sexta-feira, 31 de julho de 2026

BUSCANDO DEUS


XVIII 
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 14,13-21

Quase sem perceber e empurrado por vários fatores, temos gradualmente desumanizado aquele gesto muito sincero e humano de sentar-se à mesa para comer juntos.

A comida tornou-se para muitos algo puro e funcional, necessário para organizar rapidamente e precisamente dentro do dia de trabalho. Está cada vez mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar ao redor da mesa. Em muitas casas, aquela mesa feita para ser cercada não é mais útil para os pais e os filhos se encontrarem, partilharem suas vidas, conversarem e descansem juntos.

Outros estão a acostumarem-se a "alimentar o seu corpo" nesses refeições impessoais em restaurantes ou no canto do balcão de autoatendimento. Não há poucos que sejam forçados a participar em refeições cerimoniais ou de trabalho, onde o gesto amigável de comer juntos é substituído por interesse, pragmatismo ou ostentação.

O gesto de Jesus, que convida as pessoas a recuar para partilhar uma refeição simples, abençoando Deus pelo pão que recebemos, pode ser um apelo a nós. Como Xabier Basurko diz em seu estudo "Partilhar o Pão", comer é muito mais do que "introduzir uma certa quantidade de calorias no corpo".

A necessidade de alimentar-se é, acima de tudo, um sinal da nossa pobreza radical. Os seres humanos são feitos para comer com os outros, partilhando a mesa com família e amigos. Comer juntos é para fraternizar, para dialogar, para crescer na amizade, para partilhar o dom da vida.

É por isso que é tão difícil agradecer a Deus quando alguém tem mais comida do que aquele que a precisa, enquanto outros sofrem de miséria e fome. Sentimos culpa por essas palavras de Gandhi: "Tudo o que você come sem necessidade é roubo do estômago do pobre." Talvez nos países de prosperidade devamos aprender a abençoar a mesa de outra forma: agradecendo a Deus, mas ao mesmo tempo, pedindo perdão por nossa insolidariedade e tornando-nos conscientes da nossa responsabilidade em relação aos famintos da Terra.

2 de Agosto,

José António Pagola"

Imagem: Propriedade do blog.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-18º Domingo de Páscoa-Ano A, em 31.07.2026. Tradução livre

Voici le corps et le sang du Seigneur | Emmanuel Music


 

sábado, 25 de julho de 2026

BUSCAR A DEUS


XVII 
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 13,44-52

Os estudos sociológicos indicam que a crise religiosa na Europa caminha para uma «indiferença» crescente — uma indiferença silenciosa, alheia a qualquer consideração sobre Deus. No entanto, um número cada vez maior de pessoas, impulsionadas por um certo "anseio por Deus", sente a necessidade de procurar "algo diferente", uma nova forma de acreditar n'Ele. Como se procura Deus?

Sem dúvida, cada pessoa deve partir da sua própria experiência. Não é necessário copiar os outros, nem fazer algo forçado ou artificial. Cada um conhece os seus desejos e fragilidades, os seus vazios e os seus medos. Cada um conhece a sua própria "necessidade" de Deus. A voz d'Ele nunca se cala; Não grita com os lábios, mas sussurra aos nossos corações.

É precisamente por isso que procurar Deus externamente — em livros, argumentos ou debates — não chega. "Discutir religião" é uma coisa; procurar Deus com um coração sincero é algo bem diferente. Percebemos por nós mesmos quando estamos a fugir de Deus e quando estamos verdadeiramente a procurá-Lo. Santo Agostinho exprimiu-o assim: "Não te disperses. Volta-te para o teu interior. A verdade habita no homem interior".

Procurar Deus exige esforço, mas o encontro com Ele nunca é fruto de uma vontade fanática ou de um ascetismo forçado. Deus é um dom, e o que importa é acolhê-Lo com "simplicidade de alma". Lembremos a reflexão da velha prioresa na obra *Diálogos das Carmelitas*, de Georges Bernanos: "Uma vez deixada para trás a infância, é preciso sofrer muito para retornar a ela — assim como a aurora só reaparece após uma longa noite. Terei eu me tornado criança novamente?"

Não é sensato procurar Deus confiando apenas nas próprias intuições. Há muitas formas de se enganar ou de permanecer preso a um ciclo de egocentrismo, focado apenas nos próprios sentimentos e ideias. Por isso, é melhor partilhar e comparar a própria experiência com alguém que nos possa guiar com base na sua própria vivência de Deus. Esta partilha mútua pode ser o melhor incentivo para continuar a procurá-Lo. Na sua parábola do "tesouro escondido no campo", Jesus fala do homem que, "cheio de alegria", vende tudo o que possui para adquirir o tesouro. Procurar a Deus não gera tristeza nem amargura; Pelo contrário, isto gera alegria e paz, pois a pessoa começa a descobrir onde reside a verdadeira felicidade. Lembremo-nos de Santo Agostinho: "Só aquilo que faz uma pessoa boa a pode fazer feliz."

