sexta-feira, 16 de abril de 2021
domingo, 4 de abril de 2021
O perfume da nova vida ressuscitada
“Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo”
"+ Na alegria da ressurreição, prepare
a oração, criando um clima de profunda intimidade com o
Ressuscitado.
+ Suplique a Deus o dom da alegria com
Cristo Ressuscitado; que a experiência da Ressurreição o(a) impulsione a viver
com mais intensidade em comunhão com toda a humanidade e toda a Criação.
+ Antes de contemplar o relato
das mulheres que foram ao sepulcro de madrugada, repasse os “pontos”
seguintes:
- As mulheres revelaram
uma presença fundamental nos relatos da Páscoa. Elas
seguiram e serviram a Jesus com seus bens pelos caminhos da Galileia e permaneceram
fiéis até o final, até a Cruz. São testemunhas, como tantas mulheres de hoje,
da fidelidade nas situações limite, onde o que lhes toca fazer é estar e
acompanhar, na sua impotência e luto, até que emerja o inédito. São testemunhas
da semente do amor entregue, que, embora invisível no ventre da terra, vai
pouco a pouco abrindo caminho para a luz, afastando pedras e abrindo espaços,
dando à luz o novo, porque o Deus de Jesus não é um Deus de mortos, mas de
vivos.
- Frente à traição e a ausência dos
discípulos, as mulheres foram
significativas por sua lealdade. Enquanto o grupo de homens se trancou na
passividade covarde, elas optaram pelo enfrentamento da realidade, vencendo o
medo, colocando-se a caminho.
Das mulheres que foram ao
sepulcro na manhã de Páscoa levando perfumes podemos
aprender sua capacidade de enfrentar os acontecimentos com sabedoria e audácia.
Elas são as mulheres “mirróforas”, ou
seja, portadoras de perfumes, que madrugam para ir ungir o corpo de Jesus. Estão conscientes do tamanho da pedra e de sua impossibilidade de removê-la, mas isso
não é um obstáculo em sua determinação de ir ao túmulo para fazer memória
d’Aquele que abriu para elas um horizonte de sentido.
A alusão ao “primeiro dia da
semana” e o “nascer do sol” acompanham a entrada delas em cena, na madrugada da
Páscoa: estamos no começo da Nova Criação e
a luz da Ressurreição as envolve em seu esplendor.
- Quem busca, encontra; as
mulheres foram as primeiras que viram este instigante sinal: a grande pedra
tinha sido removida e o túmulo estava vazio. E foram as primeiras a “entrar”.
Entraram no túmulo: esta foi a experiência das
discípulas de Jesus, ou seja, entraram no mistério que Deus realizou com sua
vigília de amor. Não se pode fazer a experiência da Páscoa sem “entrar” no
mistério.
As mulheres aprenderam uma lição
inesquecível: é inútil busca Jesus no lugar da morte.
O cenário da morte carece de
respostas. A busca deverá ser
feita no espaço onde se desenvolve a vida. As
mulheres entendem que corresponde a elas tomar a iniciativa e tirar da covardia
o grupo de discípulos, transmitindo um encargo a todos os que abandonaram Jesus
e, em especial, a quem chegou a renegá-Lo: “...dizei a seus
discípulos e a Pedro...” (v.7).
- Agora, finalmente, Marcos cita
os discípulos. Através das mulheres, eles receberão o encargo de Jesus. Elas se
converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e
relançaram o projeto do Reino a partir da grande intuição de Jesus: na Galileia
começou a história e ali deverá ser reiniciada. Seguir as pegadas do Galileu
confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer
seus passos garante ao grupo a experiência de contar com Ele: “Ele
irá à vossa frente, na Galileia; lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito” (v.7).
- Voltar à Galileia significa
retomar e prolongar a mensagem e a proposta do Reino de Jesus. Foi ali na Galileia
que Jesus começou sua vida pública e atuou como aquele que veio aliviar o
sofrimento humano, com a certeza de que o Reino tinha chegado e que Deus faria
mudar a maneira de vida dos homens, partindo precisamente dos mais pobres e
excluídos. Dessa forma, inicia-se um grande “movimento
humanizador”, a partir de baixo, ou seja, dos últimos e
pobres, anunciando e preparando a chegada do Reino na Galileia.
- Esta volta à Galileia marca o
começo da nova comunidade dos
seguidores e seguidoras de Jesus. A partir desse lugar deve iniciar-se o novo
caminho do seguimento.
