quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Assunção: vida plena antecipada


"Então Maria se levantou e se dirigiu apressadamente à serra, a um povoado da Judéia” (Lc1,39) 
O mistério da Assunção desperta imagens de movimento, de atração para cima, de impulso ascensional; nosso olhar é atraído para a altura e vemos a Maria elevada para a plenitude que chamamos “céu”.
Ao falar da Assunção nos referimos ao cume do processo vital de Maria, o resultado final da obra que Deus realizou naquela que não colocou nenhuma resistência à sua ação: “Faça-se em mim...”. A proclamação do dogma da Assunção foi uma maneira de revelar que a salvação de Maria foi absoluta e total, ou seja, que alcançou sua plenitude. Essa plenitude só pode consistir em uma unificação e identificação absoluta com Deus. Maria foi “aspirada” para “dentro” de Deus. 
Ela terminou o ciclo de seu processo de maturação terrena e chegou à sua plenitude, através do processo interno de identificação com Deus. Mas, ao “ser assunta ao céu”, Maria não se afastou de sua condição de mulher do povo, pobre e despojada. Nessa identificação com Deus não cabe mais nada. Chegou ao limite de suas possibilidades. Porque “assumiu” Deus em sua vida, Maria foi “assumida” totalmente por Deus; ela deixou Deus ser grande na sua vida; por isso, Deus a engrandeceu plenamente. Sabemos que, para chegar à Assunção, Maria viveu um longo caminho de descentramento, de “saída de si”, de esvaziamento, para que Deus “realizasse maravilhas nela”. Maria foi “assunta ao céu” porque “desceu” em direção aos outros, revelando-se como a “mulher do serviço solidário”.
O evangelho deste domingo nos apresenta Maria “caminhando depressa”, desde Nazaré da Galileia até às montanhas da Judeia, para chegar à casa de sua prima Isabel; naquela primeira “meta” de sua corrida, recebeu dos lábios de Isabel a primeira bem-aventurança: “Feliz és tu que acreditaste...” Esta expressão foi a antecipação da felicitação que Maria vai receber no final definitivo de sua trajetória. Toda a vida de Maria consistiu em dirigir-se apaixonadamente para essa meta definitiva, profundamente associada à vida e missão do seu próprio Filho. 
 “Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu coração toda a vida de Jesus, que «guardava» cuidadosamente (cf.Lc2, 51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente” (Laudato sii 241) 
Estas palavras do Papa Francisco nos situam frente ao mistério da Assunção da Virgem Maria aos céus. Maria revela, à Igreja e à humanidade, o final da vida do ser humano, o sentido da peregrinação desta vida, os motivos de esperança. Em um mundo que bloqueia cada dia mais o horizonte de sua transcendência, em um mundo onde cada dia se faz mais asfixiante o clima do sem sentido e a falta de esperança, em um mundo onde cada dia temos mais motivos para o pessimismo..., este mistério da Assunção de Maria nos abre a uma dimensão mais profunda da vida, ou seja, nos capacita a perceber um novo sentido sobre a nossa peregrinação terrestre. Trata-se de um convite a uma certeza e a uma visão mais otimista sobre a humanidade e seu futuro.
Este Mistério nos recorda que o verdadeiro ser humano ainda não está em casa. Estamos todos a caminho. A luz do mais além ilumina nossa atualidade; a certeza de futuro dá sentido e consistência ao presente. 
Esta plenitude à qual chegou Maria, nos abre a esperança de seguir seus passos. E os passos de Maria são os passos da Visitação, daquela que faz de sua vida um serviço por pura gratuidade. O texto de Lucas sobre a Visitação está carregado de símbolos. A primeira palavra em grego é “anastasa”, que significa “levantar-se”, “surgir”, e que na tradução oficial passou por alto. É o verbo que o mesmo Lucas emprega para indicar a ressurreição. Significa que Maria ressuscita a uma nova vida, e sobe à “montanha”, o espaço do divino. Maria foi “assunta” porque “subiu” em direção ao serviço.
