quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MULHER, GRANDE É A TUA FÉ


XX- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 15,21-28

"Jesus atravessa um momento difícil. Como verdadeiro filho de Israel, sente-se enviado para curar as ovelhas perdidas do seu povo; no entanto, depara-se apenas com incompreensão e rejeição por parte daqueles que conhecem a Lei e gerem a relação do povo com Deus. Sente-se enviado para o seu próprio povo, mas vê-se obrigado a retirar para território "pagão" — Tiro e Sídon —, pois "veio para o que era seu, e os seus não o receberam". Aqueles que deveriam ser mais sensíveis aos sinais messiânicos da vinda do Reino de Deus não o acolhem; os fariseus e os escribas endureceram os corações e não suportam Jesus — não lhe dão tréguas.

A razão deste afastamento temporário da Galileia é que Jesus precisa de se distanciar do seu povo. Ele sofre com o que está a vivenciar. Precisa de uma "pausa no caminho". Precisa de "tomar distância", e é então, em território pagão, que uma mulher lhe pede compaixão. Não nos deve surpreender que Jesus fique desconcertado e "não lhe responda uma única palavra". O seu próprio povo não o acolhe, mas «outros» — pagãos — pedem-lhe a cura. A mulher cananeia vive uma angústia profunda; parece não encontrar alívio nem cura na sua própria terra pagã. Ela clama por socorro, recorrendo ao Filho de David — uma última esperança, invocando aquele que, em Israel, estava destinado a restaurar o que se havia perdido.

O processo pelo qual Jesus chega a compreender que a compaixão é para todos — para os que estão dentro e para os que estão fora, tanto para os judeus como para os gentios — é vital; é um processo doloroso e fascinante, tanto para Jesus como para nós. Temos dificuldade em aceitar a plena humanidade de Jesus — uma humanidade exatamente igual à nossa, exceto pelo «pecado», que é precisamente o que nos desumaniza.

Jesus está constantemente a "crescer" em humanidade; não está isento de «crescer» em sabedoria — o Evangelho diz-nos isso claramente. É por isso que só reage quando desafiado e confrontado por uma mulher gentia. A mulher não encontra a salvação no seu próprio "contexto pagão", enquanto Jesus a oferece ao seu "contexto religioso", apenas para enfrentar a rejeição. Ela diz-lhe que não deseja tirar nada a Israel — «o pão dos filhos» —; no entanto, afirma de forma provocadora que todos têm direito a, pelo menos, "algumas migalhas de compaixão". Causa um profundo impacto em Jesus.

Em terra estrangeira e confrontado por uma estrangeira, Jesus questiona as suas próprias perceções da realidade enquanto filho de Israel; percebe que a fé, a confiança e a sensibilidade para a necessidade de salvação existem mesmo entre os "de fora". Esta mulher abre os olhos a Jesus; rompe as fronteiras da Palestina, levando-o a olhar para além desses limites.

É certo que o mistério pascal de Jesus nos abre à universalidade; contudo, é também profundamente consolador ver um Jesus que — enquanto viveu a sua missão pelas estradas da Galileia — é desafiado e forçado a reexaminar as suas convicções judaicas herdadas, reconhecendo, por fim, a grande fé desta mulher cananeia e admitindo que a compaixão se estende a todos. Esta história deita por terra qualquer tentativa de qualquer grupo — seja ele qual for — de monopolizar a fé como uma posse; como nos diz brilhantemente S. Paulo, ninguém tem direito exclusivo a Cristo.

Toni Catalá SJ"

magem: Retirada da "Google imagens" a 13.08.2026, 

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-20º Domingo do Tempo Comum -Ano A, em 13.08.2026. Tradução livre

Laissez-vous consumer | Emmanuel Music

 


terça-feira, 11 de agosto de 2026

CORAGEM! SOU EU, NÃO TENHAM MEDO!