Por isso, os(as) discípulos(as)
devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galileia.
É ali que se devem encontrar todos os que são de Jesus (Pedro, as mulheres, os
discípulos de Jerusalém), para também ali retomar e prolongar o movimento
iniciado pelo Mestre de Nazaré.
Mas é sobretudo através do “modo
cristificado de ser e viver” que os(as) seguidores(as) de
Jesus exalam um bom odor, criam uma atmosfera perfumada ao seu redor.
- Assim, às vezes nos encontramos
com ambientes que nos cativam e atraem, que desprendem um aroma agradável e
prazeroso. São ambientes nos quais reina o acolhimento, o diálogo amoroso, o
compromisso, a simplicidade. Sempre agrada ficar por mais tempo. Nossa memória
parte dali amavelmente carregada com energia salutar e nossos pulmões saem
repletos de ar purificado, limpo...
Também existem outros ambientes
cujo ar é irrespirável, fétido, com mau odor. São lugares onde há competições,
agressividade e violência, onde as pessoas são manipuladas; são atmosferas
arrogantes, infectadas, intolerantes, vazias. Saímos dali meio asfixiados, desejando
não querer voltar mais.
+ Como as mulheres “mirróforas”, tome
consciência dos aromas que deve levar para perfumar os ambientes com odor de
morte, de rigidez, de indiferença, de medo... para que se transformem em
espaços com cheiro de vida, de liberdade, de ternura e acolhimento.
+ Que aromas prepara e espalha em
sua casa, em sua comunidade, em seu ambiente?
+ Diante do Ressuscitado faça um
profundo colóquio, expressando toda sua alegria e seu desejo de viver
intensamente em favor da vida de todos.
+ Registe e dê nome aos
sentimentos de consolação.
Mensagem
final
Todos nós cristãos, fomos ungidos
com o óleo santo no batismo,
fomos ungidos com um bálsamo cristificante. Por isso trazemos
a força curativa do perfume de Cristo,
para sermos presenças diferenciadas em lugares que cheiram à morte e poder
manifestar a beleza da vida cristã com a qualidade do nosso aroma.
Somos uma fragrância que é o
símbolo da vida, e que, derramada em favor das pessoas, inunda o mundo,
comunicando a salvação.
Páscoa é expandir o perfume da vida que nos
envolve.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
03.04.2021"
Texto -
Retirado do site - "CATEQUESEHoje - www.catequesehoje.org.br
", em 04.04.2021 - Um site de Catequese do Brasil, com muita qualidade!
quinta-feira, 1 de abril de 2021
domingo, 21 de fevereiro de 2021
Viagem de regresso a Deus
SANTA MISSA, BÊNÇÃO E IMPOSIÇÃO DAS CINZAS
HOMILIA DO PAPA
FRANCISCO
Basílica de São Pedro
Quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021
Principiamos o caminho da Quaresma, que se abre com as
palavras do profeta Joel indicando-nos a direção a tomar. Trata-se dum convite
que brota do coração de Deus, suplicando-nos de braços abertos e olhos cheios
de nostalgia: «Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2,
12). Convertei-vos a Mim. A Quaresma é uma viagem
de regresso a Deus. Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe
dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde... Hoje não posso,
mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após
dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas
a fazer e desculpas a apresentar, mas, irmãos e irmãs, hoje é o tempo de
regressar a Deus.
Convertei-vos a Mim – diz Ele – de todo o
vosso coração. A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo
de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos a percorrer,
para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o
vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende. A Quaresma não é compor um
ramalhete espiritual; é discernir para onde está orientado o coração. Aqui está
o centro da Quaresma: para onde está orientado o meu coração? Tentemos saber:
Para onde me leva o «navegador» da minha vida, para Deus ou para mim mesmo?
Vivo para agradar ao Senhor, ou para ser notado, louvado, preferido, no
primeiro lugar e assim por diante? Tenho um coração «dançarino» que dá um passo
para a frente e outro para trás, amando ora o Senhor ora o mundo, ou um coração
firme em Deus? Sinto-me bem com as minhas hipocrisias ou luto para libertar o
coração da simulação e das falsidades que o têm prisioneiro?
