quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
As três etapas da conversão de Santo Agostinho
O caminho de conversão de Agostinho prosseguiu
humildemente até o fim da sua vida. Podemos dizer que as diversas etapas desse
processo são divididas facilmente em três.
Ainda hoje é possível percorrer a
vicissitude de Santo Agostinho graças sobretudo às Confissões, escritas
para louvor de Deus e que estão na origem de uma das formas literárias mais
específicas do Ocidente, a autobiografia, isto é, a expressão pessoal da consciência
de si. Pois bem, quem quer que tome conhecimento deste livro extraordinário e
fascinante, ainda hoje muito lido, apercebe-se facilmente do modo como a
conversão de Agostinho não tinha sido improvisada nem plenamente realizada
desde o início, mas possa antes ser definida um verdadeiro caminho, que
permanece um modelo para cada um de nós.
Este itinerário teve certamente o seu
ápice com a conversão e depois com o batismo, mas não se concluiu naquela
Vigília pascal do ano 387, quando em Milão o retórico africano foi batizado
pelo Bispo Ambrósio. De fato, o caminho de conversão de Agostinho prosseguiu
humildemente até o fim da sua vida, a ponto que se pode verdadeiramente dizer
que as suas diversas etapas podem-se distinguir facilmente em três. Essas são
uma única grande conversão.
Primeira etapa [jejum]
Santo Agostinho foi um pesquisador
apaixonado pela verdade: foi-o desde o início e depois em toda a sua vida. A
primeira etapa do seu caminho de conversão realizou-se precisamente na
progressiva aproximação ao cristianismo. Na realidade, ele tinha recebido da
mãe Mônica, à qual permaneceu sempre muito ligado, uma educação cristã e,
apesar de ter vivido durante os anos juvenis uma vida desregrada, sentiu sempre
uma atração profunda por Cristo, tendo bebido o amor pelo nome do Senhor com o
leite materno, como ele mesmo ressalta (cf. Confessiones, III, 4, 8).
Mas também a filosofia, sobretudo de
índole platônica, tinha contribuído para o aproximar ulteriormente a Cristo
manifestando-lhe a existência do Logos, a razão criadora. Os livros dos
filósofos indicavam-lhe que há a razão, da qual vem depois todo o mundo, mas
não lhe diziam como alcançar este Logos, que parecia tão distante. Só a
leitura do epistolário de São Paulo, na fé da Igreja católica, lhe revelou
plenamente a verdade. Esta experiência foi sintetizada por Agostinho numa das
páginas mais famosas das Confessiones: ele narra que, no tormento das
suas reflexões, tendo-se retirado num jardim, ouviu improvisamente uma voz
infantil que repetia uma cantilena que nunca tinha ouvido: tolle, lege,
tolle, lege, “toma, lê, toma, lê” (VIII, 12, 29).
Recordou-se então da conversão de
Antônio, pai do monarquismo, e com solicitude voltou ao código paulino que até
há pouco tinha nas mãos, abriu-o e o seu olhar caiu na passagem da epístola aos
Romanos onde o Apóstolo exorta a abandonar as obras da carne e a revestir-se de
Cristo (13, 13-14). Tinha compreendido que aquela palavra naquele momento se
dirigia pessoalmente a ele, vinha de Deus através do Apóstolo e indicava-lhe o que
fazer naquele momento. Sentiu assim dissipar-se as trevas da dúvida e
encontrou-se enfim livre de se doar totalmente a Cristo: “Tinhas convertido a
ti o meu ser”, comenta ele (Confessiones, VIII, 12, 30). Foi esta a
primeira e decisiva conversão.
Segunda etapa [esmola]
O retórico africano chegou a esta etapa
fundamental do seu longo caminho graças à sua paixão pelo homem e pela verdade,
paixão que o levou a procurar Deus, grande e inacessível. A fé em Cristo
fez-lhe compreender que Deus, aparentemente tão distante, na realidade não o
era. Ele, de fato, tinha-se feito próximo de nós, tornando-se um de nós. Neste
sentido a fé em Cristo levou a cumprimento a longa pesquisa de Agostinho sobre
o caminho da verdade. Só um Deus que se fez “próximo”, um de nós, era finalmente
um Deus ao qual se podia rezar, pelo qual e com o qual se podia viver. Este é
um caminho a percorrer com coragem e ao mesmo tempo com humildade, na abertura
a uma purificação permanente da qual cada um de nós tem sempre necessidade.
Mas com aquela Vigília pascal de 387,
como dissemos, o caminho de Agostinho não estava concluído. Tendo regressado à
África e fundado um pequeno mosteiro retirou-se aí com poucos amigos para se
dedicar à vida contemplativa e de estudo. Este era o sonho da sua vida. Agora era
chamado a viver totalmente pela verdade, com a verdade, na amizade de Cristo
que é a verdade. Um sonho agradável que durou três anos, até quando foi
consagrado sacerdote, a seu mau grado, em Hipona e destinado a servir os fiéis,
continuando a viver com Cristo e por Cristo, mas ao serviço de todos. Isto era
para ele muito difícil, mas compreendeu desde o início que só vivendo para os
outros, e não simplesmente para a sua contemplação particular, podia realmente
viver com Cristo e por Cristo.
