domingo, 17 de setembro de 2023
EUCARISTIA-DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM-PARÓQUIA S.JORGE DE ARROIOS
domingo, 20 de agosto de 2023
resplandecer, ouvir, não temer...
VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO A PORTUGAL
POR OCASIÃO DA
XXXVII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
[2 - 6 DE AGOSTO DE 2023]
SANTA MISSA PARA A JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
HOMILIA DO SANTO PADRE
Parque do Tejo em Lisboa
Domingo, 6 de agosto de 2023
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«Senhor, é bom
estarmos aqui!» (Mt 17, 4). Estas palavras que o apóstolo Pedro
disse a Jesus no monte da Transfiguração, queremos fazê-las também nossas
depois destes dias intensos. É bom tudo o que estamos a experimentar com Jesus,
aquilo que vivemos juntos, e é bom como rezámos, com tanta alegria do coração.
Mas perguntamo-nos: Que levamos connosco ao regressar à vida quotidiana?
Quero
responder a esta pergunta com três verbos: resplandecer, ouvir, não
temer, seguindo o Evangelho que ouvimos. Que levamos connosco? Respondo com
três palavras: resplandecer, ouvir e não temer.
A
primeira: resplandecer. Jesus transfigura-Se. Diz o Evangelho: «o
seu rosto resplandeceu como o sol» (Mt 17, 2).
Recentemente tinha anunciado a sua paixão e morte de cruz, esfrangalhando assim
a imagem dum Messias poderoso, mundano, e decepcionando as expectativas dos
discípulos. Ora, para os ajudar a acolher o projeto de amor de Deus a respeito
de cada um de nós, Jesus toma consigo três deles – Pedro, Tiago e João –,
condu-los ao alto dum monte e transfigura-Se. E este «banho de luz» prepara-os
para a noite da paixão.
Amigos, jovens
queridos, também nós hoje precisamos de um pouco de luz, um lampejo de luz que
forneça esperança para enfrentar tantas obscuridades que nos assaltam na vida,
tantas derrotas quotidianas, para as enfrentar com a luz da ressurreição de
Jesus. Porque Ele é a luz sem ocaso, a luz que brilha mesmo durante a noite.
Diz o sacerdote Esdras: «O nosso Deus quis fazer brilhar os nossos olhos» (Esd 9,
8). O nosso Deus ilumina. Ilumina o nosso olhar, ilumina o nosso coração,
ilumina a nossa mente, ilumina o nosso desejo de fazer algo na vida. Sempre com
a luz do Senhor.
Mas quero
dizer-vos que não ficamos luminosos, colocando-nos sob os holofotes; antes pelo
contrário, isso encandeia-nos, não nos torna luminosos. Não ficamos luminosos,
quando exibimos uma imagem perfeita, em ordem, bem acabada, não; nem mesmo se
nos sentimos fortes e bem-sucedidos: fortes e bem-sucedidos, mas não luminosos.
Tornamo-nos luminosos, resplandecemos quando, tendo acolhido Jesus, aprendemos
a amar como Ele. Amar como Jesus: isto torna-nos luminosos, isto leva-nos a
fazer obras de amor. Não te deixes enganar, minha amiga, meu amigo!
Tornar-te-ás luz no dia em que fizeres obras de amor. Ao contrário quando, em
vez de fazer obras de amor aos outros, só pensas em ti mesmo como um egoísta,
então a luz apaga-se.
O segundo
verbo é ouvir. No monte, uma nuvem luminosa cobre os discípulos. E
desta nuvem fala o Pai. E que diz? «Escutai-O»! «Este é o meu Filho predileto,
escutai-O» (Mt 17, 5). E é tudo… Tudo aquilo que se deve fazer na
vida, está nesta palavra: escutai-O. Escutar Jesus. Todo o segredo
está aqui. Escuta o que te diz Jesus. «Mas eu não sei o que Ele me diz!» Pega
no Evangelho e lê o que diz Jesus, o que Ele diz ao teu coração. Porque Ele tem
palavras de vida eterna para nós, revela que Deus é Pai, Deus é amor. Ele
aponta-nos o caminho do amor. Escuta Jesus! Porque nós, mesmo quando com boa
vontade nos embrenhamos por caminhos que até parecem ser de amor, em última
análise não passam de egoísmo mascarado de amor. Cuidado com os egoísmos
mascarados de amor! Escuta-O, porque Jesus dir-te-á qual é o caminho do amor.
Escuta-O.