A viagem da Quaresma é um êxodo: é
um êxodo da escravidão para a liberdade. São quarenta dias que recordam os
quarenta anos em que o povo de Deus caminhou pelo deserto para voltar à terra
de origem. Mas, como foi difícil deixar o Egito! Mais difícil do que deixar a
terra foi tirar o Egito do coração do povo de Deus, aquele Egito que traziam
dentro… É muito difícil deixar o Egito! Ao longo do caminho, nos seus lamentos,
sempre se sentiam tentados pelas cebolas, tentados a voltar para trás, presos
às memórias do passado, a qualquer ídolo. O mesmo se passa connosco: a viagem
de regresso a Deus vê-se dificultada pelos nossos apegos doentios, impedida
pelos laços sedutores dos vícios, pelas falsas seguranças do dinheiro e da
ostentação, pela lamúria que paralisa. Para caminhar, é preciso desmascarar
estas ilusões.
Interroguemo-nos então: Como avançar no caminho para
Deus? Ajudam-nos as viagens de regresso narradas pela Palavra de Deus.
Olhamos para o filho pródigo e compreendemos que é
tempo também para nós de regressar ao Pai. Como aquele filho,
também nós esquecemos o ar de casa, delapidamos bens preciosos em troca de
coisas sem valor e ficamos com as mãos vazias e o coração insatisfeito. Caímos:
somos filhos que caem continuamente, somos como criancinhas que tentam andar,
mas estatelam-se no chão precisando uma vez e outra de ser levantadas pelo
papá. É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão
de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso. Ao dizer
Confissão, recomendo aos confessores: Sede como o pai, não com o chicote, mas
com o abraço.
Depois precisamos de regressar a Jesus,
fazer como aquele leproso curado que voltou para Lhe agradecer. Curados foram
dez, mas só ele foi também salvo, porque voltara para Jesus
(cf. Lc 17, 12-19). Todos, todos nós temos enfermidades
espirituais: sozinhos, não podemos curá-las; todos temos vícios arraigados:
sozinhos, não podemos extirpá-los; todos temos medos que nos paralisam:
sozinhos, não podemos vencê-los. Precisamos de imitar aquele leproso, que
voltou para Jesus e se prostrou aos seus pés. Temos necessidade da cura
de Jesus, precisamos de colocar diante d’Ele as nossas feridas e dizer-Lhe:
«Jesus, estou aqui diante de Vós, com o meu pecado, com as minhas misérias. Vós
sois o médico; podeis libertar-me. Curai o meu coração».
Mais ainda! A palavra de Deus pede-nos para regressar
ao Pai, pede-nos para voltar a Jesus, e somos chamados também a regressar
ao Espírito Santo. As cinzas na cabeça lembram-nos que somos pó e em pó nos
havemos de tornar. Mas, sobre este pó que somos nós, Deus soprou o seu Espírito
de vida. Então não podemos viver seguindo o pó, indo atrás de coisas que hoje
existem e amanhã desaparecem. Voltemos ao Espírito, Dador de vida! Voltemos ao
Fogo que faz ressurgir as nossas cinzas, àquele Fogo que nos ensina a amar.
Continuaremos sempre a ser pó, mas – como diz um hino litúrgico – pó enamorado.
Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor,
que queima as cinzas das lamúrias e da resignação.
Irmãos e irmãs, esta nossa viagem de regresso a
Deus só é possível, porque houve a sua vinda até junto de nós. Caso
contrário, não teria sido possível. Antes de irmos até Ele, desceu Ele até nós.
Precedeu-nos, veio ao nosso encontro. Por nós, desceu até mais fundo de quanto
pudéssemos imaginar: fez-Se pecado, fez-Se morte. Isto mesmo no-lo recordou São
Paulo: «Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus O fez pecado por nós» (2
Cor 5, 21). Para não nos deixar sozinhos e acompanhar-nos no caminho,
Ele desceu dentro do nosso pecado e da nossa morte. Tocou o pecado, tocou a
nossa morte. Então a nossa viagem é deixar-se tomar pela mão. O Pai que nos
chama a voltar é Aquele que sai de casa e vem procurar-nos; o Senhor que nos
cura é Aquele que Se deixou ferir na cruz; o Espírito que nos faz mudar de vida
é Aquele que sopra com força e suavidade sobre o nosso pó.