Assim, renunciando a uma vida apenas de
meditação, Agostinho aprendeu, muitas vezes com dificuldade, a pôr à disposição
o fruto da sua inteligência em benefício do próximo. Aprendeu a comunicar a sua
fé ao povo simples e a viver assim para ela naquela que se tornou a sua cidade,
desempenhando incansavelmente uma atividade generosa e difícil que descreve do
seguinte modo num dos seus belos sermões: “Continuamente pregar, discutir,
repreender, edificar, estar à disposição de todos é uma grande tarefa, um
grande peso, uma enorme fadiga” (Serm. 339, 4). Mas ele assumiu sobre si
este peso, compreendendo que precisamente assim podia estar mais próximo de
Cristo. Compreender que se chega aos outros com simplicidade e humildade, foi
esta a sua verdadeira e segunda conversão.
Terceira etapa [oração]
Mas há uma última etapa do caminho
agostiniano, uma terceira conversão: a que o levou todos os dias da sua vida a
pedir perdão a Deus. Inicialmente tinha pensado que quando fosse batizado, na
vida de comunhão com Cristo, nos Sacramentos, na celebração da Eucaristia,
teria alcançado a vida proposta pelo Sermão da montanha: a perfeição doada no
batismo e reconfirmada na Eucaristia. Na última parte da sua vida compreendeu
que o que tinha dito nas suas primeiras pregações sobre o Sermão da montanha isto
é, que agora nós como cristãos vivemos este ideal permanentemente era errado.
Só Cristo realiza verdadeira e completamente o Sermão da montanha.
Nós temos sempre necessidade de ser
lavados por Cristo, que nos lava os pés, e por Ele renovados. Temos necessidade
de uma conversão permanente. Até o fim temos necessidade desta humildade que
reconhece que somos pecadores a caminho, enquanto o Senhor nos dá a mão
definitivamente e nos introduz na vida eterna. Agostinho faleceu com esta
última atitude de humildade, vivida dia após dia.
Esta atitude de humildade profunda
diante do único Senhor Jesus introduziu-o na experiência de humildade também
intelectual. De fato, Agostinho, que é uma das maiores figuras na história do
pensamento, quis nos últimos anos da sua vida submeter a um lúcido exame
crítico as suas numerosas obras. Tiveram assim origem as Retractationes
(“revisões”), que deste modo inserem o seu pensamento teológico,
verdadeiramente grande, na fé humilde e santa daquela a que chama simplesmente
com o nome de Catholica, isto é, da Igreja.
“Compreendi escrever precisamente neste
livro muito original (I, 19, 1-3) que um só é verdadeiramente perfeito e que as
palavras do Sermão da montanha estão totalmente realizadas num só: no próprio
Jesus Cristo. Toda a Igreja, ao contrário todos nós, inclusive os apóstolos
devemos rezar todos os dias: perdoai-nos os nossos pecados assim como nós os
perdoamos a quem nos tem ofendido”.
Convertido a Cristo
Convertido a Cristo, que é verdade e
amor, Agostinho seguiu-o toda a vida e tornou-se um modelo para cada ser
humano, para nós todos em busca de Deus. “Por isto quis concluir a minha
peregrinação a Pavia recomendando idealmente à Igreja e ao mundo, diante do
túmulo deste grande apaixonado de Deus, a minha primeira Encíclica, intitulada
Deus Caritas Est”, afiram Bento XVI.
De fato, ela deve muito, sobretudo na
sua primeira parte, ao pensamento de Santo Agostinho. Também hoje, como no seu
tempo, a humanidade precisa conhecer e sobretudo viver esta realidade
fundamental: Deus é amor e o encontro com ele é a única resposta às
inquietações do coração humano. Um coração habitado pela esperança, talvez
ainda obscura e inconsciente em muitos dos nossos contemporâneos, mas que para
nós cristãos abre já hoje ao futuro, a ponto que São Paulo escreveu que “na
esperança somos salvos” (Rm 8, 24). “Quis dedicar à esperança a minha
segunda Encíclica, Spe Salvi ,
e também ela é amplamente devedora a Agostinho e ao seu encontro com Deus”,
afirma Bento XVI.
Num bonito texto Santo Agostinho define
a oração como expressão do desejo e afirma que Deus responde alargando a Ele o
nosso coração. Por nosso lado, devemos purificar os nossos desejos e as nossas
esperanças para acolher a doçura de Deus (cf. In I Ioannis, 4, 6). De
facto, só ela, abrindo-nos também aos outros, nos salva. Rezemos portanto para
que na nossa vida nos seja concedido todos os dias seguir o exemplo deste
grande convertido, encontrando como ele em cada momento da nossa vida o Senhor
Jesus, o único que nos salva, purifica e concede a verdadeira alegria, a
verdadeira vida.
Texto: Retirado do Site comshalom, https://www.comshalom.org , em 26.02.2020;
Imagem: Retirada da google imagens
[ no contexto quaresmal]-acrescentado pelo blog catequese missionária
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Justiça do Reino: "a mais sublime bondade"
“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da
Lei e dos fariseus...” (Mt 5,20)
Na
Bíblia, a justiça é um dos conceitos centrais, com uma diversidade de sentidos
e, por isso mesmo, difícil de ser definido. Em todo caso, trata-se de um
conceito que inclui “relação”. Nas “antíteses” – “ouvistes o que foi dito...,
eu, porém, vos digo” – do Sermão da Montanha, somos colocados diante de cinco
casos concretos que tem a ver com a vida relacional e comunitária: a
reconciliação, o olhar puro que não se apossa de outra pessoa, a veracidade e
transparência no falar, a não violência (ou mansidão bíblica) e o amor gratuito
que inclui o “inimigo”. Em todos eles, podemos crescer sempre mais, graças à
compreensão de quem somos no nível mais profundo; o “eu, porém, vos digo” de
Jesus nos inspira a descer até às raízes de nosso ser, esvaziando-nos progressivamente
de nosso ego e ativando todos os recursos humanizadores aí presentes.