A visita de Maria à sua prima simboliza a visita de Deus a Israel. A subida da Galileia à Judeia nos está adiantando a trajetória da vida pública de Jesus. O “Emanuel” se manifesta no sinal mais simples, uma visita. Tudo acontece fora da esfera da religião oficial. A partir de agora, devemos encontrar a Deus no cotidiano das casas, onde se desenvolve a vida. Jesus, já desde o ventre de sua mãe, começa sua missão de levar aos outros a salvação e a alegria. 
Todos sabemos que quando os seres humanos se encontram, acontece uma mudança, uma transformação. Lucas nos recorda isso tantas vezes em seu Evangelho, sobretudo no relato do ícone da Visitação. Maria se faz caminho para visitar a sua prima Isabel e revelar o verdadeiro sentido do encontro. O encontro muda nossa vida. Além disso, um encontro não vem sozinho: tem o efeito cascata, pois nos move a fazer o estupendo percurso que nos leva do “eu” ao “tu” esvaziando-nos de toda auto referencialidade, que é o real impedimento do autêntico do encontro; assim, chegamos ao fecundo “nós”, criando uma rede de solidariedade. 
Em todo encontro revelamos nossa verdadeira identidade; nele, nos reconhecemos diferentes, e a diversidade nos enriquece. Isso ocorre, sobretudo, quando do encontro passamos à convivência, à companhia, à colaboração e à corresponsabilidade. A “cultura do encontro” é nossa maneira de ser e fazer Igreja, de construir a comunhão, de visibilizar a caridade, de exercer a misericórdia. Trata-se de caminhar para um novo paradigma, que nos leve da acolhida ao encontro, do encontro ao cuidado. Esta nova sensibilidade nos abre à acolhida da vida descartada, excluída, enferma e muitas vezes fracassada, para ser lugar e espaço de humanização.
Nos encontros, a vida de cada pessoa é ativada, enriquecida, potencializada. Quem se experimenta a si mesmo como “vida” é já uma pessoa “assunta ao céu”. A Vida definitiva já está “pairando” sobre nossa vida. Por isso, Assunção é vida plena antecipada, é um contínuo renascer, uma nova criação. 
Vivemos já a Assunção quando não nos deixamos determinar por uma vida estreita e atrofiada, presa pelos apegos... Somos “assuntos” quando sonhamos, buscamos e ativamos todos os dinamismos humanos de crescimento e de expansão em direção aos outros. Nós nos “elevamos” quando “descemos” em direção à humanidade ferida e excluída. O “subir” até Deus passa pelo “descer” até às profundezas da realidade pessoal e social, sendo presença servidora. 
“Viver a assunção” implica esvaziar-nos do “ego”, para deixar transparecer o que há de mais divino em nós. Não há maior glorificação. Este esvaziamento não implica a nossa anulação enquanto “pessoa”, mas nossa potenciação. Na medida que os aspectos que a limitam diminuem, aumenta o que há de plenitude.
Com razão, viu S. Inácio no “sair do próprio amor, querer e interesse” o termómetro [termómetro] de toda vida espiritual, a chave de toda existência que queira deixar transparecer o ser e o agir de Deus em nós.
O “sair do próprio amor” significa que o centro da vida seja ocupado não pelo ego com suas velhas pulsões de cobiça, honra vã e soberba, mas por Deus. Significa que, a partir desse lugar de adoração e de encontro, nosso eu se abra às preferências de Deus, deixando “Deus ser Deus” em nossa interioridade. Assim, na nossa peregrinação, já temos o privilégio de “saborear” antecipadamente o dom da Assunção. 
Texto bíblico:  Lc. 1,39-56 
Na oração: Contra uma concepção cada vez mais “econômica” [económica] do mundo, contra o triunfo do possuir, do ter, do prestígio, o Magnificat exalta a alegria do partilhar, do perder para encontrar, do acolher, do admirar, da felicidade da gratuidade, da contemplação, da doação... 
O ser humano, e todo o seu ser, transforma-se então em louvor a Deus. Nenhum outro texto nos revela de maneira tão densa e tão profunda a vida interior de Maria, os pensamentos e os sentimentos que invadem sua alma, a consciência de sua missão, sua fé e sua esperança, sua experiência de Deus, enfim. 
Rezar as “marcas salvíficas” de Deus na sua história pessoal; que maravilhas o Senhor tem feito em sua vida? 
Pe. Adroaldo Palaoro sj
"Retirado em 15.08.2019 do site - CATEQUESE Hoje-"  www.catequesehoje.org.br  "- Um site com brasileiro com muita qualidade!"

