sábado, 13 de julho de 2019

Comunidade: espaço de comunhão



Catequese do Papa sobre os Atos dos Apóstolos

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!

O fruto do Pentecostes, a poderosa efusão do Espírito de Deus sobre a primeira comunidade cristã, foi que muitas pessoas sentiram o próprio coração trespassado pelo alegre anúncio — o querigma — da salvação em Cristo e aderiram livremente a Ele, convertendo-se, recebendo o batismo em seu nome e aceitando por sua vez o dom do Espírito Santo. Cerca de três mil pessoas começam a fazer parte daquela fraternidade, que é o habitat dos crentes e constitui o fermento eclesial da obra de evangelização. O fervor da fé destes irmãos e irmãs em Cristo faz da sua vida o cenário da obra de Deus, que se manifesta com prodígios e sinais através dos Apóstolos. O extraordinário faz-se ordinário e o dia a dia torna-se o espaço da manifestação de Cristo vivo!

O Evangelista Lucas narra-nos isto, mostrando-nos a Igreja de Jerusalém como o paradigma de todas as comunidades cristãs, como o ícone de uma fraternidade que fascina e que não deve ser mitificada, nem sequer minimizada. A narração dos Atos permite-nos olhar para dentro das paredes da domus onde os primeiros cristãos se reúnem como família de Deus, espaço da koinonia, ou seja, da comunhão de amor entre irmãos e irmãs em Cristo. Perscrutando no seu interior, podemos ver que eles vivem de uma forma muito específica: são «assíduos no ensinamento dos Apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e nas orações» (At 2, 42). Os cristãos ouvem assiduamente a didaqué, ou seja, o ensinamento apostólico; praticam relacionamentos interpessoais de alta qualidade (inclusive através da comunhão dos bens espirituais e materiais); fazem memória do Senhor mediante a “fração do pão”, isto é, a Eucaristia, e dialogam com Deus na oração. São estas as atitudes do cristão, as quatro caraterísticas de um bom cristão.

Contrariamente à sociedade humana, onde se tende a perseguir os próprios interesses, prescindindo ou até em detrimento do próximo, a comunidade dos crentes afasta o individualismo para favorecer a partilha e a solidariedade. Não há lugar para o egoísmo na alma do cristão: se o teu coração for egoísta, não és cristão, és um mundano, que só procuras a tua vantagem, o teu benefício. E Lucas diz-nos que os crentes permanecem juntos (cf. At 2, 44). A proximidade e a unidade são o estilo dos crentes: próximos, preocupados uns pelos outros, não para falar mal do outro, não, para ajudar, para se aproximar.

Portanto, a graça do Batismo revela a íntima união entre os irmãos em Cristo, que são chamados a compartilhar, a identificar-se com os outros e a dar, «de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45), ou seja, a generosidade, a esmola, preocupar-se pelo próximo, visitar os doentes, ir ao encontro dos necessitados, de quantos precisam de consolação.

E precisamente porque escolhe o caminho da comunhão e da atenção aos carentes, esta fraternidade que é a Igreja pode levar uma vida litúrgica verdadeira e autêntica. Lucas diz: «Frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo» (At 2, 46-47).

Enfim, a narração dos Atos recorda-nos que o Senhor garante o crescimento da comunidade (cf. 2, 47): a perseverança dos crentes na aliança genuína com Deus e com os irmãos torna-se força atrativa que fascina e conquista muitas pessoas (cf. Evangelii gaudium, 14), um princípio graças ao qual a comunidade de crentes de todos os tempos vive.

Oremos ao Espírito Santo a fim de que faça das nossas comunidades lugares onde receber e praticar a vida nova, as obras de solidariedade e de comunhão, lugares onde as liturgias sejam um encontro com Deus, que se torna comunhão com os irmãos e irmãs, lugares que sejam portas abertas para a Jerusalém celestial.

Papa Francisco

catequese na audiência geral 26.06.2019

Texto, retirado do site “Catequese do Brasil”, www.catequesedobrasil.org.br/ em 13.07.2019.
Imagem, retirada da "Google Imagens".