Na
perspectiva bíblica, “justo” é aquele que, perante Deus e os homens, se
“ajusta” ao modo de agir do mesmo Deus, vivendo e agindo com a marca da
bondade. Visto que justiça designa o comportamento do ser humano em
conformidade com a Vontade de Deus, pode-se falar de “praticar a justiça”; ou
de “cumprir toda a justiça”. Portanto, a expressão “justiça de Deus” não tem
nenhuma relação com o julgamento de Deus; ela é, antes de tudo, misericórdia e
fidelidade a uma vontade de salvação. O conceito descreve uma maneira de ser ou
de agir de Deus. Deus é justo porque é bondade e misericórdia. Por isso, também
do lado humano a justiça deve significar uma maneira de prolongar o ser e o agir
de Deus.
O
problema da relação entre misericórdia e justiça está em considerar como rivais
ou como incompatíveis esses dois atributos de Deus. É preciso afirmar os dois
ao mesmo tempo e procurar compreender como ambos estão em Deus, sem que um
anule o outro, mas reforçando-se mutuamente. Poderíamos formular assim: Deus é
justo em sua misericórdia e misericordioso em sua justiça. Segundo o Papa
Francisco, “a misericórdia não exclui a justiça e a verdade, mas, antes de
tudo, temos que dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a
manifestação mais luminosa da verdade de Deus”.
Já
no Primeiro Testamento encontramos afirmações deste tipo: a justiça de Deus é
sua misericórdia. A justiça de Deus coincide com sua misericórdia, sua bondade,
sua santidade. São Paulo, em sua carta aos romanos, afirma que a justiça de
Deus se manifesta na justificação do pecador, de modo que o Deus justo é
justificador. Podemos concluir, pois, que Deus é justo porque quer que todos se
salvem. É de esperar, portanto, que esta vontade de Deus se cumpra. É claro
que, diante do dom da salvação intervém a liberdade humana, porque salvação é
acolhida do Deus que é Amor, e não há amor sem recíproca acolhida.
Jesus
veio expandir o horizonte do comportamento humano; veio nos libertar dos
perigos do moralismo e do legalismo. À luz da justiça de Deus (“força que
salva”), Jesus nos apresenta um modo de proceder mais radical, relendo os
mandamentos.
A
justiça de Deus não é poder que se impõe, mas amor aberto e libertador, a
partir dos últimos e dos excluídos da humanidade. A liberdade criadora de Deus,
que é amor aos pobres, se torna princípio de justiça, pois o evangelho chama
“justos” precisamente aqueles que acolhem os exilados, visitam os encarcerados,
dá pão a quem tem fome..., ou seja, àqueles que colocam suas vidas a serviço
dos excluídos e vítimas das instituições sociais e econômicas injustas.
O
único fundamento de qualquer justiça é Cristo. N’Ele nós nos tornamos justiça
de Deus (2Cor 5,21). A partir desta perspectiva, podemos entender o que Jesus
fez em seu tempo com a Lei de Moisés. Disse que não vinha abolir a lei, mas
plenificá-la, porque foi acusado pelas autoridades religiosas de ser um
transgressor das leis. Jesus não foi contra a Lei, senão que foi mais além da
Lei. Quis dizer que toda lei é sempre limitada, que sempre podemos ir mais além
da letra da lei, da pura formulação, até descobrir o espírito que a inspira. A
vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso, não podemos
nos limitar ao que está escrito, mas precisamos sempre dar um passo a mais. Na
vivência do amor, que emana do nosso eu mais profundo, devemos ser sempre mais
radicais, não cedendo diante da mínima manifestação do nosso autocentramento.
Na realidade, quem ama, não precisa de leis. Segundo S. Paulo, “quem ama,
cumpre toda lei”.
Jesus
passou de um cumprimento externo de leis a uma descoberta das exigências de seu
próprio ser. Esta revolução que Ele iniciou, ainda está por ser realizada.
Avançamos muito pouco nessa direção. Todas as indicações do evangelho no
sentido de viver no espírito e não na letra, parece que estão sendo ignoradas.
Caímos facilmente no legalismo, no farisaísmo que se perde em meio a um
emaranhado de leis, desviando-se do essencial, que é a vivência do amor
oblativo, gratuito, expansivo...
“Ouvistes
o que foi dito: não matarás, não cometerás adultério, não jurarás falso; eu,
porém, vos digo...” Não fica abolido o mandamento antigo, mas elevado a níveis
incrivelmente mais profundos. Jesus nos revela que uma atitude interna negativa
é já uma falha contra nosso próprio ser, ainda que não se manifeste numa ação
concreta contra o outro. Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que
ordena “não matarás”. É necessário, além disso, arrancar de nossa vida a
agressividade, o desprezo ao outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não
mata cumpre a Lei, mas, se em seu coração há resquícios de violências, ali não
reina o Deus que busca construir conosco uma vida mais humana.
Estamos
percebendo que está se estendendo cada vez mais, na sociedade atual, uma
linguagem que reflete o crescimento da agressividade, do preconceito, da
intolerância, do fechamento diante de quem pensa e sente de maneira
diferente... Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos só para
humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascida da rejeição, do ressentimento, do
ódio ou da vingança... Por outra parte, as conversações (sobretudo nas redes
sociais) estão tecidas de palavras injustas que espalham condenações e semeiam
suspeitas (fake-news). Palavras ditas sem amor e sem respeito que envenenam a
convivência, causam danos e rompem as relações entre as pessoas.
