domingo, 5 de março de 2023
O poder transformador da gratidão
Porque existo e sou batizado?
domingo, 26 de fevereiro de 2023
Queridos irmãos e irmãs!
Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas coincidem em narrar o episódio da Transfiguração de Jesus. Neste acontecimento, vemos a resposta do Senhor a uma falta de compreensão manifestada pelos seus discípulos. De facto, pouco antes, registara-se uma verdadeira divergência entre o Mestre e Simão Pedro; este começara professando a sua fé em Jesus como Cristo, o Filho de Deus, mas em seguida rejeitara o seu anúncio da paixão e da cruz. E Jesus censurara-o asperamente: «Afasta-te, satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mt 16, 23). Por isso, «seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte» (Mt 17, 1).
O evangelho da Transfiguração é proclamado, cada ano, no II Domingo da Quaresma. Realmente, neste tempo litúrgico, o Senhor toma-nos consigo e conduz-nos à parte. Embora os nossos compromissos ordinários nos peçam para permanecer nos lugares habituais, transcorrendo uma vida quotidiana frequentemente repetitiva e por vezes enfadonha, na Quaresma somos convidados a subir «a um alto monte» juntamente com Jesus, para viver com o Povo santo de Deus uma particular experiência de ascese.
A ascese quaresmal é um empenho, sempre animado pela graça, no sentido de superar as nossas faltas de fé e as resistências em seguir Jesus pelo caminho da cruz. Aquilo precisamente de que Pedro e os outros discípulos tinham necessidade. Para aprofundar o nosso conhecimento do Mestre, para compreender e acolher profundamente o mistério da salvação divina, realizada no dom total de si mesmo por amor, é preciso deixar-se conduzir por Ele à parte e ao alto, rompendo com a mediocridade e as vaidades. É preciso pôr-se a caminho, um caminho em subida, que requer esforço, sacrifício e concentração, como uma excursão na montanha. Estes requisitos são importantes também para o caminho sinodal, que nos comprometemos, como Igreja, a realizar. Far-nos-á bem refletir sobre esta relação que existe entre a ascese quaresmal e a experiência sinodal.
Para o «retiro» no Monte Tabor, Jesus leva consigo três discípulos, escolhidos para serem testemunhas dum acontecimento singular; Ele deseja que aquela experiência de graça não seja vivida solitariamente, mas de forma compartilhada, como é aliás toda a nossa vida de fé. A Jesus, seguimo-Lo juntos; e juntos, como Igreja peregrina no tempo, vivemos o Ano Litúrgico e, nele, a Quaresma, caminhando com aqueles que o Senhor colocou ao nosso lado como companheiros de viagem. À semelhança da subida de Jesus e dos discípulos ao Monte Tabor, podemos dizer que o nosso caminho quaresmal é «sinodal», porque o percorremos juntos pelo mesmo caminho, discípulos do único Mestre. Mais ainda, sabemos que Ele próprio é o Caminho e, por conseguinte, tanto no itinerário litúrgico como no do Sínodo, a Igreja não faz outra coisa senão entrar cada vez mais profunda e plenamente no mistério de Cristo Salvador.
E chegamos ao momento culminante. O Evangelho narra que Jesus «Se transfigurou diante deles: o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mt 17, 2). Aqui aparece o «cimo», a meta do caminho. No final da subida e enquanto estão no alto do monte com Jesus, os três discípulos recebem a graça de O verem na sua glória, resplandecente de luz sobrenatural, que não vinha de fora, mas irradiava d’Ele mesmo. A beleza divina desta visão mostrou-se incomparavelmente superior a qualquer cansaço que os discípulos pudessem ter sentido quando subiam ao Tabor. Como toda a esforçada excursão de montanha, ao subir, é preciso manter os olhos bem fixos na vereda; mas o panorama que se deslumbra no final surpreende e compensa pela sua maravilha. Com frequência também o processo sinodal se apresenta árduo e por vezes podemos até desanimar; mas aquilo que nos espera no final é algo, sem dúvida, maravilhoso e surpreendente, que nos ajudará a compreender melhor a vontade de Deus e a nossa missão ao serviço do seu Reino.