26 de julho

José Antonio Pagola"

Imagem: Propriedade do blog.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-17º Domingo de Páscoa-Ano A, em 25.07.2026. Tradução livre

Céleste Jérusalem — Chant de l'Emmanuel


sábado, 18 de julho de 2026

AO ARRANCAR O JOIO, PODE ACABAR POR ARRANCAR O TRIGO...

XVI - Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 13,24-43

"Ter as coisas absolutamente claras, saber exactamente quem é quem — quem pertence ao lado de dentro e quem ao de fora , demarcar rigorosamente territórios geográficos e ideológicos, possuir critérios claros e distintos para diferenciar os justos dos pecadores… tudo isto é simplesmente contrário ao Evangelho. Jesus diz-nos claramente que não nos cabe separar o trigo do joio, pois correríamos o risco de errar.

O que há em nós que, apesar da clareza do Evangelho, nos leva sempre à tentação de arrancar o joio? Parece que, «desde a fundação do mundo», sentimos a necessidade de nos afirmarmos negando o outro — aquele que é diferente, desigual, estranho ou estrangeiro. Somos tão vulneráveis ​​e medrosos que viver com a diferença nos destabiliza, levando-nos a arquitetar a sua eliminação. Só quando percebermos que tanto o "trigo" como o "joio" habitam o coração de cada pessoa é que evitaremos a pressa de pegar na foice e iniciar a colheita.

Sempre que nós, criaturas, quisemos brincar aos Deuses — mascarando os nossos medos e agindo como ceifeiros , não geramos nada além de terror, sofrimento e morte. Não somos nós os ceifeiros; são os anjos de Deus. Quanto sofrimento poderíamos evitar se reconhecêssemos seriamente que não somos nós os ceifeiros!

Quando dizemos que só os anjos de Deus - e repito: não nós -farão a colheita no final, pode parecer que estamos a incentivar uma atitude de «vale tudo» ou uma sensação de impotência perante a injustiça, a corrupção e o mal. No entanto, o facto de não sermos os ceifeiros não significa que não sejamos chamados a discernir onde brota o trigo e onde cresce o joio — tanto no nosso próprio coração como nas diversas esferas da realidade que habitamos. Claramente, uma esfera não é igual à outra. O que Jesus nos diz é que a palavra final não nos pertence; não temos a lucidez necessária para conhecer cada recanto do coração humano.

Saber viver enquanto se escuta o Espírito do Vivente — eis em que consiste o discernimento — conduz-nos por caminhos de vida, e não de morte e destruição. Porque há tanto ódio, tanto fel e tanto veneno na nossa Igreja e na sociedade, dirigidos àqueles que não pensam nem percebem a realidade da mesma forma que eu? Isto não provém do Espírito do Senhor, que é manso e humilde de coração. Acredito sinceramente que precisamos de uma mudança de perspetiva. O Reino trata do fermento e da semente de mostarda, não da lógica do mundo. O Reino trata da simplicidade das pequenas coisas, não da necessidade doentia de segurança, reconhecimento e domínio.

Por detrás deste impulso de separar, excluir, eliminar, devastar e ceifar — manifestado em insultos, escárnio, tentativas de descrédito e violência, verbal ou de outra natureza — reside uma profunda insegurança existencial. Uma vida dedicada a seguir o Senhor Jesus é um processo contínuo de enraizamento n’Ele. Enraizar a vida n’Aquele que é Compassivo — «vinde a Mim... e encontrareis descanso» — significa saber onde encontro as minhas raízes enquanto ser criado. Ao descobrir a minha vida abraçada por uma Ternura Incondicional, já não preciso de empunhar a foice nem de causar sofrimento; já não preciso de me afirmar à custa de quem quer que seja. Sentimo-nos, então, convidados a percorrer a vida sabendo que a palavra final pertence aos Seus anjos — e, numa das grandes tradições místicas judaicas, o facto de os anjos deterem a palavra final significa que velam por nós na presença do Pai Celestial (Mt 18,10).