Portanto,
os mandamentos continuam tendo sentido. São um mapa de rota, uma proposta, um
chamado [chamamento] para entender a vida. A chave é compreendê-los e vivê-los,
não a partir do medo ao fracasso e ao castigo, mas a partir da disposição de
crescer humanamente na relação com os outros. Quê nos ensinam eles sobre o ser
humano, sobre as relações sociais e sobre nós mesmos? Quê caminho nos propõem
para a vida? Quê horizonte nos mostram?
É
necessário dirigir nosso olhar a Jesus para que, na comunidade cristã, a
instituição não seja mais importante que o Evangelho, nem que a Lei seja mais
importante que a misericórdia. O Plano de Deus e a fé cristã são muito mais que
uma adesão doutrinal, é humanizar-se para amar. “O cristianismo não é uma ética de
mínimos de justiça, mas uma religião de máximos de felicidade. Os mínimos de
justiça lhe parecem irrenunciáveis, mas tais mínimos não esgotam o conteúdo da
religião cristã. Suas propostas não competem com a ética cívica, senão que a
complementam. Enquanto que a universalidade dos mínimos de justiça é uma
universalidade exigível, a dos máximos de felicidade é uma universalidade
ofertável” (Adelia Cortina). A justiça do Evangelho, centrado
no amor, é um plus sobre a justiça humana, centrada na lei.
Texto bíblico: Mt 5,17-37
Na oração: O
empenho em favor da justiça não terá fim. Numa releitura da 4ª bem-aventurança
podemos afirmar:
“Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados”.
- Frente às pessoas que pensam e sentem de maneira diferente, o
que prevalece em você, o peso da lei ou a força da misericórdia?
- Como você vive o quinto mandamento -“não matar” - no
uso das redes sociais?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
Parte escrita - Retirada do site -
"CATEQUESEHoje - www.catequesehoje.org.br ", em 14.02.2020 - Um site com
brasileiro com muita qualidade!
Imagem- Retirada da "Google Imagens", em 14.02.2020
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
A Bíblia na minha experiência missionária
Detalhes
Transcrevemos a partilha da Ir. Joana Ribeiro na Semana
Bíblica Nacional, que se [realizou em Agosto de 2019], em Fátima.
«Antes de mais, quero agradecer o convite que me foi feito
para estar aqui. Aqui sinto-me sempre em casa pois os frades capuchinhos foram
e são companheiros de caminho, que me proporcionaram o privilégio de viver com
eles em missão. Guardo sempre o vosso testemunho como uma luz. Obrigada!
Peguei num poema de Daniel Faria, usei as suas palavras como
fio condutor, como fio de Ariadne, do que gostaria de partilhar convosco, pois
quem vive a missão com a intensidade com que ela me envolve, corre o risco de
permanecer a falar ininterruptamente. Procurei, assim, delimitar-me. Ele diz:
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se
Como nunca fora ouvida.
Só posso viver cabendo nela
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio. (...)
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar” (Daniel Faria)
“Há uma
palavra-pessoa”...
Fui enviada em missão para Laleia, interior de Timor-Leste,
onde cheguei no dia 1 de outubro de 2011. Vivi a loucura de me despedir do meu
trabalho, de deixar a minha casa, carro, a minha família e partir para o outro
lado do mundo, cerca de 15 mil quilómetros. Parti por um ano mas o chão
vermelho tornou-se a minha terra, aqueles rostos a minha família e fiquei a
pertencer-lhe para sempre. Timor é também a minha terra, a minha gente.
Quando cheguei a Timor tinha a mala cheia de sonhos, ideias,
projetos, expectativas e uma vontade imensa de dar, de dar, de dar-me! Mas Deus
tirou-me as palavras e deu-me o silêncio.
Sim... “Uma palavra
pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida.”
Em Laleia, fiquei sem palavras... sem palavras que me
permitissem comunicar. Poucas pessoas compreendiam português apenas tétum. É
como se as palavras que sempre usei perdessem a capacidade de apontar o
sentido, de possibilitar encontros e teria de abraçar palavras agora
incompreensíveis e distantes. Era tempo de escutar, de aprender, de calar.
E o meu livro de aprendizagem foi... imaginem só, o Novo
Testamento em tétum. Todas as semanas a Bíblia peregrinava de família em
família (aos domingos a família que tinha acolhido a Bíblia em sua casa
levava-a na procissão de entrada na Eucaristia dominical e outra família
recebia-a no final da Eucaristia). Às quintas feiras, os missionários (freis,
leigos, jovens em formação), juntamente com alguns paroquianos, fazíamos a
lectio divina na casa desta família. Eu aprendia as palavras do evangelho de
cada domingo e as minhas primeiras palavras foram Maromak (Deus) e Na’i
(Senhor) e ia treinando a escrever umas frases muito simples para poder
partilhar algo com as famílias. Ainda hoje tenho escrevinhado na minha bíblia
palavras em tétum que me recordam este caminho. “Imi mai haree” (Vinde e
vereis); “Ha´u mak ne´e” (Eis-me aqui Senhor).
Todos nós quando temos de aprender uma nova língua
experimentamos a frustração de não conseguir fazê-lo, as gargalhadas, a
partilha da fraqueza e das dificuldades. Permaneci e fui parte daquele chão
onde Jesus escrevia.