sábado, 27 de julho de 2019

Biografia do Pe. Cruz


Relato da Vida
A vida do “Santo” Padre Cruz, obscura e gloriosa, apagada e empolgante, é dos testemunhos mais eloquentes dosn nossos dias… Na simplicidade obscura ou no heroísmo dominador, a vida do santo é sempre luz e força do Evangelho. Por isso, o “Santo” Padre Cruz, presença augusta e atuante de Cristo, deslumbrava as multidões que o procuravam ansiosas e reconheciam que nele havia o sinal do grande mistério.

Qual a razão dessa atração poderosa? A lição contínua da Sua vida, que para a nossa memória e para a sede de divino, é a Sua figura iluminada de místico e de apóstolo, transformado em força redentora o fogo divino que lhe abrasava a alma.
D.Manuel Trindade Salgueiro

Nascimento e Vida
A 29 de Julho de 1859 nasceu, em Alcochete, o Padre Francisco Rodrigues da Cruz. Esta Vila já notável, entre outros motivos, por ter sido o berço de D. Manuel I, o Venturoso, e do Beato Manuel Rodrigues, um dos 40 mártires do Brasil, viu crescer a sua importância, por aqui ter nascido, aquele que já em vida era conhecido pelo “Santo” Padre Cruz, que esperamos, um dia, venerar nos altares. A humanidade celebra na sua história inúmeros grandes acontecimentos.

Mas os grandes acontecimentos humanos são aqueles em que nasce um santo, pois o nascimento de um santo tem repercussões eternas.

É que o santo não é apenas um homem virtuoso que Deus premeia no fim da jornada. Um santo não é apenas um lutador que venceu no bom combate, ou um fiel servidor que adquiriu o hábito do dever.

Um santo é um semeador de ideal que espalha o bem e prepara colheitas para o céu. Do nascimento do “Santo” Padre Cruz em Alcochete nos orgulhamos todos nós, juntamente com a Vila de Alcochete, porque ela foi o berço daquele que seria outro S. João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, que faleceu uma semana depois de nascer o “Santo” Padre Cruz. Esta coincidência parece dizer-nos que Deus não queria apagar uma luz sem nos deixar outra acesa. Santo foi o nome que lhe puseram já aos 35 anos de idade e a fama de santidade foi sempre em aumento, até ao seu falecimento.
Bispos, sacerdotes, pessoas de todas as categorias sociais o tinham por santo e como tal o veneravam. E esta fama cresceu a tal ponto que, depois da morte, o seu jazigo, no cemitério de Benfica, é visitado diariamente, por muitos fiéis, que lá vão cumprir promessas, pedir e agradecer graças, alcançadas de Deus, por sua intercessão.

É certo que, por vezes, se notam exageros a raiar pela crendice ou superstição. Claro está que o  Padre Cruz não tem culpa daquilo que não é querido nem desejado por ele. Toda a sua vida foi um serviço de amor a Deus, servindo os homens. Num tempo crítico para a Igreja de Portugal, num tempo de perturbação da ordem e da negação de tantos valores, teve lugar a ação apostólica do Padre Cruz.