Resplandecer é
a primeira palavra: sede luminosos! A segunda: escutar, para não se enganar no
caminho! E finalmente a terceira palavra: não ter medo. Não tenhais
medo. Uma expressão que se repete muito na Bíblia. Concretamente no Evangelho,
no momento da Transfiguração, as últimas palavras que Jesus disse aos
discípulos foram estas: «Não tenhais medo» (Mt 17, 7).
A vós, jovens,
que vivestes esta alegria (estava para dizer esta glória, e de certo modo este
nosso encontro também é glória); a vós, que cultivais sonhos grandes mas
frequentemente ofuscados pelo temor de que não se realizem; a vós, que às vezes
pensais que não ides conseguir (por vezes assalta-nos um pouco de pessimismo);
a vós, jovens, tentados a desanimar neste tempo, a julgar-vos talvez
inadequados ou a esconder a angústia mascarando-a com um sorriso; a vós,
jovens, que quereis mudar o mundo (é um bem que queirais mudar o mundo!) e que
quereis lutar pela justiça e a paz; a vós, jovens, que investis na vida esforço
e imaginação, ficando porém com a sensação de que não bastam; a vós, jovens, de
quem a Igreja e o mundo têm necessidade como a terra tem de chuva; a vós,
jovens, que sois o presente e o futuro… Sim, precisamente a vós, jovens, é que
Jesus diz hoje: «Não tenhais medo», «não tenhais medo»! Num breve momento de
silêncio, cada um repita para si mesmo, no próprio coração, estas palavras:
«Não tenhais medo».
Queridos
jovens, gostaria de poder fixar cada um de vós nos olhos e dizer: Não temas,
não tenhas medo! Mais, tenho uma coisa belíssima para vos dizer: já não sou eu,
mas é o próprio Jesus que vos fixa agora. Ele que vos conhece, conhece o
coração de cada um de vós, conhece a vida de cada um de vós, conhece as
alegrias, conhece as tristezas, os sucessos e os fracassos, conhece o vosso
coração. E hoje aqui em Lisboa, nesta Jornada Mundial da Juventude, Ele
diz-vos: «Não temais, não temais! Coragem, não tenhais medo!»
Texto e imagem: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/ em 20/08/2023;
algumas ressonâncias da JMJ 2023...
“RECITAÇÃO
DO TERÇO COM OS JOVENS DOENTES
DISCURSO DO SANTO PADRE
Capela das Aparições do
Santuário de Nossa Senhora de Fátima
Sábado, 5 de agosto de 2023
(…) Rezámos o terço, uma oração muito bela e
vital; vital, porque nos põe em contacto com a vida de Jesus e de Maria. E
meditámos os mistérios da alegria, que nos lembram que a Igreja não pode ser
senão a casa da alegria. A Capelinha onde nos encontramos constitui uma
bela imagem da Igreja: acolhedora, sem portas. A Igreja não tem portas, para
que todos possam entrar. E aqui podemos insistir também no facto que todos
podem entrar, porque esta é a casa da Mãe, e uma mãe tem sempre o coração
aberto para todos os seus filhos, todos, todos, todos, sem excluir nenhum.(…)
(…)Temos muitos títulos de Maria, mas, se pensarmos
bem, há mais este que também poderíamos dizer: a Virgem «que sai correndo»,
sempre que há um problema; sempre que A invocamos, Ela não demora a vir; é
solícita. Nossa Senhora solícita: gostais assim? Digamo-lo todos juntos: «Nossa
Senhora solícita». Apressa-Se, para estar perto de nós, apressa-Se porque é
Mãe. Em português, dizemos «apressada» – observa-me D. Ornelas. «Nossa Senhora apressada»! E é
assim que acompanha a vida de Jesus; e não Se esconde depois da Ressurreição,
acompanha os discípulos à espera do Espírito Santo; e acompanha a Igreja que
começa a crescer depois do Pentecostes. Nossa Senhora que Se mostra solícita e
Nossa Senhora que acompanha. Acompanha sempre. Nunca é protagonista. O gesto
com que Maria Mãe acolhe é duplo: primeiro acolhe e depois aponta para Jesus.
Maria, na sua vida, não faz senão indicar Jesus: «Fazei o que Ele vos disser».
Segui Jesus.(…)”
Extratos de Texto e imagem: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/ em 20/08/2023;
quarta-feira, 26 de julho de 2023
crescer juntos...
