"Continuamos com o conflito. As autoridades “queriam
prendê-lo”, mas continham-se por medo do povo; contudo, Jesus continua a querer
expressar o que sente. Nesta parábola dos “convidados para o casamento” — e
sentindo dor por ser filho de Israel —, Jesus percebe que o Deus do Reino que
anuncia ultrapassa os limites do seu povo: é um Reino de Deus para todo o
mundo, para bons e maus, e é preciso ir às encruzilhadas dos caminhos para
fazer o convite. O banquete de casamento estava preparado, mas os primeiros convidados
“não se mostraram dignos”.
De forma tensa — pois tensa é a realidade —, o Evangelho de
Mateus mostra-nos, no meio do conflito de Jesus em Jerusalém, que o Deus que
Jesus vive é para todos. Deixa de ser um Deus tribal, étnico, restrito a um
único grupo interessado (mesmo que seja o dos “bons”) ou legitimador daqueles
ávidos de poder… Jesus — que foi questionado pela mulher siro-fenícia quando
esta disse que os estrangeiros têm direito, pelo menos, às migalhas que caem da
mesa do dono da casa (20.º Domingo) — percebe agora que não têm apenas direito
às migalhas, mas a sentar-se à mesa do casamento (a nova aliança), vestindo
trajes de festa e de alegria.
Paradoxalmente, é o conflito com as autoridades religiosas e
com o Templo que abre caminho à universalidade. Ao entrarmos em conflito com
qualquer grupo que pretenda monopolizar Deus, percebemos que Ele nos conduz
para além do nosso “próprio amor, querer e interesse” — como nos diz Santo
Inácio — para O descobrirmos como “Senhor do Céu e da Terra”, como o “Pai nosso
que está nos céus”, o Deus que faz nascer o sol para todos. No conflito de
Jerusalém, e sobretudo na entrega de Jesus na cruz, entram em crise todas as
imagens arcaicas — por serem tribais — de Deus, que só geram exclusão e morte.
Mas, para entrar nas bodas, para aceitar o convite, não se
deve fazê-lo passivamente; não se trata de uma aceitação céptica ou curiosa, do
tipo "vamos ver o que está lá dentro...", mas sim de vestir para a
festa, pois é um convite para a festa da alegria da fraternidade, para a
alegria do reencontro. É a mesma mesa, em igualdade de dignidade como criaturas
de Deus.
Vestem-se para a festa aqueles que acolhem o convite com
gratidão. Todos somos chamados às núpcias, mas nem todos as vivemos como um
grande dom; os "escolhidos" de que fala o Evangelho são aqueles que
perceberam o convite como um dom. Percebemos o convite como um dom quando, nas
encruzilhadas da vida — por mais obscuros que sejam os caminhos —, não perdemos
o anseio, o desejo de ser acolhidos, de encontrar os caminhos da Vida e de
deixar para trás os caminhos que não levam a lado nenhum.
Ao longo da nossa vida, encontramos — e continuamos a
encontrar — os «servos do rei» que nos fazem o convite; nas nossas próprias
histórias, sabemos quem foram estes enviados que nos conduziram à festa do
Reino. Não podemos deixar de agradecer por eles. Vamos vestir-nos para a festa
e alegrar-nos, pois Jesus continua a abrir-nos o caminho até ao "Pai
Nosso".
Toni Catalá SJ"
Imagem: Retirada do Google imagens em 09.10.2026;
Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-28º Domingo Comum-Ano A, em 09.10.2026. Tradução livre

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