XXV- Domingo do Tempo Comum -Ano A
"Continuamos o caminho para Jerusalém, e Jesus está preocupado
porque os seus discípulos — a comunidade — se estão a perder em perguntas,
pedidos e comportamentos inoportunos (“quem é o maior no Reino de Deus?”, “os
discípulos repreendem os pequenos que se aproximam de Jesus”, “dai os primeiros
lugares do Reino aos meus filhos”, pede a mãe de Tiago e de João...). Jesus
anuncia o que o espera por ter feito da sua vida um serviço até ao fim, mas a
sua comunidade não quer nem compreender nem ouvir.
Perante esta confusão da comunidade, que quer conhecer os
critérios de relevância e importância no Reino de Deus — critérios que se
revelam nas palavras e nas ações de Jesus —, Ele conta-lhes uma parábola
marcante por ser inquietante, irritante e provocadora: a dos trabalhadores da
vinha. Ao lermos o Evangelho deste domingo, devemos perceber que o último
versículo do capítulo 19 — “E muitos que são primeiros serão últimos, e muitos
que são últimos serão primeiros” — deveria ser o primeiro versículo do capítulo
20, onde nos é narrada a parábola que termina da mesma maneira no versículo 16:
“assim, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos”.
É uma parábola que rompe com a lógica da relação contratual
com Deus. É uma parábola que nos mergulha na novidade radical do Evangelho; não
me cansarei de repetir que a Boa Nova de Jesus não é "mais do mesmo".
O dono da vinha — vinha que representa o Reino de Deus — vai contratando
trabalhadores ao longo do dia: ao amanhecer, a meio da manhã, ao meio-dia, a
meio da tarde, na penúltima hora (a famosa "undécima hora"), numa
jornada de sol a sol, de doze horas... Ele encontra os últimos desta vida:
aqueles que dizem “ninguém nos contratou”. Envia-os para trabalhar na vinha;
são os últimos, aqueles de quem ninguém se lembra, os que não têm
oportunidades, possivelmente os mais desajeitados e sem competências sociais,
como diríamos hoje.
No final do dia, o salário era pago diariamente; diz ao
encarregado que pague a todos a mesma diária, começando pelos últimos.
Evidentemente, os primeiros protestam e murmuram contra o patrão: “nós, que
suportamos o calor abrasador do dia... e recebemos o mesmo”. Isto não nos faz
lembrar a queixa do irmão mais velho na parábola do filho pródigo — quando o
pai sai para o ir buscar, tal como fez com o filho mais novo, e ele não quer
entrar e recrimina-o: “eu, que estive em casa sempre, sem desobedecer a uma ordem
tua...” —? A coerência do Evangelho é fascinante.
O dono da vinha, perante o protesto dos primeiros, lança-lhes
três questões, e atrevo-me a dizer que na segunda está todo o Evangelho.
A primeira questão é óbvia: não me venham falar de justiça ou
injustiça, pois acordaram comigo o salário normal e justo e concordaram.
A segunda é a chave: “Será que não tenho liberdade para fazer
o que quero com o que é meu?” Genial! Quando estabeleço uma relação de
contrato, de lei, e não de gratuidade com Deus, acontece que o importante sou
eu; Deus torna-se uma mera variável dependente do meu comportamento: “se
trabalho doze horas, pagas-me por doze; se trabalho uma, pagas-me por uma; se
me comporto bem, recompensas-me; se me comporto mal, castigas-me... mas sou eu,
ó Deus, quem dita o ritmo”. E Deus diz-me — diz-nos —: quem és tu para me dizer
o que devo fazer?
A terceira flui naturalmente: “Será que não te alegras por eu
ser bom?” Reconheçamos que temos dificuldade em aceitar as consequências de
Deus ser bom. Se vivermos o facto de estarmos na vinha desde a primeira hora
como uma dádiva, alegremo-nos por Deus ser bom e por estes últimos também
receberem o pagamento.
Toni Catalá SJ"
Imagem: Retirada do Google imagens em 19.09.2026;
Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-25º Domingo Comum-Ano A, em 19.09.2026. Tradução livre
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