Para nos falar do reino de Deus, Jesus usa parábolas. Conta histórias simples que atingem o coração de quem escuta; e esta linguagem, cheia de imagens, assemelha-se àquela que tantas vezes os avós utilizam com os netos, talvez sentando-os nos seus joelhos: assim lhes comunicam uma sabedoria importante para a vida. Pensando nos avós e nos idosos, raízes de que os mais jovens têm necessidade para se tornar adultos, quero reler as três narrações contidas no Evangelho de hoje a partir dum aspeto que têm em comum: crescer juntos.
Na primeira parábola, são o trigo e o joio que crescem juntos, no mesmo campo (cf. Mt 13, 24-30). Trata-se duma imagem que nos ajuda a fazer uma leitura realista: na história da humanidade, como na vida de cada pessoa, coexistem luzes e sombras, amor e egoísmo. Aliás, o bem e o mal encontram-se de tal modo entrelaçados que parecem inseparáveis. Esta abordagem realista ajuda-nos a olhar a história sem ideologias, nem otimismos estéreis ou pessimismos nocivos. Animado pela esperança de Deus, o cristão não é um pessimista, mas também não é um ingénuo que vive no mundo das fábulas, finge não ver o mal e diz que «tudo corre bem». Não, o cristão é realista: sabe que no mundo há trigo e joio e, ao olhar para dentro de si, reconhece que o mal não vem só «de fora», que não é sempre culpa dos outros, que não é preciso «inventar» inimigos a combater para evitar que se faça luz dentro de si mesmo. Dá-se conta de que o mal vem de dentro, na luta interior que todos travamos.
Mas a parábola põe-nos uma pergunta: Quando virmos o trigo e o joio conviverem no mundo, que devemos fazer? Como devemos comportar-nos? Na narração, os servos queriam arrancar o joio imediatamente (cf. 13, 28). É uma atitude bem-intencionada, mas impulsiva, até mesmo agressiva. Iludimo-nos de poder arrancar o mal com as nossas próprias forças, para repor a pureza. Uma tentação que nos assalta muitas vezes: uma «sociedade pura», uma «Igreja pura». Mas, para alcançar esta pureza, corre-se o risco de ser impacientes, intransigentes e até violentos com quem caiu no erro. E deste modo, junto com o joio, arranca-se também o bom grão e impede-se as pessoas de fazer um caminho, crescer, mudar. Em vez disso ouçamos o que Jesus diz: «Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa» (cf. Mt 13, 30). Como é belo este olhar de Deus, esta sua pedagogia misericordiosa, que nos convida a ter paciência com os outros, a acolher – em família, na Igreja e na sociedade – fragilidades, atrasos e limites: não para nos habituarmos resignadamente a eles, nem para os justificar, mas para aprendermos a intervir com respeito, continuando a cuidar do bom grão com mansidão e paciência. E nunca esqueçamos que a purificação do coração e a vitória definitiva sobre o mal são, essencialmente, obra de Deus. E nós, vencendo a tentação de separar o trigo do joio, somos chamados a compreender quais possam ser os melhores modos e momentos para agir.
Penso nos idosos e nos avós, que já fizeram uma longa porção de estrada na vida e, quando olham para trás, veem tantas coisas bonitas que conseguiram realizar, mas também derrotas, erros e coisas que – como se costuma dizer – «se pudessem voltar atrás, não as fariam». Hoje, porém, o Senhor vem ter connosco com uma palavra benigna, que convida a acolher o mistério da vida com serenidade e paciência, deixando a Ele o juízo e não vivendo de lamúrias e remorsos. Como se quisesse dizer-nos: «Olhai para o bom grão que brotou no caminho da vossa vida, fazei-o crescer mais, confiando tudo a Mim, que perdoo sempre: no fim, o bem será mais forte que o mal». Também para isto é um tempo abençoado a velhice: é a estação para reconciliar-se, para olhar com ternura a luz que supera as sombras, esperando com confiança que o bom grão semeado por Deus há de prevalecer sobre o joio, com o qual o demónio quis contaminar o nosso coração.
Vejamos agora a segunda parábola. O reino dos céus, diz Jesus, é a obra de Deus, que age silenciosamente nas tramas da história, parecendo uma ação pequena e invisível como um minúsculo grão de mostarda. Mas, quando este grão cresce, «torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos» (Mt 13, 32). A nossa vida, irmãos e irmãs, também é assim: vimos ao mundo pequeninos, tornamo-nos adultos, depois idosos; no início somos uma pequena semente, depois alimentamo-nos de esperanças, realizamos projetos e sonhos, o mais belo dos quais é tornar-nos como aquela árvore, que não vive para si mesma, mas para dar sombra a quem a deseja e oferecer espaço a quem quer construir o ninho. Assim a crescer juntos, nesta parábola, são, no final de contas, a velha árvore e os pássaros.