Daí a súplica do Apóstolo: «Deixai-vos reconciliar com
Deus» (2 Cor 5, 20). Deixai-vos reconciliar: o caminho
não se apoia nas nossas forças; com as próprias forças, ninguém pode
reconciliar-se com Deus; não consegue. A conversão do coração, com os gestos e
práticas que a exprimem, só é possível se partir do primado da ação de Deus. O
que nos faz regressar a Ele não são as nossas capacidades nem os méritos que
ostentamos, mas a sua graça que temos de acolher. Salva-nos a graça. A salvação
é pura graça, pura gratuidade. Disse-o claramente Jesus no Evangelho: o que nos
torna justos não é a justiça que praticamos diante dos homens, mas a relação
sincera com o Pai. O início do regresso a Deus é reconhecermo-nos necessitados
d’Ele, necessitados de misericórdia, necessitados da sua graça. O caminho certo
é este: o caminho da humildade. Como me sinto eu: necessitado ou
autossuficiente?
Hoje inclinamos a cabeça para receber as cinzas. No
termo da Quaresma, abaixar-nos-emos ainda mais para lavar os pés dos irmãos. A
Quaresma é uma descida humilde dentro de nós e rumo aos outros. É compreender
que a salvação não é uma escalada para a glória, mas um abaixamento por amor. É
fazer-nos humildes. Neste caminho, para não perder o rumo, coloquemo-nos diante
da cruz de Jesus: é a cátedra silenciosa de Deus. Contemplemos cada dia as suas
chagas, as chagas que Ele levou para o Céu e todos os dias, na sua oração de
intercessão, faz ver ao Pai. Contemplemos cada dia as suas chagas. Naqueles
buracos, reconheçamos o nosso vazio, as nossas faltas, as feridas do pecado, os
golpes que nos fizeram sofrer. E contudo, mesmo ali, vemos que Deus não aponta
o dedo contra nós, mas abre-nos os braços. As suas chagas estão abertas para
nós e, por aquelas chagas, fomos curados (cf. 1 Ped 2,
24; Is 53, 5). Beijemo-las e compreenderemos que precisamente
lá, nos buracos mais dolorosos da vida, Deus nos espera com a sua infinita
misericórdia. Porque ali, onde somos mais vulneráveis, onde mais nos
envergonhamos, Ele veio ao nosso encontro. E agora que veio ter connosco,
convida-nos a regressar a Ele, para voltarmos a encontrar a alegria de ser
amados.
Texto: Retirado do Site do Vaticano em 21.02.2021- http://www.vatican.va/
Imagem:Retira da "Google imagens" em 21.02.2021.
domingo, 7 de fevereiro de 2021
No Horizonte da quotidianidade inspiradora
“Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André” (Mc 1,29)
Neste tempo litúrgico
conhecido como “Tempo Comum”, nos convém ter referências que nos ajudem a
caminhar sem cair na rotina ou na monotonia. O Evangelho deste domingo nos
oferece um texto inspirador que sintetiza o modo com que Jesus organizava sua
jornada ou dividia o tempo de sua vida pública.
É significativo o fato de que
Ele se instale em Cafarnaum, cidade fronteiriça com os povos pagãos, tanto com
Tiro e Sidon, como com as cidades da Decápolis. Com isso, Jesus revela que sua
missão é universal, e isso será demonstrado em sua incursão pelas terras do
Norte ou fazendo travessia para a outra margem do lago, para o leste; por ambas
direções adentrava-se em territórios pagãos.
Embora sua presença pública se
dê numa cidade comercial e de tanto movimento de pessoas, o início do evangelho
de Marcos indica quatro espaços diferentes no quais Jesus se
move; cada um deles se converte em ensinamento e inspiração para todos nós.
Pela manhã, vai à sinagoga; ao
meio dia, à casa de Simão; ao entardecer atende os enfermos
na rua,
e na madrugada, de forma sigilosa, se retira a um lugar solitário para
orar.
A oração comunitária, a
relação doméstica e familiar, a missão evangelizadora e a oração íntima e
pessoal com o Pai se conjugam de modo pleno, para nos indicar como deveria ser
nossa jornada, quanto à harmonia e ao exercício das relações essenciais: o
trato com nosso Deus Pai, a vida social e laboral solidária, a vida de oração e
familiar, e a relação interior. Viver a quotidianidade inspiradora: isso faz a
diferença.
Quem sabe, poderíamos nos
inspirar no modo de viver diário do Senhor, que deverá ser sempre um referente
para o nosso próprio estilo de vida. Do equilíbrio que mantenhamos nas
diferentes dimensões dependem o crescimento pessoal, a maturação espiritual e a
estabilidade na opção de vida cristã.
