sábado, 3 de outubro de 2026

O PERIGO DE ABAFAR A VOZ DOS PROFETAS

XXVII- Domingo do Tempo Comum -Ano A

Texto Sagrado: Mt 21, 33-41

"Quando, no ano 70, as tropas romanas destruíram Jerusalém e o povo judeu desapareceu como nação, os cristãos fizeram uma leitura terrível deste facto trágico. Israel, aquele povo tão amado por Deus, não soube responder aos seus apelos. Os seus líderes religiosos foram matando os profetas por Ele enviados; por fim, crucificaram o seu próprio Filho. Agora, Deus abandona-os e permite a sua destruição: Israel será substituído pela Igreja cristã.

Era assim que os primeiros cristãos interpretavam a parábola dos "vinhateiros homicidas", dirigida por Jesus aos sumos sacerdotes de Israel. Os trabalhadores encarregados de cuidar da "vinha do Senhor" vão matando, uns após outros, os servos que Ele lhes envia para recolher os frutos. Por fim, matam também o filho do proprietário, com a intenção de eliminar o herdeiro e ficar com a vinha. Ao senhor não resta outra alternativa senão matá-los e entregar a sua vinha a outros trabalhadores mais fiéis.

Esta parábola não foi registada pelos evangelistas para alimentar o orgulho da Igreja — o novo Israel — perante o povo judeu, derrotado por Roma e disperso por todo o mundo. A preocupação era outra: será que pode acontecer com a Igreja cristã o mesmo que aconteceu com o antigo Israel? Será que ela pode frustrar as expectativas de Deus? E, se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, que caminhos seguirá Deus para realizar os seus planos de salvação?

O perigo é sempre o mesmo. Israel sentia-se seguro: possuía as Sagradas Escrituras; tinha o templo; o culto era celebrado escrupulosamente; a Lei era pregada; as instituições eram defendidas. Nada de novo parecia necessário. Bastava manter tudo em ordem. É o que há de mais perigoso para uma religião: que a voz dos profetas seja sufocada e que os sacerdotes, sentindo-se donos da "vinha do Senhor", queiram administrá-la como propriedade sua.

Esse é também o nosso perigo. Pensar que a fidelidade da Igreja está garantida pelo facto de pertencer à Nova Aliança. Sentirmo-nos seguros por possuirmos Cristo como propriedade. No entanto, Deus não é propriedade de ninguém. A sua vinha pertence apenas a Ele. E, se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, Deus continuará a abrir novos caminhos de salvação.

4 de outubro,

José António Pagola"

Imagem: Imagem de São Francisco de Assis -Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, Capuchinhos de Gondomar -03.10.2026 (Véspera da Festa São Francisco).

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-27º Domingo Comum-Ano A, em 03.10.2026. Tradução livre

Reste avec moi, Seigneur | Méditation et confiance | Emmanuel Music