A sua figura inconfundível foi para o povo português católico, naquele tempo, uma âncora salvadora: levemente corcovado, um sorriso de inocência sempre no seu rosto fatigado, um ar de recolhimento habitual, perdido em Deus, na intimidade divina que o atraía a desprender-se dos bens terrenos, para os dar generosamente aos mais necessitados que encontrava. Mesmo nos tempos mais revoltosos e intolerantes, o Padre Cruz trajava sempre batina e roupão eclesiástico, e na cabeça, um largo chapéu, já gasto pelo uso. Assim o conheceu Portugal, assim se recordam dele, hoje, muitos que o conheceram. A presença do Padre Cruz em missões e tríduos pelas aldeias e vilas do país; o encontro do Padre Cruz nos comboios, nas ruas de Lisboa, nas Igrejas, nas cadeias, nos hospitais, sempre aliviando penas, confortando misérias, dando coragem aos timoratos e oferecendo certezas duma
renovação cristã aos desalentados, era um espetáculo a que Portugal se habituara. Sim, porque o Padre Cruz foi o Apóstolo que Deus deu a Portugal naqueles tempos agitados.

Apóstolo da Caridade lhe chamaram, e a placa da Avenida do Padre Cruz em Lisboa, a todos o lembra. Todo o apóstolo compreende a sensibilidade dos homens do seu tempo. E o Padre Cruz, enquanto viveu compreendeu os seus contemporâneos, e esta compreensão deu-lhe um acesso relativamente fácil aos corações sedentos de verdade, de ideal, de transcendência. O seu programa de apostolado traçou-o, em 1925, numa carta escrita ao Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, na altura, o Sr. D. António Mendes Belo:
Há muitos anos que eu me sinto atraído, talvez por especial vocação da misericórdia de Deus Nosso Senhor, para ajudar espiritualmente os presos da cadeia, os doentes dos hospitais, os pobrezinhos e abandonados, a tantos pecadores e almas desamparadas que Nosso Senhor me envia ou põe no meu
caminho. Tenho também grande consolação em ajudar os Párocos nos exercícios de piedade e mais encargos do seu ministério, indo por toda a parte levar, na medida das minhas forças, os socorros da religião a muitas pessoas a quem não é fácil chegarem por outra via. Ora tudo isto tenho sido, isto queria continuar a ser, por me parecer que é mais de honra de Deus
“.
O Padre Cruz, enquanto viveu, impressionou pelo que era: um testemunho que vive o que prega. O Padre Cruz, como verdadeiro homem de Deus, como verdadeiro sacerdote e como verdadeiro Jesuíta, não pregava com muitas palavras doutas e discursos eruditos; a simplicidade era a sua eloquência. Mas, com o seu modo original de ser, com as suas atitudes e o seu comportamento, revelava aos homens do seu tempo o amor de Deus, e com o seu exemplo proclamava a todos que valia a pena experimentar este amor, para melhor servir os homens, seus irmãos. Ninguém dá o que não tem, diz o provérbio.

O Padre Cruz, para poder dar Deus, tinha que ter Deus, para poder dar santidade, tinha que possuir
santidade. Não admira, pois, que a sua passagem fosse uma bênção fecunda de graça. Não é de estranhar que hoje o “Santo” Padre Cruz seja tomado como modelo e incentivo para os que sentem os desafios das novas pobrezas e injustiças, para lhes darem uma resposta de solidariedade, justiça e fraternidade. Portugal celebra já vários santos portugueses canonizados. Entre outros, cito S. João de
Deus, S. António de Lisboa, S. João de Brito, mas aguardamos confiantes que o Padre Cruz seja elevado também à glória dos altares, para alegria de todos os portugueses.


A Proximidade da Morte
Lisboa – 1 de Outubro de 1948
O Padre Cruz já está muito velhinho. Mas a sua velhice não é ainda a “ruína” doutros anciãos da sua idade. No seu corpo decrépito arde a chama imortal davida divina. É já uma “sombra velhinha”: mas a essa sombra descansam novos, mais fatigados e envelhecidos de alma do que ele. A boca está descolorida e murcha, mas continua a sorrir. O coração já lhe bate  desconcertado, mas o amor continua a ser para ele “grande e imensa ocupação”.