Um traço característico de
nossa sociedade é o individualismo, o isolamento narcisista que nos centra e
nos concentra em nosso eu como lugar referencial de atenção,
dedicação, cuidado e investimento de quase todas as nossas energias
disponíveis. Temos a sensação de que tudo, a partir de fora, convida a viver
fechados e surdos às vozes que vem do nosso eu mais profundo. Muitas demandas
externas nos impulsionam a reduzir nossa vida ao tamanho de um “bonsai”, a
atrofiar nossos desejos mais nobres até reduzi-los aos pequenos bens acessíveis
e a conformar-nos com pequenas doses de prazer egoísta.
Ao nos convidar para
percorrer, junto ao Mestre, numa de suas estadias em Cafarnaum, o evangelista
Marcos nos apresenta uma cena na qual vemos, como num relance, tudo o que vai
ser a existência de Jesus: Ele se dirige à casa de Simão e André; ali
encontrava-se acamada a sogra de Pedro.
Uma mulher anônima, que só a
conhecemos quando referida a seu genro e possuída pela febre, foi introduzida
na festa comunitária do serviço fraterno pela mão libertadora de Jesus.
É o primeiro relato de cura em
que o Mestre vai ao encontro de uma enferma. Jesus ouve a conversa dos
discípulos sobre a doença da sogra de Pedro, toma a iniciativa, vai até a
mulher doente e a toma pela mão. Ao tomá-la pela mão, compartilha a sua força.
E assim, revigorada pela sua força, a febre a deixa, ela consegue se levantar e
se põe a servir.
Assim soam e ressoam em nosso
interior as palavras do evangelista Marcos: “Jesus se aproximou, tomou-a pela mão e a ajudou a
levantar-se”. Gestos cheios de carinho, de compaixão, de
autoridade interior. Tudo o que faltava à religião oficial, é revelado agora
por este galileu diferente, desafiador, que não age movido por leis frias, mas
por um coração e uma mente integrados, em sintonia com o Pai.
Vale destacar uma constante no
evangelho de Marcos: a casa como lugar preferencial da ação de Jesus e
da missão dos seus discípulos. Certamente Jesus ensinava nas sinagogas, mas ali
sempre encontrava a resistência e o fechamento daqueles que faziam da Lei o
centro da vida; por isso, Jesus, como um inspirado mestre, revela um “novo
ensinamento”, não em lugares fechados e controlados, mas em espaços abertos,
nos campos, à beira do lago de Genezaré, indo pelos caminhos...; Jesus se
dirige aos lugares onde homens e mulheres realizam suas atividades comuns, no
simples ambiente do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando
pela sua própria, em Cafarnaum, onde fora residir.
Jesus, como itinerante, dá
início a um “movimento de casas”. É que a casa acaba sendo
o espaço alternativo que melhor corresponde à atuação do Mestre, enquanto ponto
de partida e de chegada de sua missão itinerante. É a partir das casas que
Jesus exerce, à margem do que está estabelecido, sua autoridade em favor da
vida, sem depender de instituições e funções previamente normatizadas.
Assim, através de uma rede
eficiente, ampliada e centrada no Mestre e com funções complementárias, seus
seguidores, a partir das casas, prolongam o ministério de Jesus: “viver em
saída”, deslocar-se em direção aos excluídos, revelar a presença do Pai na
simplicidade do cotidiano das pessoas, etc. Neste sentido, a casa cumpre
uma função vital para a expansão da causa do Reino de Deus. Em outras palavras,
a causa de Jesus (Reino) encontra nas casas seu lugar natural.
É fácil concluir que esta rede
de seguidores nas casas acabe se organizando de uma forma concêntrica, ao mesmo
tempo que horizontal, favorecendo de modo definitivo e natural o avanço do
Reino; tal organização se diferencia das estruturas piramidais e hierárquicas,
próprias de toda e qualquer instituição, com os riscos de esclerose que lhe são
inerentes. Aqui, revela-se sumamente estimulante resituar a continuidade da
causa de Jesus de Nazaré nos ambientes fraternos e igualitários, onde a casa se
revela como espaço próprio da simplicidade e da quotidianidade.
Trata-se, pois, de uma
alternativa urgente, frente à persistência petrificada de conservar formas e
estruturas anacrônicas que, em função do poder, continuam a predominar em
nossos ambientes cristãos, apesar dos apelos insistentes do próprio evangelho.