Muitos diziam que a Palavra de Deus traduzida para tétum
perdia muito da sua profundidade, dado ser uma língua com poucos conceitos mas,
para mim, a dar os primeiros passos na missão e a recomeçar, a simplicidade das
palavras aproximaram-me de Deus e permitiu-me balbuciar as minhas primeiras
palavras, imitando-O.
E depois fui notando que as palavras já não viviam presas num
livro, mas que as lia em tantas pessoas e situações que encontrava. E passagens
bíblicas que já sabia de cor, e às quais me fui tornando quase imune e
indiferente, voltaram a surpreender-me e a transformar-me. Quantas vezes
ouvimos a passagem do nascimento de Jesus, até ao ponto de se tornar banal, sem
comover ou mover. A mim isso aconteceu, até encontrar a avó Maria. Penso que
“Deus passeava maravilhado nas palavras dela, como um camponês pelo seu campo”
(Bobin, 72).
“Só posso viver cabendo
nela. Habito-a como Jonas o grande peixe.”
A avó Maria, ficou com a sua casa (palhota feita de paus de
palmeira) soterrada na chuva forte do dia anterior, e sozinha e sem família,
vieram chamar-nos para a ajudar. Ela teve 9 filhos mas, tal como seu marido,
morreram durante a guerra, durante a ocupação indonésia. Quando nós lá
chegamos, nem queríamos acreditar no que os nossos olhos viam. Uma velhinha
quase sem roupa, a tremer de frio, deitada num pano velho no chão de terra
batida de uma cozinha de um vizinho, rodeada de animais: cães, ovelhas, porcos
e galinhas, que enchiam aquele espaço de excrementos. A avó Maria, quando nos
aproximamos e nos apresentamos, abraçou-nos com um sorriso de orelha a orelha e
apercebemo-nos que estava quase cega. Ela: “tinha uma cara maravilhosamente
enrugada, semelhante à casca de uma árvore secular” (Bobin, 67). Desde o
primeiro momento, estávamos decididas a levá-la para a nossa casa e começamos a
conversar com ela para a convencer. Mas as suas palavras foram revelação e
desnudaram-nos completamente.
Dissemos-lhe em tétum: “Avó, não pode ficar aqui. Isto não
tem condições nenhumas para a avó viver. Não tem casa, nem comida, nem
agasalho.”
E ela respondeu-nos, com um sorriso calmo: “Nossa Senhora
também deu à luz a Jesus num sítio assim, não foi?!
Ficamos sem palavras. Depois continuamos: “Avó, não pode
ficar aqui sozinha. Venha connosco e depois vamos arranjar um sítio para a avó
viver.”
E ela, cheia de confiança disse: “Eu não estou sozinha. Deus
está sempre comigo. E mandou as irmãs para cuidar de mim, não foi?!
As lágrimas corriam pelo meu rosto ao escutar as suas palavras,
e vivi o evangelho do nascimento de Jesus ali, naquele pedaço de terra batida.
Ele já tinha nascido no coração, nas palavras e no sorriso desta nossa avó.
Depois de cuidar dela, levar-lhe um colchão, dar-lhe banho,
roupa e comida todos os dias, conseguimos que fosse almoçar connosco. Quando
entramos fomos à capela onde estávamos todos para rezar. Dissemos-lhe que
estávamos na capela e que podia fazer uma oração se quisesse.
Ela gritou assim: “Deus Pai, eu não tenho nada. Não tenho
casa, não tenho comida, não tenho ninguém. Senhor, eu estou cega, eu não vejo
nada. Senhor, que eu veja! Senhor, que eu veja!”. Todas nós permanecemos em
silêncio, com as lágrimas a escorrer pelo rosto e eu repetia no meu coração a
sua oração: “Senhor, que eu veja!”. Estas palavras eram carne e sangue, nesse
dialecto que só os pobres sabem, fazendo-os espaço e instrumentos de santidade:
“Eu te bendigo ó Pai...” (Lc 10, 21)
Após vários meses conseguimos que fosse viver com um primo
numa terra afastada dali, após ter feito a operação às cataratas e hoje vê e
está bem junto da sua família.
“Ela pronuncia-me,
traz-me em viagem do nada para o silêncio.”
Quantas vezes, as palavras deixam de ter a força de nos
surpreender e desinstalar, acolhidas na repetição do quotidiano, sem comoção. A
missão quebra essa indiferença pois as palavras encarnadas voltam a ter a força
da palavra semeada.
Na missão houve vários projetos a que me entreguei: a
abertura do jardim de infância de Laleia, a bênção de sentir os abraços dos
meninos e de os ouvir chamar, pois mesmo os leigos tratamo-nos como irmãos,
como o bom Pai São francisco: “irmã Joana”, nome que o Senhor designou e que
apontava já caminho novos; o colaborar na catequese, na preparação de
materiais, na preparação da liturgia, o centro social S. Francisco de Assis, a
biblioteca, a pastoral das pessoas portadoras de deficiência em toda a diocese
de Baucau; a rádio comunitária, sonhar, gravar e preparar os programas para
irem para o ar, e tantos outros que nasciam com as necessidades dos que nos
batiam à porta, e nós freis e leigos, acolhíamos todos. Íamos para o campo de
arroz, levávamos pessoas ao hospital, desdobrávamo-nos em encontros e as
palavras “saiam” da Bíblia e vinham ao nosso encontro dando sentido e apontando
caminhos sempre novos. “Irmã entre, que Deus até um simples copo de água
recompensa”; “Irmã obrigada porque cuida de nós em nome do Senhor”. Lavaram-me
os pés tantas vezes que fiquei parte deles e eles parte de quem sou ou de quem
quero ser.
