheres em quem a vida está a morrer lentamente.

“Purificar os leprosos”, isto é, purificar esta sociedade de tanta falsidade, hipocrisia e convencionalismo. Para ajudar as pessoas a viver com mais verdade, simplicidade e honestidade.

“Expulsar os demónios” significa libertar as pessoas dos muitos ídolos que nos escravizam, nos possuem e pervertem as nossas relações. Onde quer que as pessoas sejam libertadas, aí Deus está a ser proclamado.

11º Domingo do Tempo Comum – Ano A

14 de junho

José António Pagola"

Imagem: Retirada do Google imagens em 13.06.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-11º Domingo Comum-Ano A, em 13.06.2026. Tradução livre

sábado, 6 de junho de 2026

«Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício»


'Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me!» E ele levantou-se e seguiu-o.

Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos.
Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?»
Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»' Mt 9, 9-13

Jesus viu um homem chamado Mateus, compadece-se dele e chama-o.
Com este encontro, a vida de Mateus abre-se, alegra-se, entrega-se ao Mistério de Jesus. Deste modo, Mateus abre as portas de sua casa  a Jesus e aos seus discípulos. Mateus não pôde guardar este mistério só para si, e abre as portas aos seus colegas, cobradores de impostos,  e  a outros pecadores, permitindo o encontro destes com Jesus.
O ambiente é de grande proximidade, estão todos sentados à mesa, partilhando uma refeição. Este encontro vai inquietar os fariseus : «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?».
Jesus escuta-os, não os ignora,  e responde-lhes, «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.». Depois, Jesus acrescenta: « Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».

-«Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício.»
Conforme o pedido de Jesus, tentei descobrir esta Palavra no Antigo Testamento, recorrendo a citações de diversos Livros Sagrados :
1. Oseias 6,6 « Porque Eu quero a misericórdia  e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos.».
 A resposta do povo através do culto (sacrifícios e holocaustos) era superficial. O profeta Oseias insiste no conhecimento de Deus, expresso numa vida de comunhão com Ele.
Apesar da infidelidade do seu povo, se ele se converter a Deus, a Sua Misericórdia terá a última palavra « Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei de todo o coração, porque a minha cólera se afastou deles. Serei para Israel como o orvalho: florescerá como um lírio e deitará raízes como um cedro do Líbano.» Os 14, 5-6
É preciso conhecer Deus melhor, aproximarmo-nos do Seu Amor, e convertermo-nos a Ele. A Sua Misericórdia nos Salvará.

2.  Amós 5, 22-24 «Se me ofereceis holocaustos e oblações, não as  aceito, nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos, não quero ouvir mais a música das vossas harpas. Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca.»
Esta profecia foi dirigida ao Reino do Norte, Israel, numa situação de melhoria económica, mas em que os pequenos proprietários se veem sufocados pelos interesses dos poderosos, acentuando-se deste modo, a divisão entre ricos e pobres, gerando-se injustiças sociais. A par desta decomposição social vem a corrupção religiosa.
Deus diz-nos que desvaloriza os sacríficos e os holocaustos, e valoriza a equidade e justiça .
A conversão, exige de nós  atitudes concretas,  atitudes conformes à vontade de Deus. Nessa necessária mudança, encontraremos a Fonte e a Torrente que não seca, a Sua Misericórdia.

3. Isaías1, 11-20  « De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? – diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. (…)
Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas.
Vinde agora, entendamo-nos – diz o Senhor. Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve. Mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra;
se recusardes, se vos revoltar­des, sereis devorados pela espada. É o Senhor quem o declara.»
O Senhor diz-nos que a superficialidade não serve. Importante e vital é a conversão a Ele de todo coração. A Sua Misericórdia nos cobrirá, e justificados por Ele de graça, viveremos verdadeiramente para Ele e para os outros, seremos felizes e faremos os outros felizes.
A recusa da Sua Misericórdia, é caminho que conduz à morte.

4. Primeiro Livro de Samuel 15, 22-23  «Samuel replicou-lhe, então: «Porventura, o Senhor se compraz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência à sua palavra? A obediência vale mais do que os sacrifícios, e a submissão, mais do que a gordura dos carneiros.
A desobediência é tão culpável como a superstição, e a insubmissão é como o pecado da idolatria. Visto, pois, que rejeitaste a palavra do Senhor, também Ele te rejeita e te tira a realeza!»
Estas palavras foram dirigidas por Samuel ao primeiro rei de Israel, Saul.
O que nos deve guiar é a Palavra de Deus, à qual devemos ser fiéis ( atitude interior que agrada ao Senhor).