O Evangelho de Jesus é
experiência de casa, de comunhão e palavra para todos, lugar aberto à novidade
do Reino. A primitiva comunidade dos seguidores de Jesus não começou formando
uma nova religião instituída, nem se preocupou com construções de templos ou
com organizações hierarquizadas; ela se apresentou como uma federação de casas
abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e
de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do
Espírito do mesmo Jesus.
Ser seguidor(a) é ser
chamado(a) a viver no seu dia-a-dia esta mística do amor da
maneira como Jesus viveu (na família, no trabalho, no descanso, na luta em
favor da vida, nos compromissos sociais...).
O cotidiano é
o meio no
qual o amor toma
densidade e se expressa preferentemente; ele é o lugar privilegiado
da vivência da espiritualidade do seguimento, deixando-nos conduzir pelo mesmo
Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama da vida humana e a
dignificá-la.
Falamos de uma quotidianidade humana,
isto é, daquelas atividades de nossa vida diária que, embora irrelevantes em
sua aparência, tem uma razão de ser, uma motivação que
não se reduz à mera casualidade ou a um impulso instintivo de repetição ou
automatismo.
Sabemos que o cotidiano revela
um perigo que é a rotina, essa sensação de fazer tudo
mecanicamente, inclusive a vivência da fé, e de perder com isso o ardor
do novo ou
o impacto do extraordinário.
O amor é
precisamente o lubrificante que dá sentido à nossa vida cotidiana e
nos faz superar as dificuldades inerentes à mesma; o descentramento de nós
mesmos, a busca da verdade e do bem comum, a ação comprometida com a vida dos
outros... se tornam “normais” quando cultivamos o amor.
Texto
bíblico: Mc
1,29-39
Na
oração: O Espírito nos faz
abrir os olhos às realidades novas em nossa vida cotidiana; mas
nossos olhos somente se abrirão se formos fiéis à voz do Espírito nos
simples atos de nossa vida cotidiana.
- suas atividades diárias
fazem parte do seu caminho para Deus? Você tem consciência que cada dia é
um “tempo
de graça”? Você “apalpa” a presença de
Deus nas “rotinas
diárias”?
Pe.
Adroaldo Palaoro sj
04.02.2021
Texto - Retirado do site - "CATEQUESEHoje
- www.catequesehoje.org.br ", em 07.02.2021 - Um site de Catequese do Brasil, com muita qualidade!
sábado, 6 de fevereiro de 2021
Deixa-te olhar por Jesus
“Jesus tinha entrado em Jericó, e estava atravessando a cidade. Havia aí um homem chamado Zaqueu: era chefe dos cobradores de impostos, e muito rico. Zaqueu desejava ver quem era Jesus, mas não o conseguia, por causa da multidão, pois ele era muito baixo. Então correu na frente, e subiu numa figueira para ver, pois Jesus devia passar por aí. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima, e disse: «Desce depressa, Zaqueu, porque hoje preciso ficar em tua casa.» Ele desceu rapidamente, e recebeu Jesus com alegria. Vendo isso, todos começaram a criticar, dizendo: «Ele foi se hospedar na casa de um pecador!»
Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: «A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais.» Jesus lhe disse: «Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. De fato, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.» “ Lc 19, 1-10
VISITA PASTORAL DO
PAPA FRANCISCO A ALBANO
CELEBRAÇÃO
EUCARÍSTICA HOMILIA DO SANTO PADRE
“O episódio que ouvimos passa-se
em Jericó, a famosa cidade destruída no tempo de Josué que, segundo a Bíblia,
já não se deveria reconstruir (cf. Gs 6): deveria ser “a cidade esquecida”. Mas
Jesus, diz o Evangelho, «entra e atravessa» Jericó (cf. Lc 19, 1). E nessa
cidade, que está abaixo do nível do mar, Ele não tem medo de atingir o nível
mais baixo, representado por Zaqueu. Ele era um publicano, aliás, o «chefe dos
publicanos», isto é, daqueles judeus odiados pelo povo, que cobravam os impostos
para o Império romano. Era «rico» (v. 2) e é fácil intuir como se tornou assim:
em detrimento dos seus concidadãos, explorando os seus compatriotas. Aos olhos
do povo Zaqueu era o pior, o insalvável. Mas não aos olhos de Jesus, que o
chama pelo nome, precisamente a ele, Zaqueu, que significa “Deus recorda-se”.