Recordo de forma muito especial, o início da rádio
comunitária de Laleia, a alegria das pessoas quando ouviam a sua voz na rádio,
as histórias que partilhavam sobre a sua cultura, a sua fé, e em que, mesmo os
que viviam mais longe nas montanhas, se sentiam mais próximos e menos sós. Na diferença,
Deus foi-se revelando e tornou-se mais e mais presente. Achava que bastava
aprender as palavras em tétum mas depois descobri que os significados eram tão
diferentes, que a única língua era mesmo a do Senhor: o amor!
Estive num orfanato, cerca de 3 meses, em que a criança mais
nova tinha 4 anos e o mais velho 17. Com eles aprendi o significado desta
passagem dos atos: “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles
tudo era comum.” (...) “distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade
que tivesse”. Havia muito pouco. Eu passei fome pela primeira vez na minha
vida. Experimentei que quando temos fome, só pensamos em comida e não
conseguimos fazer mais nada. A comida era à conta para as 50 crianças e jovens
e muitas vezes era apenas arroz, enfeitada com um bocadinho de legumes. Mas
eles sabiam o que era viver em comunidade e partilhar. Fomos visitar uma
família pobre e depois estávamos no final do dia a ver como poderíamos ajudar
essa família. E os miúdos propuseram e todos concordaram dar 2 dos 5 ovos que
tínhamos para a refeição do dia seguinte para aquela família. Nós só tínhamos 5
ovos para 50 miúdos mais 4 de nós, mas assim seriam apenas 3 ovos mexidos para
54 pessoas.
Fiquei cara a cara com a pobreza crua e suja e injusta. Uma
caminhada de desprendimento foi-me dando a ilusão de “ser pobre” mas só quando
faltou o pão da boca, o conforto de uma casa limpa e uma despensa para
providenciar o necessário, desejei ser pão e partir-me para os saciar, mas nem
a mim me alimentava distraída por um estômago vazio e uma mente a exigir-me
comida. Também de pão vive o homem... mas sabe a pouco!
E Deus deu-me irmãos, que nem metro e meio têm, que não sabem
o dia em que nasceram, que esqueceram o cheiro da sua terra e que entre a mãe
biológica e as muitas “mães” de criação brincam apanhando frutos verdes para
enganar a fome. O prato de arroz é garantido mas não sacia quem de tanto
precisa.
Os irmãos do ISMAEK (Instituto Secular Maun-Alin iha Kristu -
Irmãos em Cristo) ali vivem, servindo e retirando as crianças de famílias
desestruturadas, tentando dar-lhes uma família e fazê-los sentirem-se irmãos.
Recordo uma menina, a quem vou chamar Joana, com 9 anos, que desde o nascimento
a destinaram a casar com um primo e a quem uma tia, para impedir que fosse
viver e consumar este casamento aos 7 anos, a trouxe e a colocou nas mãos dos
irmãos. Há dois anos que não vai a casa, que não abraça a sua mãe, nem brinca
com os seus muitos irmãos. É com lágrimas nos olhos que pede para ir a casa. A
palavra que ela sempre dizia, quando nos sentávamos a brincar ou a estudar, era
um “obrigado”, o mais sincero que alguma vez ouvi, acompanhado de um abraço, o
mais doce que recebi.
Diz Christian Bobin, num livro muito especial com o título
“Ressuscitar”: “Tudo o que sei do céu me vem do espanto que experimento (...) à
luz de uma palavra ou um gesto tão puros que me revelam bruscamente que nada no
mundo poderia ser a sua origem.“ (p. 29)
À luz de uma palavra, a vida pode ser transformada. E nós podemos
ser instrumentos dessa alegria e paz. Na missão em Timor, conheci o padre Chris
Riley. Ele foi com um grupo de jovens fazer uma experiência missionária em
Laleia, Timor-Leste, e tive o privilégio de conhecer um santo pouco
convencional que não se esforçando por agradar, a sua história nunca mais se
libertou da minha mente nem das minhas orações. Na Austrália, donde é natural,
é uma figura pública e a sua organização, Youth off the streets (“Jovens fora
da rua”), tem um investimento de milhões de dólares em quintas residenciais, um
centro de desintoxicação, carrinhas para alimentação, escolas espalhadas por
toda a Austrália, programas de acompanhamento para crianças com histórias de
negligência e abuso em todos os bairros mais problemáticos. Mais de 60,000
crianças passaram já por todos estes projetos.
Uma noite, enquanto planeávamos o dia seguinte não hesitei em
perguntar-lhe como é que este projeto tinha começado. E ele contou-nos. Um fim
de tarde, enquanto regressava a casa, um jovem encostou-lhe uma navalha às
costas e obrigou-o a entrar num táxi. Quando o jovem chegou ao destino,
empurrou-o, bateu-lhe e fugiu, deixando-o sozinho numa rua abandonada. O padre
Chris, estava bastante longe e regressou a casa a pé. Durante a noite, não se
conseguia esquecer deste jovem. No dia seguinte, voltou àquela rua para ver se
o encontrava. E nada! Depois foi num jornal que viu a notícia de um jovem que
tinha sido preso numa rua próxima. O padre Chris foi à prisão ter com ele e
disse-lhe: “Eu acredito em ti! Acredito que podes fazer muitas coisas boas e
belas neste mundo. E eu estou aqui para te ajudar!”. E aqui começou o “youth
off the streets”, pois como diz o padre Chris. “Não existem jovens maus só
circunstâncias más”. A partir daí, a vida do padre Chris mudou. Deixou o
trabalho na escola salesiana, em 1991, e mudou-se para uma auto-caravana para
poder trabalhar a tempo inteiro nas ruas. Pouco tempo depois, conseguiu fundos
para conseguir um local para acolher crianças sem-abrigo. Gradualmente, o seu
trabalho com crianças com problemas – pais abusivos, vítimas de violência
sexual, consumo de álcool e drogas – tornou-se um sucesso. O padre Chris refere
que “Partilhar uma refeição, ter alguém com quem conversar e sentir-se seguro -
são coisas que os jovens realmente valorizam. São os pequenos milagres que
fazem a vida valer a pena.”; “Temos de ter a coragem de exigir grandeza dos
nossos jovens”. E a nós? Onde é que a Palavra nos conduz?
