XXIX- Domingo do Tempo Comum -Ano A
"Jesus já rompeu com o pessoal do Templo — saduceus e membros do conselho, que constituem a elite sacerdotal e a aristocracia — e, agora, são os fariseus que, cada vez mais, tentam encurralar Jesus. Os fariseus não estão tanto ligados ao Templo, mas sim à Lei. Divergem dos saduceus quanto à crença na ressurreição dos mortos; os saduceus não acreditam — entre outras razões, porque já possuem tudo aqui e nada mais esperam. Os fariseus acreditam na ressurreição e vivem segundo a Lei; nesse sentido, são pessoas profundamente religiosas. O problema deles é que pensam: “nós não somos como os outros”. Mais uma vez, surge o orgulho, que se aloja naqueles que se consideram fiéis cumpridores da Lei, sem, no entanto, a viverem com um coração agradecido.
Jesus incomoda-os — sobretudo o setor mais “fundamentalista”, oriundo da escola rígida do mestre Shamai. Não porque Ele seja contra a Lei — o que seria um absurdo, dado que Jesus é judeu, e um judeu convicto —, mas pela liberdade com que Ele coloca sempre, no centro do viver segundo a Lei, o alívio e a dignificação das criaturas. Jesus incomoda-os porque, com o seu modo de vida compassivo, lhes desmascara a arrogância e a dureza de coração; acima de tudo, evidencia a capacidade que possuem para interpretar as leis sempre em benefício dos seus próprios interesses (é permitido, por exemplo, levar um animal ao bebedouro num sábado, mas não aliviar as mulheres “curvadas”, abatidas).
Os fariseus querem apanhar Jesus, mas de uma forma subtil, astuta e hipócrita. Aproximam-se d’Ele com lisonjas. O relato diz que Jesus percebe imediatamente a má intenção deles; contudo, aproximam-se acompanhados por “partidários de Herodes” — e este pormenor é fundamental. Herodes é um fantoche de César; é um reizinho colocado por Roma para realizar o “trabalho sujo” do império. Os fariseus aproximam-se de Jesus para o pôr à prova, mas, sozinhos, não se atrevem a fazê-lo; recorrem àqueles que, perante qualquer questionamento a César, responderão com violência.
Quando a religião é utilizada para encobrir interesses obscuros, não há problema em recorrer àqueles que “tiranizam e oprimem” — aos césares deste mundo. Quantos cristãos, que não acreditam na “força do Evangelho”, gostariam que os poderes deste mundo facilitassem a sua “doutrinação”! A Boa Nova legitima-se por si mesma; o Deus da Vida não precisa que ninguém o defenda. Que blasfémia é confundir os próprios interesses com Deus!
Agora, armam-lhe uma cilada: “É lícito pagar impostos a César?”. Se ele diz que não, os partidários de Herodes esmagam-no. Se diz que sim, o povo vê-o como um traidor colaboracionista. Jesus não diz “pagai” a César e “pagai” a Deus, mas antes “devolvei” a César o que é d’Ele e “devolvei” a Deus o que é d’Ele. Isto não é apenas um jogo de palavras. A vida do Reino não deve ser enredada na lógica e na dinâmica do mundo. “Não se pode servir a dois senhores”, dirá Jesus noutro momento. Pagar tributo a César significa aceitar o controlo e o domínio dos poderosos sobre o Reino de Deus. A tentação de todo o poder é divinizar-se, tornar-se um deus; e Jesus não está disposto a fazer o jogo dos poderosos. Jesus diz-nos para devolvermos a César o que é d’Ele — o poder e o domínio — para que possamos viver em liberdade e compaixão; e isso levar-nos-á a “devolver” ao Deus da Vida todo o bem recebido. “Vós me destes, a Vós, Senhor, eu devolvo”, ensina-nos Santo Inácio de Loyola.
Toni Catalá, SJ"
Imagem: Retirada do Google imagens em 15.10.2026;
Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-29º Domingo Comum-Ano A, em 15.10.2026. Tradução livre

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