Viveu, envelheceu, sem mudança na vida: sempre de joelhos a rezar, sempre de mãos abertas a dar. Sempre pelos caminhos… Há quantos anos?! Sempre pelas cadeias e hospitais… Há quantos anos?
Já o Senhor levou quase todos os que o viram começar; e, os que vieram depois, acham natural que ele continue na vida que sempre lhe viram fazer…

Para o Padre Cruz viver foi  dar-se pela salvação e pela glória de Deus. Por isto mesmo, quando velhinho e doente, o seu apostolado não paralisou.

Recebia, no quarto, algumas pessoas e escrevia a muitas. Há tantos meios de salvar almas! E o Padre Cruz conhecia-os bem.

Podia rezar, podia sofrer. E rezava dia e noite por aqueles que trabalhavam na vinha do Senhor. E, sem se queixar da velhice nem da doença, dizia:
“Dou muitas graças a Deus por ter chegado a esta idade de 89 anos, sendo bastante doente desde há muito anos, e peço a tão Bom Senhor a graça de, no resto da minha vida, O amar sempre e fazer amar de muitas almas. Seja esta sempre a minha vontade: Coração de Jesus fazei que eu Vos ame e Vos faça amar”.

Se o fim da sua vida preocupava os seus muitos amigos, este assunto a ele deixava-o tranquilo: “Bendito seja o nosso Bom Deus e sempre em tudo seja feita a sua santíssima vontade”.

Mas a morte aproximava-se, pacificamente, e veio a 1 de Outubro de 1948. Teria o Padre Cruz pressentido o seu fim? Tal não parece, pois ele não estava preocupado com este momento. A morte do pecado foi a que ele sempre mais temeu, porque seria a separação definitiva da comunhão com Cristo. Por isto mesmo rezava, todos os dias:
“Maria Santíssima, pedi a Deus Pai de quem sois filha, a Deus Filho de quem sois mãe, ao Divino Espírito Santo de quem sois esposa, o perdão dos meus pecados, vós que, sois a Mãe de misericórdia, e no resto da minha vida ter uma fé viva, esperança firme e caridade ardente e graça para comunicar estas virtudes a muitas almas e evitar todo o pecado mesmo venial deliberado, resistir prontamente a todas as tentações, fazer todo o bem que posso e devo com pura intenção e, o que não posso fazer, ter desejo e pena de não poder, e levar todos os meus trabalhos e sofrimentos com inteira submissão à vontade de Deus e procurar adiantar no caminho da perfeição”
Escreveu Santo Agostinho: todos os homens temem a morte do corpo e só poucos temem a morte da alma. O Padre Cruz está entre estes poucos. O Padre Cruz sentia-se radicalmente livre e salvo por Cristo, porque Ele o libertara do pecado e da sua consequência: a morte. Esta libertação não era a morte biológica, pois Cristo também morreu, mas a libertação da escravidão opressora da morte, do medo à mesma, do sem sentido e absurdo de uma vida inútil que acaba no nada.

À Luz da ressurreição de Cristo, o Padre Cruz sabia, há muito tempo, que a morte física, inevitável
apesar dos adiantos da medicina e da aspiração do homem à imortalidade, que ela não era o fim do caminho, mas sim a porta que lhe franqueava a libertação definitiva com Cristo ressuscitado. Graças a esta fé o Padre Cruz, hoje, é um ser para a vida.
“Quando Nosso Senhor na Sua Infinita
Misericórdia me quiser chamar à Sua Divina Presença quero o meu corpo
depositado no jazigo da minha família religiosa, a Companhia de Jesus com a
qual me uni em 3 de Dezembro de 1940, fazendo os santos votos, e assim cumprindo
o ardente desejo que tinha há cerca de 60 anos e não tinha cumprido por falta
de saúde.”

P. Francisco da Cruz, 22 de Maio de 1945

Artigo retirado: em 27.07.2019 do Site "Causa de Canonização do Padre Cruz"  https://pontosj.pt/causapadrecruz/ . Visite o Site!
Imagem retirada:  da Google imagens

Vídeo da  Missa dos 150 Anos do Nascimento do Pe. Cruz


sábado, 13 de julho de 2019

Comunidade: espaço de comunhão



Catequese do Papa sobre os Atos dos Apóstolos

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!