A experiência dos discípulos no monte Tabor torna-se ainda mais enriquecedora quando, ao lado de Jesus transfigurado, aparecem Moisés e Elias, que personificam respetivamente a Lei e os Profetas (cf. Mt 17, 3). A novidade de Cristo é cumprimento da antiga Aliança e das promessas; é inseparável da história de Deus com o seu povo, e revela o seu sentido profundo. De forma análoga, o caminho sinodal está radicado na tradição da Igreja e, ao mesmo tempo, aberto para a novidade. A tradição é fonte de inspiração para procurar estradas novas, evitando as contrapostas tentações do imobilismo e da experimentação improvisada.
O caminho ascético quaresmal e, de modo semelhante, o sinodal, têm como meta uma transfiguração, pessoal e eclesial. Uma transformação que, em ambos os casos, encontra o seu modelo na de Jesus e realiza-se pela graça do seu mistério pascal. Para que, neste ano, se possa realizar em nós tal transfiguração, quero propor duas «veredas» que é necessário percorrer para subir juntamente com Jesus e chegar com Ele à meta.
A primeira diz respeito à ordem que Deus Pai dirige aos discípulos no Tabor, enquanto estão a contemplar Jesus transfigurado. A voz da nuvem diz: «Escutai-O» (Mt 17, 5). Assim a primeira indicação é muito clara: escutar Jesus. A Quaresma é tempo de graça na medida em que nos pusermos à escuta d’Ele, que nos fala. E como nos fala Ele? Antes de mais nada na Palavra de Deus, que a Igreja nos oferece na Liturgia: não a deixemos cair em saco roto; se não podermos participar sempre na Missa, ao menos leiamos as Leituras bíblicas de cada dia valendo-nos até da ajuda da internet. Além da Sagrada Escritura, o Senhor fala-nos nos irmãos, sobretudo nos rostos e vicissitudes daqueles que precisam de ajuda. Mas quero acrescentar ainda outro aspeto, muito importante no processo sinodal: a escuta de Cristo passa também através da escuta dos irmãos e irmãs na Igreja; nalgumas fases, esta escuta recíproca é o objetivo principal, mas permanece sempre indispensável no método e estilo duma Igreja sinodal.
Ao ouvir a voz do Pai, «os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-Se deles, Jesus tocou-lhes dizendo: “Levantai-vos e não tenhais medo”. Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém» (Mt 17, 6-8). E aqui temos a segunda indicação para esta Quaresma: não refugiar-se numa religiosidade feita de acontecimentos extraordinários, de sugestivas experiências, levados pelo medo de encarar a realidade com as suas fadigas diárias, as suas durezas e contradições. A luz que Jesus mostra aos seus discípulos é uma antecipação da glória pascal, e é rumo a esta que se torna necessário caminhar seguindo «apenas Jesus e mais ninguém». A Quaresma orienta-se para a Páscoa: o «retiro» não é um fim em si mesmo, mas prepara-nos para viver – com fé, esperança e amor – a paixão e a cruz, a fim de chegarmos à ressurreição. Também o percurso sinodal não nos deve iludir quanto ao termo de chegada, que não é quando Deus nos dá a graça de algumas experiências fortes de comunhão, pois aí o Senho também nos repete: «Levantai-vos e não tenhais medo». Desçamos à planície e que a graça experimentada nos sustente para sermos artesãos de sinodalidade na vida ordinária das nossas comunidades.
Queridos irmãos e irmãs, que o Espírito Santo nos anime nesta Quaresma na subida com Jesus, para fazermos experiência do seu esplendor divino e assim, fortalecidos na fé, prosseguirmos o caminho com Ele, glória do seu povo e luz das nações.
Roma – São João de Latrão, na Festa da Conversão de São Paulo, 25 de janeiro de 2023.
FRANCISCO
Texto: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/ em 26/02/2023;
Imagem: Retirada da "Google imagens" em 26/02/2023;
O anúncio do Evangelho só se realiza na força do Espírito...