Temos apenas de, como diz Bobin, de “tirá-la dos livros onde
definha para a fazer entrar no coração, único local onde poderia viver” (49). A
missão é colocar a Palavra no coração pois “talvez nada chegue a dar quem não
oferece o próprio coração” (p. 82). A todos nós missionários, chamados a ser
palavra de Deus viva e atuante hoje, missão concedida por um Deus que faz tudo
para nos conseguir tocar. “(53) e que sabe que “A missão é a nossa identidade
em ação” e que, tal como diz o Papa Francisco na exortação apostólica pós
sinodal “Cristo vive”, primeiro temos de abraçar para depois transformar.
Em Timor me entregaste a minha missão: ser um
pedacinho de pão Teu, pão do céu e da terra, ser palavra e pão, ser Missão!»Texto - retirado do site dos Franciscanos Capuchinhos, https://capuchinhos.org, em 06.01.2020;
Imagem: retirada da "Google Imagens" em 06.01.2020;
domingo, 5 de janeiro de 2020
JERUSALÉM, DEIXA O TEU LUTO (Is, 60)
Refrão: Jerusalém, Jerusalém, deixa o teu luto e a tristeza!
Jerusalém, Jerusalém, canta e dança p'ra Teu Deus!
Põe-te de pé, eis que chega a tua luz,
Sobre ti a glória do Senhor (bis)
Levanta os olhos e avista ao longe,
Que o teu coração rejubile.
Eis os Teus filhos que voltam para Ti,
E as tuas filhas cheias de alegria.
Todas as nações caminharão à Tua luz
E os reis à Tua claridade. (bis)
Grandes riquezas virão a Ti,
Todos os rebanhos de Cedar e de Efá,
Vindos de Sabá trazem ouro e incenso,
Cantando a glória do Senhor.
EPIFANIA: Deus se manifesta sempre, mas a partir de dentro
“Ao verem de novo a estrela, os magos
sentiram uma alegria muito grande” (Mt 2,10)
O
relato evangélico deste domingo é desconcertante: o Deus, escondido na
fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no poder ou
fechados na segurança religiosa. Ele se deixa revelar àqueles que, guiados por
pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na
ternura e na pobreza da vida.
Para
além da intencionalidade do evangelista Mateus, o texto contém um profundo
simbolismo, carregado de sabedoria. Tudo começa com uma “estrela”. É a luz
interior (intuição, insight) que desencadeia o processo de busca e nos põe a
caminho. Pode aparecer de maneira inesperada, em qualquer momento e, com
frequência, costuma surgir numa situação de crise que, ao remover nossos
hábitos, faz com que nos abramos a uma dimensão mais profunda.
Estar
a caminho de Belém é fazer a travessia em direção a nós mesmos. Ao buscar uma
Criança na Gruta, buscamos nossa verdade mais profunda e original, a verdade
interna da alegria e do amor, do sentida da vida, em meio a um mundo no qual a
maioria só parece buscar coisas externas, afastando-se de si mesmos. A luz que
aqui importa é a tua, a nossa, a minha, ou seja, a de Deus que ilumina o
caminho da vida, que nos leva até Jesus e com Jesus nos leva ao Reinado do Pai,
que é a plenitude de nossa própria vida.
Peregrinos
somos todos, mas não em guerra de estrelas (star-wars) e sim em um caminho
messiânico que leva ao ouro, incenso e mirra de Belém, que é o sinal da verdade
da vida. Trata-se sempre da voz do desejo que nos habita, e que não é outra
coisa que expressão de nossa verdadeira identidade que nos chama para “voltar à
casa”. Com efeito, o caminho no qual o desejo nos introduz é o caminho da
verdade; a estrela sempre conduz à verdade. E sabemos ou intuímos que a verdade
vai nos desnudar de tudo aquilo que havíamos absolutizado. Por esse motivo, é
importante que nos perguntemos se realmente buscamos a verdade..., ou nos
conformamos com qualquer coisa que a substitua.
A
estrela não tem outra finalidade que a de conduzir-nos à “casa”, nossa gruta interior.
Mas, apenas iniciamos o caminho, aparecem as dificuldades: os apegos que não
estamos dispostos a soltar, as formas de viver que se fizeram habituais, o medo
do incômodo [incómodo] que toda mudança supõe, o susto diante do
desconhecido... e, em último termo, a ignorância básica que nos faz acreditar
naquilo que não somos e nos mantém acomodados na noite da insatisfação
existencial.
Os
Magos (sábios) do Oriente são símbolo do ser humano em sua busca de Deus, em
seu desejo de infinito e plenitude. Esta é a “impressão digital” de artista que
Deus deixou em todos nós: a saudade do divino, do sublime, do infinito, do
pleno, do Outro.