XIX - Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 14,22-33

"O mar, as ondas, a tempestade representam o inóspito, a profunda incerteza, aquilo que está fora do nosso controlo. O povo judeu nunca foi um povo marítimo; no máximo, alguns eram pescadores costeiros no Mar da Galileia. A terra seca representa segurança, raízes, terreno familiar… Jesus ordenou-lhes que embarcassem, que se aventurassem no imprevisível. O Reino de Deus que Jesus proclama e que se concretiza não se trata de permanecer no que é seguro, no que é familiar… Jesus pede-nos para “embarcar” em jornadas que, desde o início, não oferecem qualquer garantia de sucesso, mas sim jornadas que podem falhar e afundar-nos.

Então, Jesus é “imprudente”? Sim, de facto, é imprudente, assume riscos, nem sempre calcula as consequências das suas palavras e ações no Reino: “Quem dizem que Eu sou?”… “Vai-te embora, Herodes quer matar-te…”. “Ele ficou admirado com a tua falta de fé”… “Os teus parentes dizem que és mentalmente instável.” Mas Jesus é vivido a partir da confiança em Deus Pai e Criador, e não da confiança na “sabedoria prudente do mundo”.

Jesus impele-nos para o novo e para o desconhecido, mas nunca nos deixa sós (“Tende coragem… não tenhais medo”). Devemos reconhecer que, ao seguir Jesus, o medo de falhar e de afundar, o medo de desaparecer, tanto a nível pessoal como eclesial, leva-nos muitas vezes a querer encontrar “tábuas de salvação” longe do Senhor. Encontrar “tábuas de salvação” nos poderes deste mundo é uma tentação crónica e prejudicial (…).

Pedro quer aproximar-se do Senhor, caminhando sobre as águas, mantendo-se firme no meio das adversidades, mas também provar-Lhe que é Ele mesmo (“se ​​​​és tu…”). Pedro não está no âmbito da confiança incondicional no Senhor; ainda está numa relação de “Jesus, precisas de me provar…”. Pedro afunda-se, dominado pelo medo.

É sempre Jesus que estende a mão e nos tira do lamaçal; Ele é o único que nos salva. Não nos podemos salvar sozinhos. Isto, na nossa cultura arrogante e narcisista, é “heresia”. É verdade que não preciso de um salvador que “salve” apenas para depois me escravizar ou subjugar como fazem os “líderes”, diz Jesus. Só quero um Salvador que tenha compaixão de nós porque Ele também passou pelo abismo, e o Pai ressuscitou-O dos mortos e fez de nós Seus irmãos e irmãs.

Toni Catalá SJ"

Imagem: Retirada da Sessão da "Comunidade Emanuel" em Paray-Le-Monial, França- 02 a 07.08.2026.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-19º Domingo do Tempo Comum-Ano A, em 11.07.2026. Tradução livre.



sexta-feira, 31 de julho de 2026

BUSCANDO DEUS


XVIII 
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 14,13-21

Quase sem perceber e empurrado por vários fatores, temos gradualmente desumanizado aquele gesto muito sincero e humano de sentar-se à mesa para comer juntos.

A comida tornou-se para muitos algo puro e funcional, necessário para organizar rapidamente e precisamente dentro do dia de trabalho. Está cada vez mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar ao redor da mesa. Em muitas casas, aquela mesa feita para ser cercada não é mais útil para os pais e os filhos se encontrarem, partilharem suas vidas, conversarem e descansem juntos.

Outros estão a acostumarem-se a "alimentar o seu corpo" nesses refeições impessoais em restaurantes ou no canto do balcão de autoatendimento. Não há poucos que sejam forçados a participar em refeições cerimoniais ou de trabalho, onde o gesto amigável de comer juntos é substituído por interesse, pragmatismo ou ostentação.

O gesto de Jesus, que convida as pessoas a recuar para partilhar uma refeição simples, abençoando Deus pelo pão que recebemos, pode ser um apelo a nós. Como Xabier Basurko diz em seu estudo "Partilhar o Pão", comer é muito mais do que "introduzir uma certa quantidade de calorias no corpo".