No nosso itinerário de catequeses sobre a
paixão de evangelizar, hoje recomeçamos pelas palavras de Jesus que ouvimos:
«Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,
19). Ide, diz o
Ressuscitado, não para doutrinar, nem para fazer prosélitos, não, mas para fazer discípulos, ou seja,
para oferecer a cada um a possibilidade de entrar em contacto com Jesus, de o
conhecer e de o amar livremente. Ide, batizando: batizar significa imergir e, portanto, antes
de indicar uma ação litúrgica, exprime uma ação vital: imergir a própria vida
no Pai, no Filho, no Espírito Santo; experimentar todos os dias a alegria da
presença de Deus que está próximo de nós como Pai, como Irmão, como Espírito
que age em nós, no nosso próprio espírito. Batizar significa imergir-se na
Trindade.
Quando Jesus diz aos seus discípulos - e
também a nós – “Ide!”, não comunica apenas uma palavra. Não! Comunica, ao mesmo
tempo, o Espírito Santo,
pois só graças a Ele, ao Espírito Santo, podemos receber a missão de Cristo e
cumpri-la (cf. Jo 20,
21-22). Com efeito, os Apóstolos permanecem fechados no Cenáculo, com medo,
enquanto não chega o dia de Pentecostes e desce sobre eles o Espírito Santo
(cf. At 2, 1-13).
E naquele momento desaparece o temor e com a sua força aqueles pescadores, na
sua maioria iletrados, mudarão o mundo. “Mas se não souberem falar...”. Mas é a
palavra do Espírito, a força do Espírito que os leva em frente para mudar o
mundo. Portanto, o anúncio do Evangelho só se realiza na força do
Espírito, que precede os missionários e prepara o coração: Ele é “o motor da
evangelização”.
Descobrimo-lo nos Atos dos Apóstolos, onde em
cada página vemos que o
protagonista do anúncio não é Pedro, Paulo, Estêvão ou Filipe, mas o Espírito Santo. Ainda nos
Atos, narra-se um momento nevrálgico dos primórdios da Igreja, que também nos
pode dizer muito. Nessa época, como hoje, com as consolações não faltavam
tribulações - momentos bons e momentos menos bons – as alegrias eram
acompanhadas por preocupações, ambas as coisas. Uma em particular: como se
comportar com os pagãos que chegavam à fé, com quantos não pertenciam ao povo
hebreu, por exemplo. Eram ou não obrigados a observar as prescrições da Lei
mosaica? Não se tratava de uma questão de pouca importância para aquele povo.
Assim, formam-se dois grupos, entre aqueles que consideravam a observância da
Lei indispensável e quem não. Para discernir, os Apóstolos reúnem-se no que se
chama o “Concílio de Jerusalém”, o primeiro da história. Como resolver o
dilema? Ter-se-ia podido procurar um bom compromisso entre tradição e inovação:
algumas normas observam-se, outras deixam-se de lado. Contudo, os Apóstolos não
seguem esta sabedoria humana para procurar um equilíbrio diplomático entre uma
e outra, não seguem isto, mas adaptam-se à obra do Espírito, que os tinha
antecipado, descendo sobre os pagãos como sobre eles.
Portanto, eliminando quase todas as
obrigações ligadas à Lei, comunicam as decisões finais, tomadas – e escrevem
assim - «pelo Espírito Santo e por nós» (cf. At 15, 28) saiu esta, o Espírito Santo connosco, assim
agem sempre os Apóstolos. Juntos, sem se dividir, não obstante as diferentes
sensibilidades e opiniões, põem-se à escuta do Espírito. E Ele ensina algo,
válido até hoje: cada tradição religiosa é útil, se facilitar o encontro com
Jesus, cada tradição religiosa é útil se agilizar o encontro com Jesus.
Poderíamos dizer que a decisão histórica do primeiro Concílio, do qual também
nós nos beneficiamos, foi movida por um princípio, o princípio do anúncio: tudo na Igreja deve
conformar-se com as exigências do anúncio do Evangelho; não com as opiniões dos
conservadores ou dos progressistas, mas com o facto de que Jesus alcance a vida
das pessoas. Por conseguinte, cada escolha, cada uso, cada estrutura e cada
tradição devem ser avaliados na medida em que favorecerem o anúncio de Cristo.