Penso nos avós: como são belas estas árvores frondosas, sob as quais os filhos e os netos constroem os seus «ninhos», aprendem o clima de casa e experimentam a ternura dum abraço. Trata-se de crescer juntos: a árvore verdejante e os pequeninos que precisam do ninho, os avós com os filhos e os netos, os idosos com os mais jovens. Irmãos e irmãs, precisamos duma nova aliança entre jovens e idosos, para que a seiva de quem tem uma longa experiência de vida humedeça os rebentos de esperança de quem está a crescer. Neste fecundo intercâmbio, aprendemos a beleza da vida, construímos uma sociedade fraterna e, na Igreja, permitimos o encontro e o diálogo entre a tradição e as novidades do Espírito.
Finalmente a terceira parábola, na qual crescem juntos o fermento e a farinha (cf. Mt 13, 33). Esta mistura faz crescer toda a massa. Jesus usa precisamente o verbo «misturar», que sugere aquela arte que é a «mística de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço» e «sair de si mesmo para se unir aos outros» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 87). Isto vence os individualismos e os egoísmos e ajuda-nos a gerar um mundo mais humano e mais fraterno. Assim hoje a Palavra de Deus é um apelo a vigiar para que, nas nossas vidas e famílias, não marginalizemos os mais velhos. Estejamos atentos para que as nossas cidades superlotadas não se tornem «concentrados de solidão»; não aconteça que a política, chamada a atender às necessidades dos mais frágeis, se esqueça precisamente dos idosos, deixando que o mercado os relegue como «resíduos não rentáveis». Não suceda que, à força de correr a toda a velocidade atrás dos mitos da eficiência e da produção, nos tornemos incapazes de abrandar para acompanhar quem sente dificuldade em aguentar o passo. Por favor, misturemo-nos, cresçamos juntos.
Irmãos, irmãs, a Palavra de Deus convida-nos a não separar, a não nos fecharmos, a não pensarmos que se consegue fazer a vida sozinhos: ela convida a crescer juntos. Ouçamo-nos, conversemos, apoiemo-nos mutuamente. Não esqueçamos os avós e os idosos: graças às suas carícias, muitas vezes voltamos a levantar-nos, retomamos o caminho, sentimo-nos amados, fomos curados interiormente. Sacrificaram-se por nós e nós não podemos apagá-los da agenda das nossas prioridades. Irmãos e irmãs, cresçamos juntos, avancemos juntos. O Senhor abençoe o nosso caminho.
Texto: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/ em 26/07/2023;
Imagem: Retirada da "Google imagens" em 26/07/2023;
Um pequeno grão de areia...
Catequeses. A paixão pela evangelização -Testemunhas: Santa Teresa do Menino Jesus, Padroeira das Missões
Estão aqui diante de nós as relíquias de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira universal das missões. É bom que isto aconteça no momento em que estamos a refletir sobre a paixão pela evangelização, sobre o zelo apostólico. Portanto, hoje deixemo-nos ajudar pelo testemunho de Santa Teresa. Ela nasceu há 150 anos e, por ocasião deste aniversário, tenciono dedicar-lhe uma Carta Apostólica.
É a padroeira das missões, mas nunca esteve em missão: como se explica isto? Era uma monja carmelita e a sua vida foi marcada pela pequenez e pela fragilidade: ela definia-se “um pequeno grão de areia”. De saúde frágil, morreu com apenas 24 anos. Mas se o seu corpo estava doente, o seu coração era vibrante, era missionário. No seu “diário” conta que ser missionária era o seu desejo e que queria sê-lo não apenas durante alguns anos, mas por toda a vida, aliás até ao fim do mundo. Teresa foi “irmã espiritual” de vários missionários: do mosteiro acompanhava-os com as suas cartas, as suas orações e oferecendo sacrifícios contínuos por eles. Sem aparecer, intercedia pelas missões, como um motor que, escondido, dá a um veículo a força para ir em frente. No entanto, muitas vezes era incompreendida pelas suas irmãs monjas: teve delas “mais espinhos do que rosas”, mas aceitava tudo com amor, com paciência, oferecendo, juntamente com a sua doença, também os julgamentos e as incompreensões. E fê-lo com alegria, fê-lo pelas necessidades da Igreja, para que, como dizia, se espalhassem “rosas sobre todos”, especialmente sobre os mais afastados.