Na cidade esquecida, Deus lembra-se do maior pecador.
Em primeiro lugar, o Senhor
recorda-se de nós. Não se esquece de nós, não nos perde de vista, apesar dos
obstáculos que nos podem afastar d’Ele. Obstáculos que não faltaram no caso de
Zaqueu: a sua baixa estatura física e moral, mas também a sua vergonha, motivo
pelo qual procurava ver Jesus, escondido entre os ramos da árvore,
provavelmente esperando não ser visto. E depois as críticas externas: na
cidade, por causa daquele encontro, «todos murmuravam» (v. 7) — mas acho que em
Albano é a mesma coisa: murmura-se... Limites, pecados, vergonha, tagarelices e
preconceitos: nenhum obstáculo leva Jesus a esquecer o essencial, que é o homem
a amar e salvar.
O que nos diz este Evangelho no aniversário da
vossa Catedral? Que cada igreja, que a Igreja com letra maiúscula, existe para
manter viva no coração dos homens a recordação de que Deus os ama. Existe para
dizer a cada um, até ao mais distante: “Tu és amado e és chamado pelo nome por
Jesus; Deus não se esquece de ti, és querido por Ele”. Estimados irmãos e
irmãs, como Jesus, não tenhais medo de “atravessar” a vossa cidade, de ir ao
encontro dos mais esquecidos, daqueles que estão escondidos atrás dos ramos da
vergonha, do medo, da solidão, para lhes dizer: “Deus lembra-se de ti”!
Gostaria de destacar uma segunda
ação de Jesus. Além de se recordar, de reconhecer Zaqueu, Ele antecipa. Vemo-lo
no jogo de olhares com Zaqueu. Ele «procurava ver quem era Jesus» (v. 3). É
interessante que Zaqueu não procurava apenas ver Jesus, mas ver quem era Jesus:
ou seja, entender que tipo de mestre Ele era, qual era o seu traço distintivo.
E não o descobre quando olha para Jesus, mas quando é olhado por Jesus. Pois enquanto
Zaqueu procura vê-lo, Jesus vê-o primeiro; antes que Zaqueu fale, Jesus fala
com ele; antes de convidar Jesus, Jesus vai à sua casa. Eis quem é Jesus:
aquele que nos vê primeiro, aquele que nos ama primeiro, aquele que nos acolhe
primeiro. Quando descobrimos que o seu amor nos antecipa, que nos alcança antes
de tudo, a vida muda. Querido irmão, querida irmã, se como Zaqueu tu procuras
um sentido para a vida, e quando não o encontras, abandonas-te a “substitutos
do amor”, como as riquezas, a carreira, o prazer, alguma dependência, deixa-te
olhar por Jesus. Só com Jesus descobrirás que és sempre amado e farás a
descoberta da vida. Sentir-te-ás intimamente tocado pela ternura invencível de
Deus, que comove e move o coração. Assim foi para Zaqueu e assim é para cada um
de nós, quando descobrimos o “primeiro” de Jesus: Jesus que nos antecipa, que
nos olha primeiro, que nos fala primeiro, que nos espera primeiro.
Como Igreja, perguntemo-nos se
Jesus vem ao nosso encontro primeiro: em primeiro lugar está Ele ou a nossa
agenda, Ele ou as nossas estruturas? Qualquer conversão deriva de uma
antecipação da misericórdia, nasce da ternura de Deus que arrebata o coração.
Se tudo o que fizermos não tiver início no olhar de misericórdia de Jesus,
corremos o risco de mundanizar a fé, de a complicar, de a encher de contornos:
questões culturais, visões eficientistas, opções políticas, escolhas
partidárias... Mas esquecemos o essencial, a simplicidade da fé, o que vem
antes de tudo: o encontro vivo com a misericórdia de Deus. Se isto não estiver
no centro, se não estiver no início e no fim de todas as nossas atividades,
corremos o risco de manter Deus “fora de casa”, isto é, na Igreja, que é a sua
casa, mas sem nós. O convite de hoje é: deixa-te “misericordiar” por Deus! Ele vem
com a sua misericórdia.
Para conservar o “primeiro” de Deus, Zaqueu
serve-nos de exemplo. Jesus vê-o primeiro porque ele subiu a um sicómoro. Foi
um gesto que exigiu coragem, impulso, fantasia: não se veem muitos adultos a
subir às árvores; são os jovens que o fazem, é algo que fazemos quando somos
crianças, todos nós o fizemos. Zaqueu venceu a vergonha e, num certo sentido,
voltou a ser uma criança. É importante que voltemos a ser simples, abertos.