O fruto do Pentecostes, a poderosa efusão do Espírito de Deus sobre a primeira comunidade cristã, foi que muitas pessoas sentiram o próprio coração trespassado pelo alegre anúncio — o querigma — da salvação em Cristo e aderiram livremente a Ele, convertendo-se, recebendo o batismo em seu nome e aceitando por sua vez o dom do Espírito Santo. Cerca de três mil pessoas começam a fazer parte daquela fraternidade, que é o habitat dos crentes e constitui o fermento eclesial da obra de evangelização. O fervor da fé destes irmãos e irmãs em Cristo faz da sua vida o cenário da obra de Deus, que se manifesta com prodígios e sinais através dos Apóstolos. O extraordinário faz-se ordinário e o dia a dia torna-se o espaço da manifestação de Cristo vivo!

O Evangelista Lucas narra-nos isto, mostrando-nos a Igreja de Jerusalém como o paradigma de todas as comunidades cristãs, como o ícone de uma fraternidade que fascina e que não deve ser mitificada, nem sequer minimizada. A narração dos Atos permite-nos olhar para dentro das paredes da domus onde os primeiros cristãos se reúnem como família de Deus, espaço da koinonia, ou seja, da comunhão de amor entre irmãos e irmãs em Cristo. Perscrutando no seu interior, podemos ver que eles vivem de uma forma muito específica: são «assíduos no ensinamento dos Apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e nas orações» (At 2, 42). Os cristãos ouvem assiduamente a didaqué, ou seja, o ensinamento apostólico; praticam relacionamentos interpessoais de alta qualidade (inclusive através da comunhão dos bens espirituais e materiais); fazem memória do Senhor mediante a “fração do pão”, isto é, a Eucaristia, e dialogam com Deus na oração. São estas as atitudes do cristão, as quatro caraterísticas de um bom cristão.

Contrariamente à sociedade humana, onde se tende a perseguir os próprios interesses, prescindindo ou até em detrimento do próximo, a comunidade dos crentes afasta o individualismo para favorecer a partilha e a solidariedade. Não há lugar para o egoísmo na alma do cristão: se o teu coração for egoísta, não és cristão, és um mundano, que só procuras a tua vantagem, o teu benefício. E Lucas diz-nos que os crentes permanecem juntos (cf. At 2, 44). A proximidade e a unidade são o estilo dos crentes: próximos, preocupados uns pelos outros, não para falar mal do outro, não, para ajudar, para se aproximar.

Portanto, a graça do Batismo revela a íntima união entre os irmãos em Cristo, que são chamados a compartilhar, a identificar-se com os outros e a dar, «de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45), ou seja, a generosidade, a esmola, preocupar-se pelo próximo, visitar os doentes, ir ao encontro dos necessitados, de quantos precisam de consolação.

E precisamente porque escolhe o caminho da comunhão e da atenção aos carentes, esta fraternidade que é a Igreja pode levar uma vida litúrgica verdadeira e autêntica. Lucas diz: «Frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo» (At 2, 46-47).

Enfim, a narração dos Atos recorda-nos que o Senhor garante o crescimento da comunidade (cf. 2, 47): a perseverança dos crentes na aliança genuína com Deus e com os irmãos torna-se força atrativa que fascina e conquista muitas pessoas (cf. Evangelii gaudium, 14), um princípio graças ao qual a comunidade de crentes de todos os tempos vive.

Oremos ao Espírito Santo a fim de que faça das nossas comunidades lugares onde receber e praticar a vida nova, as obras de solidariedade e de comunhão, lugares onde as liturgias sejam um encontro com Deus, que se torna comunhão com os irmãos e irmãs, lugares que sejam portas abertas para a Jerusalém celestial.

Papa Francisco

catequese na audiência geral 26.06.2019

Texto, retirado do site “Catequese do Brasil”, www.catequesedobrasil.org.br/ em 13.07.2019.
Imagem, retirada da "Google Imagens".