Toni Catalá SJ"

Imagem: Propriedade do blog.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-16º Domingo de Páscoa-Ano A, em 18.07.2026. Tradução livre

Tu as mis sur moi ta main | Emmanuel Music



sábado, 11 de julho de 2026

ACOLHEI A SEMENTE DO REINO DE DEUS

'De novo começou a ensinar à beira-mar. Uma enorme multidão vem agrupar-se junto dele e, por isso, sobe para um barco e senta-se nele, no mar, ficando a multidão em terra, junto ao mar. Ensinava-lhes muitas coisas em parábolas e dizia nos seus ensinamentos:

«Escutai: o semeador saiu a semear. Enquanto semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram-na. Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra e logo brotou, por não ter profundidade de terra; mas, quando o sol se ergueu, foi queimada e, por não ter raiz, secou. Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, sufocaram-na, e não deu fruto. Outra caiu em terra boa e, crescendo e vicejando, deu fruto e produziu a trinta, a sessenta e a cem por um.» E dizia: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça.»
(…) E acrescentou: «Não compreendeis esta parábola? Como compreendereis então todas as outras parábolas?
O semeador semeia a palavra. Os que estão ao longo do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; e, mal a ouvem, chega Satanás e tira a palavra semeada neles. Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso, são aqueles que, ao ouvirem a palavra, logo a recebem com alegria, mas não têm raiz em si próprios, são inconstantes e, quando surge a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, logo desfalecem. Outros há que recebem a semente entre espinhos; esses ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a sedução das riquezas e as restantes ambições entram neles e sufocam a palavra, que fica infrutífera. Aqueles que recebem a semente em boa terra são os que ouvem a palavra, a recebem, dão fruto e produzem a trinta, a sessenta e a cem por um» ''       Mc4,1-9; 13-20
Aqui temos o Nosso Maior Amigo, Jesus, sobre um barco no Mar da Galileia, ensinado os seus discípulos que estão sobre a areia. Jesus no barco, mas não é derrubado pela adversidade (o mar), os discípulos em terra, mas sentem a pouca estabilidade que a areia lhes oferece, precisam de mais…Em termos de fecundidade,  o mar é cheio de vida, peixinhos, algas, etc. A areia por seu lado é árida, poucas plantas nascem e crescem sobre ela…
É neste cenário real que Jesus apresenta e explica a parábola do semeador. Jesus ensina-nos a descobrir o sucesso, e por vezes, insucesso, da sementeira. Como pode haver insucesso se a Semente é Muito Boa? É isso, que vamos tentar descobrir…
1.Factores externos de influência, que vêm ao nosso encontro /atitude a ter perante eles:
-Distrações
A semente que caiu à beira do caminho- veio um passarinho e tomou-a. Na explicação da parábola, Jesus diz-nos que este passarinho é o demónio e  que nos rouba a semente. Na nossa caminhada, podem  corresponder às distrações que vêm até nós, e nos conseguem roubar atenção do essencial , a Palavra de Deus. Será que o facebook , twiter,os sms,os jogos, as séries televisivas, etc, me  estarão  a roubar a vida de “levezinho”? Ou será, que só lhes dedico tempo na medida certa…
-Desânimo
A semente que caiu em terreno pedregoso-cresceu, veio o calor e secou. Jesus diz-nos , que este calor resulta das tribulações e perseguições por causa da Palavra e  que vêm ter connosco. Como cedemos? É quando perdemos a força. Quando nos deixamos levar pelo desânimo (uma das maiores ciladas do demónio). Recebemos com alegria mas desfalecemos. Todos temos um telemóvel, e quando a bateria fica gasta, o que fazemos? Carregamo-la com ajuda de um carregador… Como podemos ganhar novo ânimo: rezando, como Jesus nos ensinou!
-Divisão, o pecado
A semente que caiu entre espinhos-cresceu, mas os espinhos sufocaram-na. Os espinhos são a sedução das riquezas e as restantes ambições, diz-nos Jesus. Então o que está aqui em causa é a divisão, o pecado. Queremos o bem, mas também queremos o mal. O segredo para inverter esta situação,  é  Servir a Deus e aos irmãos.
2.Factores de internos
-Deus que nos habita
A semente que caiu em bom terreno- cresceu e deu fruto. As condições, as boas disposições, vêm de Deus que está em nós. Apenas cuidamos daquilo que recebemos de Graça e pela Sua Graça. Escutamo-La  com alegria, guardamo-La com todo coração e confiamos no milagre da vida. Esta rebenta, cresce e dá muito, e bom fruto.
-Confiança,  a  Conversão torna o  nosso coração arável
Nas zonas do Douro,  onde a pedra  dos monte e colinas é moída, partida e composta pelo trabalho do homem, dá origem às melhores vinhas do mundo. Estas, resistem ao sol muito quente e dão bom fruto.
As Beiras Portuguesas, ensinaram-me que no inverno se deve afastar a terra de junto da cepa, e que mais tarde,  se deve a voltar a aproximar. Assim, o teor de humidade é o ideal, para que a raiz possa permanecer em todas as estações do ano , e dar bom fruto.
O bom podador faz milagres numa vinha. Deixemos que Deus nos pode,  limpando-nos de todo mal.
Portanto, recebendo a Palavra de Deus, a Boa Semente,  com uma nova Atitude de Conversão, com Fé, Alegria, Esperança, em Oração e Caridade, todo o nosso coração será de Deus um dia, e dará frutos do Reino! Todos os nossos corações serão um só, em Cristo Jesus.
Diac. José Luís Leão-2017