5. Salmo 51 (50), 18-19 «Não te comprazes nos sacrifícios nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça. O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.»
Salmo do Rei David. Dado tratar do arrependimento pelo pecado, pertence ao número dos “salmos penitenciais”.
Resumo:
Sacrifício agradável a Deus é o arrependimento contrito. Deus não se compraz com holocaustos, com cultos externos. Deus alegra-se com a conversão do nosso coração, com a transformação do nosso interior à Sua Santa Vontade.
Jesus aproxima-se de todos os pecadores com ternura,  mostra-nos  o Amor do Pai para nos restituir a vida. À Luz desse Amor, vemos a Verdade e podemos descobrir o que está mal em nós,  o que necessita de conversão.
Com uma conversão permanente ao Senhor, mudanças de atitude, com esforço interior, vamos desistindo dos nossos erros, e vamos aderindo ao bem, à Palavra de Deus.
A Palavra de Deus nos converterá e a Sua infinita Misericórdia nos salvará. Assim, a Sua Justiça nos justificará para a Vida Eterna.
« Não foram os justos que Eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores.» (Lc 5, 32).
Diác. José Luís Leão/2017
Imagem: Retirada da "Google imagens" em 06.06.2026

sábado, 30 de maio de 2026

DEUS AMOU TANTO O MUNDO…


IX- Domingo do Tempo Comum- Solenidade da Santíssima Trindade -Ano A

Texto Sagrado: Jo 3,16-18 

No imaginário cristão que tanto prezamos, a Santíssima Trindade é um mistério; e mistério é o inexplicável por excelência, aquilo que não pode ser compreendido, o profundamente oculto e secreto, o arcano, portanto aquilo que não pode ser explicado e só pode ser “acreditado”. Para uns, é um dogma imposto que apenas proporciona trabalho aos teólogos mais ou menos “ociosos”. Para outros, estudantes de teologia e para os de áreas afins, é um assunto mais ou menos esotérico e complicado que deve ser ultrapassado… o que significa que, para a vida concreta do dia-a-dia, não significa absolutamente nada. Que grande pena!

Vimos e celebrámos nestes últimos domingos que, para os primeiros, no calor de se sentirem amados e em paz (“os nossos corações não ardiam dentro de nós…”) pelo Crucificado e Ressuscitado, a palavra “Deus” por si só explodiu nos seus rostos. As palavras não conseguiam expressar tudo o que Jesus tinha experimentado e sentido. Queriam exprimir que Deus era aquele "Abba-Imma" (Pai-Mãe) que levou Jesus a amar os oprimidos do seu povo com tanta ternura, que se comoveu e curou os enfermos, que se encantou com as crianças e as acolheu, que se entristeceu com a dureza de coração daqueles que se sentiam seguros com Deus, mas desprezavam os outros, que orou a um Deus que dedicou toda a sua vida ao serviço até ao fim, que nada pediu para si mesmo, a não ser que nos amássemos uns aos outros... Precisavam de estender a palavra "Deus" ao seu limite, até ao seu ponto de rutura, porque em Jesus revelou-se como um Deus perdidamente apaixonado pelo seu mundo e pelas suas criaturas. Então começaram a orar e a viver em «Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo», e isto antes de os teólogos terem sistematizado o que quer que fosse, nem a hierarquia ter declarado nada — não nos esqueçamos disto. Foram os santos fiéis, como o Papa Francisco gosta de chamar aos cristãos comuns, que deram origem à novidade radical do “dogma” da Trindade… pois a sabedoria vem da simplicidade… diz Jesus.

É claro que a Santíssima Trindade é um mistério, mas um mistério é algo que vivemos todos os dias e que nos sobrecarrega com palavras. “Não há palavras…” dizemos quando queremos expressar algo que nos comoveu profundamente. Os primeiros cristãos ficaram sem palavras e, contra toda a lógica e contra toda a correcção política na esfera cultural judaica e grega, tiveram de ser criativos, lutando com a linguagem para exprimir e celebrar que o “Mistério Absoluto”, a “Realidade que, em última análise, tudo determina”, o “totalmente Outro”… em Jesus se mostrou, se revelou, como um Reino de Compaixão. (“Eu vos abençoo, Pai… vinde a mim, todos vós que estais cansados ​​e sobrecarregados…”). É uma pena que alguns de nós queiram ser contraculturais, alternativos e todas essas coisas — que não estou a dizer que não sejam santas e boas — e, ao mesmo tempo, não saibamos contar a fascinante história de Jesus com o seu Deus — connosco… Toda esta história é a Santíssima Trindade. Devemos reconhecer que Jesus deixou os seus seguidores, deixou-nos, com um problema: em qualquer tempo, o Evangelho já não é do mesmo; é novo, e o novo não pode ser “contado com as mesmas coisas de sempre”. É por isso que somos chamados à escuta contínua do Espírito. O Mistério do Amor que transborda em nós impede-nos de transformar o Deus Vivo num ídolo fossilizado.

Toni Catalá SJ

Imagem: Retirada do Google imagens em 30.05.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-9º Domingo Comum-Ano A, em 30.05.2026. Tradução livre