Mas agora, questiono-me, podemos perguntar-nos de onde vem todo este zelo, esta força missionária e esta alegria de interceder? Dois episódios que aconteceram antes da entrada de Teresa no mosteiro ajudam-nos a compreender melhor. O primeiro diz respeito ao dia que mudou a sua vida, o Natal de 1886, quando Deus fez um milagre no seu coração. Teresa teria completado 14 anos. Sendo a filha mais nova, em casa era mimada por todos, mas não “mal crescida”. Quando regressa da missa da meia-noite, o pai, muito cansado, não tinha vontade de assistir à abertura das prendas da filha e disse: «Ainda bem que é o último ano!» pois com 15 anos já não se fazia mais. Teresa, de natureza muito sensível e de lágrimas fáceis, fica magoada, vai para o seu quarto e chora. Mas rapidamente reprime as lágrimas, desce e, cheia de alegria, anima o pai. O que aconteceu? Que naquela noite, em que Jesus se tinha feito débil por amor, ela se tinha tornado forte de espírito – um verdadeiro milagre: em poucos instantes, tinha saído da prisão do seu egoísmo e da sua autocomiseração; começou a sentir que “a caridade lhe entrava no coração, com a necessidade de se esquecer de si mesma” (cf. Manuscrito A, 133-134). A partir de então, dirigiu o seu zelo para os outros, para que encontrassem Deus, e em vez de procurar consolar-se a si mesma, pôs-se a «consolar Jesus, [para] torná-lo amado pelas almas», porque - anotou Teresa, «Jesus está doente de amor e [...] a doença do amor não pode ser curada senão pelo amor» (Carta a Marie Guérin, julho de 1890). Eis então o objetivo do seu dia a dia: «fazer amar Jesus» (Carta a Céline, 15 de outubro de 1889), interceder a fim de que outros o amassem. Escreveu: «Gostaria de salvar almas e de me esquecer de mim mesma por elas: gostaria de as salvar inclusive depois da minha morte» (Carta ao Padre Roullan, 19 de março de 1897). Várias vezes disse: «Passarei o meu céu a fazer o bem na terra». Este é o primeiro episódio que lhe mudou a vida aos 14 anos.
E este seu zelo era dirigido sobretudo aos pecadores, aos “distantes”. O segundo episódio revela isto. Teresa toma conhecimento de um criminoso condenado à morte por delitos horríveis, chamava-se Enrico Pranzini – ela escreveu o nome: considerado culpado do assassínio brutal de três pessoas, está destinado à guilhotina, mas não quer receber os confortos da fé. Teresa leva-o a peito e faz tudo o que pode: reza de todas as maneiras pela sua conversão, para que ele, a quem com compaixão fraterna chama «o pobre diabo do Pranzini», possa ter um pequeno sinal de arrependimento e dar lugar à misericórdia de Deus, em quem Teresa confia cegamente. A execução tem lugar. No dia seguinte, Teresa lê no jornal que Pranzini, pouco antes de apoiar a cabeça no cadafalso, «de repente, tomado por uma súbita inspiração, volta-se, pega no Crucifixo que o sacerdote lhe apresentava e beija três vezes as sagradas chagas» de Jesus. A santa comenta: «Então a sua alma foi receber a sentença misericordiosa d’Aquele que declarou que no Céu haverá mais alegria por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência!» (Manuscrito A, 135).
Irmãos e irmãs, eis o poder de intercessão movido pela caridade, eis o motor da missão. Com efeito os missionários, dos quais Teresa é padroeira, não são apenas aqueles que vão longe, aprendem novas línguas, fazem boas obras e são bons anunciadores; não, missionário é também todo aquele que vive, onde está, como instrumento do amor de Deus; que faz tudo para que, através do seu testemunho, da sua oração, da sua intercessão, Jesus passe. Este é o zelo apostólico que, recordemos sempre, nunca se realiza por proselitismo – nunca! – ou por constrição – nunca – mas por atração: a fé nasce por atração, não nos tornamos cristãos por sermos forçados por alguém, não, mas por sermos tocados pelo amor. A Igreja, perante tantos meios, métodos e estruturas, que por vezes desviam do essencial, precisa de corações como o de Teresa, corações que atraem pelo amor e nos aproximam de Deus. E peçamos à santa – temos as relíquias aqui – peçamos à santa a graça de vencer o nosso egoísmo e peçamos a paixão de interceder a fim de que esta atração seja maior nas pessoas e para que Jesus seja conhecido e amado.
Papa Francisco
Audiência Geral 2023.07.06
Texto: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/ em 26/07/2023;
Imagem: Retirada da "Google imagens" em 26/07/2023;