A necessidade de alimentar-se é, acima de tudo, um sinal da nossa pobreza radical. Os seres humanos são feitos para comer com os outros, partilhando a mesa com família e amigos. Comer juntos é para fraternizar, para dialogar, para crescer na amizade, para partilhar o dom da vida.

É por isso que é tão difícil agradecer a Deus quando alguém tem mais comida do que aquele que a precisa, enquanto outros sofrem de miséria e fome. Sentimos culpa por essas palavras de Gandhi: "Tudo o que você come sem necessidade é roubo do estômago do pobre." Talvez nos países de prosperidade devamos aprender a abençoar a mesa de outra forma: agradecendo a Deus, mas ao mesmo tempo, pedindo perdão por nossa insolidariedade e tornando-nos conscientes da nossa responsabilidade em relação aos famintos da Terra.

2 de Agosto,

José António Pagola"

Imagem: Retirada da "Google imagens" a 31.07.2026, 

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-18º Domingo do Tempo Comum, em 31.07.2026. Tradução livre

Voici le corps et le sang du Seigneur | Emmanuel Music


 

sábado, 25 de julho de 2026

BUSCAR A DEUS


XVII 
- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mateus 13,44-52

Os estudos sociológicos indicam que a crise religiosa na Europa caminha para uma «indiferença» crescente — uma indiferença silenciosa, alheia a qualquer consideração sobre Deus. No entanto, um número cada vez maior de pessoas, impulsionadas por um certo "anseio por Deus", sente a necessidade de procurar "algo diferente", uma nova forma de acreditar n'Ele. Como se procura Deus?

Sem dúvida, cada pessoa deve partir da sua própria experiência. Não é necessário copiar os outros, nem fazer algo forçado ou artificial. Cada um conhece os seus desejos e fragilidades, os seus vazios e os seus medos. Cada um conhece a sua própria "necessidade" de Deus. A voz d'Ele nunca se cala; Não grita com os lábios, mas sussurra aos nossos corações.

É precisamente por isso que procurar Deus externamente — em livros, argumentos ou debates — não chega. "Discutir religião" é uma coisa; procurar Deus com um coração sincero é algo bem diferente. Percebemos por nós mesmos quando estamos a fugir de Deus e quando estamos verdadeiramente a procurá-Lo. Santo Agostinho exprimiu-o assim: "Não te disperses. Volta-te para o teu interior. A verdade habita no homem interior".

Procurar Deus exige esforço, mas o encontro com Ele nunca é fruto de uma vontade fanática ou de um ascetismo forçado. Deus é um dom, e o que importa é acolhê-Lo com "simplicidade de alma". Lembremos a reflexão da velha prioresa na obra *Diálogos das Carmelitas*, de Georges Bernanos: "Uma vez deixada para trás a infância, é preciso sofrer muito para retornar a ela — assim como a aurora só reaparece após uma longa noite. Terei eu me tornado criança novamente?"

Não é sensato procurar Deus confiando apenas nas próprias intuições. Há muitas formas de se enganar ou de permanecer preso a um ciclo de egocentrismo, focado apenas nos próprios sentimentos e ideias. Por isso, é melhor partilhar e comparar a própria experiência com alguém que nos possa guiar com base na sua própria vivência de Deus. Esta partilha mútua pode ser o melhor incentivo para continuar a procurá-Lo. Na sua parábola do "tesouro escondido no campo", Jesus fala do homem que, "cheio de alegria", vende tudo o que possui para adquirir o tesouro. Procurar a Deus não gera tristeza nem amargura; Pelo contrário, isto gera alegria e paz, pois a pessoa começa a descobrir onde reside a verdadeira felicidade. Lembremo-nos de Santo Agostinho: "Só aquilo que faz uma pessoa boa a pode fazer feliz."

26 de julho

José Antonio Pagola"

Imagem: Propriedade do blog.

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-17º Domingo do Tempo Comum- Ano A, em 25.07.2026. Tradução livre

Céleste Jérusalem — Chant de l'Emmanuel