Quando se encontram decisões na Igreja, por exemplo, divisões ideológicas: “Sou
conservador porque... sou progressista porque...”. Mas onde está o Espírito
Santo? Estai atentos que o Evangelho não é uma ideia, o Evangelho não é uma
ideologia: o Evangelho é um anúncio que toca o coração e te faz mudar o
coração, mas se tu te refugiares numa ideia, numa ideologia quer de direita
quer de esquerda quer de centro, estás a fazer do Evangelho um partido
político, uma ideologia, um clube de pessoas. O Evangelho oferece-te sempre
esta liberdade do Espírito que age em ti e te leva em frente. E quanto é
necessário hoje pegar pela mão a liberdade do Evangelho e deixar-nos levar em
frente pelo Espírito.
Assim, o Espírito ilumina o caminho da
Igreja, sempre. Com efeito, Ele não é apenas a luz do coração, é a luz que
orienta a Igreja: ilumina, ajuda a distinguir, ajuda a discernir. Por isso, é
necessário invocá-lo frequentemente; façamo-lo também hoje, no início da
Quaresma. Pois, como Igreja, podemos ter tempos e espaços bem definidos,
comunidades, institutos e movimentos bem organizados, mas sem o Espírito, tudo
permanece sem alma. A organização não é suficiente: é o Espírito que dá vida à
Igreja. Se não rezar a Ele e não o invocar, a Igreja fecha-se em si mesma, em
debates estéreis e extenuantes, em polarizações desgastantes, enquanto a chama
da missão se extingue. É muito triste ver a Igreja como se fosse um parlamento;
não, a Igreja é outra coisa. A Igreja é a comunidade de homens e mulheres que
acreditam e anunciam Jesus Cristo mas movidos pelo Espírito Santo, não pelas
próprias razões. Sim, usa-se a razão mas vem o Espírito que a ilumina e move. O
Espírito faz-nos sair, impele-nos a anunciar a fé, impele-nos para nos confirmarmos
na fé, a ir em missão para reencontrarmos quem somos. Por isso, o Apóstolo
Paulo recomenda assim: «Não extingais o Espírito!» (1 Ts 5, 19), não extingais o Espírito. Oremos com
frequência ao Espírito, invoquemo-lo, peçamos-lhe todos os dias que acenda em
nós a sua luz. Façamo-lo antes de cada encontro, para nos tornarmos apóstolos
de Jesus com as pessoas que encontrarmos. Não extingais o Espírito nas
comunidades cristãs nem dentro de cada um de nós.
Caros irmãos e irmãs, como Igreja comecemos e
recomecemos do Espírito Santo. «Sem dúvida, é importante que nas nossas
programações pastorais comecemos a partir das sondagens sociológicas, das
análises, da lista de dificuldades, do elenco de expetativas e queixas. No
entanto, é muito mais importante começar a partir das experiências do Espírito: eis o verdadeiro início.
Portanto, é necessário procurá-las, enumerá-las, estudá-las, interpretá-las.
Trata-se de um princípio fundamental que, na vida espiritual, é chamado primado da consolação sobre a
desolação. Primeiro há o Espírito que consola, reanima, ilumina, se move;
depois, haverá também a desolação, o sofrimento, a escuridão, mas o princípio
para se regular na obscuridade é a luz do Espírito» (C.M. MARTINI, Evangelizzare nella consolazione
dello Spirito, 25 de setembro de 1997). Este é o princípio para
se regular nas coisas que não se compreendem, nas confusões, inclusive nas
muitas escuridões, é importante. Procuremos interrogar-nos se nos abrimos a
esta luz, se lhe damos espaço: invoco o Espírito? Cada um responda no
próprio íntimo. Quantos de nós rezamos ao Espírito? “Não, padre, rezo a Nossa
Senhora, rezo aos Santos, rezo a Jesus, mas às vezes, rezo o Pai-Nosso, rezo ao
Pai” – “E ao Espírito? Tu não rezas ao Espírito, que é aquele que te faz mover
o coração, que te leva em frente, te leva à consolação, leva em frente a tua
vontade de evangelizar e de fazer missão?”. Deixo-vos esta pergunta: Rezo ao
Espírito Santo? Deixo-me orientar por Ele, que me convida a não me
fechar, mas a levar Jesus, a dar testemunho do primado da consolação de Deus
sobre a desolação do mundo? Nossa Senhora que compreendeu este bem nos faça
entender isto.
Papa Francisco
Catequese na audiência Geral 22.02.23
Texto: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/ em 26/02/2023;
Imagem: Retirada da "Google imagens" em 26/02/2023;