A
estrela simboliza a força dos desejos mais profundos do ser humano (no latim, a
palavra desejo “de-sid-erium”, contém a raiz “sid”: sideral, firmamento,
horizonte). Portanto, quem deseja transgride as estreitas fronteiras da vida e
se deixa conduzir para além de si mesmo; quem não ativa os desejos profundos,
limita-se a vegetar, a cercar-se de proteção, a buscar segurança... atrofiando
a própria existência. Só os nobres desejos, presentes em nosso interior,
alimentam o espírito de busca, acendem a criatividade e nos movem ao encontro
do novo e do diferente.
Se
levássemos a sério o movimento de “saída” dos Magos, muitas coisas poderiam
mudar: o interior de nós mesmos, nosso entorno mais próximo, a estrutura
social, as igrejas, as religiões, a ecologia... O “quê” da questão não está nos
verbos senão no sujeito ativo que gera o ato de sair, buscar e encontrar.
Como
os Magos, precisamos ativar a capacidade de abrir a janela que nos conecta com
a vida dos outros e nos permite continuar interessados, com paixão e com
lucidez (para ter boas fontes de informação), por tudo aquilo que está
ocorrendo em nosso convulsionado mundo. Visitar ambientes que talvez nunca
tivemos ocasião de conhecer, sair de nossos espaços rotineiros e conhecidos,
abrir-nos às surpresas da vida...
Os
Magos perguntam àqueles que podem ajudá-los. Hoje precisamos dialogar com mais
profundidade.
Todo
ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa
última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica
de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical.
Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita
da autotranscedência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos,
caprichos, interesses.
Ele
carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper
fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo
maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de
ser pleno, de realização, de busca do “mais”...
O
desejo do encontro é força determinante para se manter acesa a chama da
dinâmica da busca. É uma chama que se mantém acesa em proporção ao sentido e à
grande importância de quem ou do que se busca. Vale a pena buscar o que é
importante e encontrar Aquele que responde às razões mais profundas da
busca.
Os
Magos ensinam como devemos nos mobilizar para viver esse deslocamento
(geográfico, interno, social...) para acolher intensamente a surpresa do
encontro: caminham em busca, observam os sinais com atenção, desfrutam o
trajeto com alegria, porque a alegria consiste em caminhar para o outro, entram
no lugar onde Maria já oferece o ambiente aberto... É interessante notar este
detalhe do texto do evangelho: “viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11);
tudo indica que o tinham em frente, no centro, como o mais importante. Maria
põe o Filho fácil de ser encontrado. Nem sequer perguntam por Ele, já o
descobrem imediatamente. Não estabelecem diálogo com a mãe. Vão mudos e diretos
ao objetivo. Podemos aqui intuir o regozijo de Maria, pois sua felicidade é que
a humanidade descubra seu Filho como ela o descobriu.
Uma
vez dentro, os visitantes se prostram, se abaixam, reconhecem, identificam,
adoram. Em seguida abrem seus cofres e oferecem seus presentes. O relato diz
que os magos levaram ouro, incenso e mirra. A meta, para a qual aponta a voz do
desejo, requer desapego e desprendimento de nossos “tesouros”. E isso só é
possível quando compreendemos que aquilo à qual nos havíamos apegado se esvazia
diante da verdade d’Aquele diante de quem estamos.
Procuremos,
neste dia festivo, seguir os passos do processo de busca-encontro-manifestação
que os Magos experimentaram. Eles buscavam o Rei dos judeus porque “viram sua
estrela”, e o encontram em um menino, em casa, com sua mãe, Maria. Descobrem o
divino no humano mais frágil. Este é o núcleo da mensagem do relato da Adoração
dos Magos. O divino está no humano. Quanto mais humano mais divino.
Como
os Magos, também nós somos buscadores de Deus. E, como eles, devemos nos
perguntar: a quê Deus buscamos? Onde o encontraremos? Como é possível saber que
de fato o encontramos?
A
Epifania consiste no encontro com Recém-nascido em Belém; o reconhecimento
recíproco transforma os Magos em testemunhas vivas da Boa-Nova. Transformados,
eles mesmos se tornam Boa-Nova e assim anunciam, em diálogo vivo, a Luz das
nações.
Epifania
é deter-nos a contemplar aquela Criança, o Mistério de Deus que se faz homem na
humildade e na pobreza; mas é, sobretudo, acolher de novo em nós mesmos aquele
Menino, que é Cristo Senhor, para viver de sua mesma vida, para fazer que seus
sentimentos, seus pensamentos, suas ações, sejam nossos sentimentos, nossos
pensamentos, nossas ações. Celebrar a Epifania é, portanto, manifestar a
alegria, a novidade, a luz que o Nascimento de Jesus trouxe e que afeta toda a
nossa existência, para sermos, também nós, portadores da alegria, da autêntica
novidade, da luz de Deus aos outros.
Texto bíblico: Mt
2,1-12
Na oração: Em sua aparente
simplicidade, o relato dos Magos nos apresenta perguntas decisivas: diante de
quem nos ajoelhamos? Como se chama o “deus” que adoramos no fundo de nosso ser?
Como cristãos, adoramos o Menino de Belém? Colocamos a seus pés nossas riquezas?
Estamos dispostos a escutar seu chamado para entrar na lógica do Reinado de
Deus e sua justiça?
-
O que os Magos despertam em nós, hoje?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
Parte escrita - Retirada do site -
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Imagem- Retirada da "Google Imagens", em 05.01.2020
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