Para conservar o “primeiro” de Deus, ou seja, a sua misericórdia, não devemos
ser cristãos complicados, que elaboram mil teorias e se dispersam em busca de
respostas na rede, mas devemos ser como as crianças. Elas precisam dos pais e
dos amigos: também nós precisamos de Deus e dos outros. Não somos autossuficientes,
devemos desmascarar a nossa autossuficiência, superar os nossos fechamentos,
voltar a ser pequeninos dentro, simples e entusiastas, cheios de impulso para
Deus e de amor ao próximo.
Gostaria de destacar uma última ação de Jesus,
que nos faz sentir em casa. Ele diz a Zaqueu: «Hoje tenho de ficar em tua casa»
(v. 5). Em tua casa. Zaqueu, que se sentia forasteiro na sua cidade, volta para
casa como uma pessoa amada. E, amado por Jesus, redescobre os seus vizinhos e
diz: «Vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em
qualquer coisa — e este homem tinha roubado muito — vou restituir-lhe quatro
vezes mais» (v. 8). A Lei de Moisés exigia que se restituísse, acrescentando um
quinto (cf. Lv 5, 24); Zaqueu dá quatro vezes mais: vai muito além da Lei,
porque encontrou o amor. Sentindo-se em casa, abriu a porta ao próximo.
Como seria bom se os nossos vizinhos e
conhecidos sentissem a Igreja como a sua casa! Infelizmente, acontece que para
muitas pessoas as nossas comunidades se tornam alheias e pouco atraentes. Às
vezes, também nós somos tentados a criar círculos fechados, lugares íntimos
entre os escolhidos. Sentimo-nos eleitos, sentimo-nos elite... Mas há muitos
irmãos e irmãs que têm saudades de casa, que não têm a coragem de se aproximar,
talvez porque não se sentiram acolhidos; talvez porque encontraram um padre que
os tratou mal ou que os mandou embora, ou quis que pagassem os sacramentos —
isto é mau! — e afastavam-se. O Senhor deseja que a sua Igreja seja uma casa
entre as casas, uma tenda hospitaleira onde cada homem, peregrino da
existência, se encontre com Ele, que veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14).
Irmãos e irmãs, que a Igreja seja um lugar
onde os outros nunca sejam vistos de cima para baixo mas, como Jesus com
Zaqueu, de baixo para cima. Recordai-vos que o único momento em que é lícito
fitar uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se, caso
contrário, não é lícito. Só naquele momento: fitá-la assim, porque ela caiu.
Nunca olhemos para as pessoas como juízes, mas sempre como irmãos. Não sejamos
inspetores da vida dos outros, mas promotores do bem de todos. E para sermos
promotores do bem de todos, há algo que ajuda muito a manter a língua firme:
não falar mal do próximo! Mas às vezes, quando falo destas coisas, ouço as
pessoas dizerem: “Padre, olha, é algo mau, mas vem-me, porque vejo algo e tenho
vontade de criticar”. Sugiro um bom remédio para isto — além da oração — um
remédio eficaz é: morde a língua! Ela vai inchar na tua boca e não conseguirás
falar!
«O Filho do Homem — conclui o Evangelho — veio
procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19, 10). Se evitarmos aqueles que
nos parecem perdidos, não pertencemos a Jesus. Peçamos a graça de ir ao
encontro de cada um como irmão e de não ver ninguém como inimigo. E se formos
feridos, retribuamos com o bem. Os discípulos de Jesus não são escravos dos
males passados mas, perdoados por Deus, agem como Zaqueu: pensam unicamente no
bem que podem praticar. Demos de graça, amemos os pobres e quantos não têm como
nos retribuir: seremos ricos aos olhos de Deus!
Estimados irmãos e irmãs, desejo
que a vossa Catedral, como todas as igrejas, seja o lugar onde cada um de vós
se sinta recordado pelo Senhor, antecipado pela sua misericórdia e recebido em
casa. De tal maneira que na Igreja possa verificar-se a coisa mais bonita:
alegrar-se porque a salvação entrou na vida (cf. v. 9).
Assim seja!
Praça Pia, Albano Domingo, 21 de
Setembro 2019”
Texto: Retirado do site Vaticano em 06.02.2021
Imagem: Blog Catequese Missionária