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A vocação de São Francisco

Oração Inicial:
Ó glorioso Deus altíssimo,
ilumina as trevas do meu coração,
concede-me uma fé verdadeira,
uma esperança firme
e um amor perfeito.
Mostra-me, Senhor,
o reto sentido e conhecimento,
a fim de que possa cumprir
a tua santa e verdadeira vontade.
O que é a Vocação?
O tema a aprofundar hoje será a Vocação de São Francisco de Assis. No entanto, para compreendermos verdadeiramente como se foi desenvolvendo a vocação na sua vida, é importante que nos questionemos primeiro o que é a Vocação e a que tipo e vocação nos estamos a referir.
Muitas vezes já ouvimos dizer que o João tem vocação para a música ou que a vocação da Maria é ser médica. Nestes dois casos estamos a falar que determinada pessoa se sente inspirada a fazer algo, que tem jeito para aquilo. Mas não é a esse tipo de vocação que nos referimos. A vocação a que nos propomos tratar é muito mais ‘profunda’…
Vocação significa que existe alguém que chama e alguém que responde a esse chamamento. Mais concretamente, Deus que prepara um projeto e que chama determinada pessoa a acolher e levar por diante esse projeto, que foi cuidadosamente preparado por Deus. É de salientar que Ele não obriga ninguém a aceitar esse projeto, mas propõe, dá liberdade de escolha. Convida a abandonar o caminho que a pessoa tinha planeado para abraçar o caminho que Deus lhe propõe. E a pessoa tem a liberdade de dizer que sim, ou não…
E este chamamento não acontece apenas com alguns eleitos, mas com todos nós. É verdade! Deus chama a todos, mas a vocações diferentes. Isto porque, como nós não somos iguais, Deus cria um projeto especial e único para cada um de nós. É como se o projeto estivesse intrinsecamente unido ao nosso ADN. Assim sendo, o chamamento que faz ao António será diferente daquele feito à Ana, ainda que por vezes possa ter inúmeras semelhanças. Podem até ser chamados a caminhar juntos, a partilhar o mesmo projeto, mas cada um com uma vocação única e peculiar.
A Vocação na Sagrada Escritura - A Vocação do Profeta Jeremias
A palavra do SENHOR foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» E eu respondi: «Ah! Senhor DEUS, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem.» Mas o SENHOR replicou-me: «Não digas: ‘Sou um jovem’. Pois irás aonde Eu te enviar e dirás tudo o que Eu te mandar. Não terás medo diante deles, pois Eu estou contigo para te livrar» – oráculo do SENHOR. (Jeremias 1,4-8)
Para Refletir: Deus chama Jeremias a abraçar a vocação que Deus cuidadosamente preparou para ele. Jeremias tem medo de não ser capaz de levar por diante tão grande projeto e por isso vacila. Deus jamais pediria a Jeremias mais do que aquilo que ele seria capaz de suportar, e por isso Deus dá-lhe confiança, garantindo-lhe a Sua presença constante a seu lado para o fortalecer e proteger nas dificuldades que irá encontrar ao longo do caminho. Seguir o caminho proposto por Deus não é fácil, pois irão aparecer sempre inúmeros obstáculos… mas é certamente o caminho que conduzirá à maior das alegrias e à verdadeira felicidade. 
A Vocação de São Francisco de Assis
Também Francisco foi chamado por Deus a ser sinal e instrumento da Paz e do Bem, da alegria e do amor de Deus. A forma como cresce dentro dele esta vocação é bastante pertinente e digna de ser observada com maior atenção…
(lê o texto individualmente e vai sublinhando o que te chamar mais à atenção)
Francisco nasceu na cidade de Assis. Sua mãe dera-lhe o nome de João; mas o pai, ausente quando ele nasceu, ao voltar da França, deu-lhe o nome de Francisco. Quando chegou à juventude, dotado de espírito vivo, exerceu o ofício de seu pai, o comércio, mas de modo muito diferente do dele: era mais generoso e mais alegre, entregava-se aos divertimentos e ao canto, e vagueava, dia e noite, pela cidade, com amigos da sua idade. Era tão liberal nos gastos, que dissipava em festas e banquetes tudo o que tinha ou ganhava. Seus pais repreendiam-no por esbanjar o dinheiro consigo e com os outros. Quem o visse, julgá-lo-ia filho dum príncipe e não de comerciantes. Mas, como eram ricos e o amavam ternamente, iam suportando tudo, não o querendo desgostar por tais fantasias. Ele, sempre mais pródigo, também não tinha moderação na maneira de vestir: mandava fazer roupas mais ricas que as que convinham à sua condição social.
Certa noite, durante o sono, apareceu-lhe um homem; chamando-o pelo seu nome, conduziu-o a um palácio, grande e encantador, cheio de armas de guerra; havia, suspensos das paredes, escudos refulgentes e todos os outros objetos próprios do equipamento militar. Cheio de alegria, interrogava-se com espanto o que significaria aquilo. Depois perguntou: «A quem pertencem estas armas que brilham com tanto esplendor, e este palácio tão encantador?» Ouviu esta resposta: «Todas estas armas, com o palácio, são para ti e para os teus cavaleiros».
De manhã, levantou-se radiante. Interpretando as coisas ao jeito do mundo, pois não tinha ainda saboreado o espírito de Deus, acreditou que o sonho lhe pressagiava honras principescas. Julgando, portanto, esta visão como o anúncio de grande fortuna, decidiu partir imediatamente para a Apúlia, para ser armado cavaleiro. Mostrava uma alegria tão grande para além do habitual, que muitos ficavam surpreendidos e perguntavam-lhe donde lhe vinha tamanha alegria. «Sei – respondeu – que me tornarei um grande príncipe».
Um dia, quando dormitava, ouviu uma voz a perguntar-lhe onde queria ir. Revelou com prazer toda a sua ambição. Então a voz acrescentou: «Quem te pode dar mais, o senhor ou o servo?» Respondeu: «O Senhor». A voz replicou: «Ora bem; porque deixas o Senhor pelo servo, o príncipe pelo vassalo?» Então Francisco perguntou: «Que quereis que eu faça, Senhor?» «Volta para a tua terra – disse a voz – e lá saberás o que deves fazer, porque a visão que sonhaste, deves interpretá- la de modo completamente diferente». Acordado, começou a refletir longamente sobre esta nova visão. Enquanto que a primeira, por assim dizer, o pusera fora de si de alegria, pois satisfazia os seus desejos de prosperidade temporal, esta recolheu-o todo para dentro de si. Maravilhado, procurava- lhe o sentido e meditava-a com tanta atenção, que não conseguiu conciliar o sono no resto da noite. De manhã, tomou o caminho de Assis, apressado, feliz e alegre em extremo. Esperou com confiança que Deus, depois de o honrar com esta visão, lhe desse a conhecer a sua vontade e o aconselhasse para a sua salvação. O seu coração mudara. Renunciou a ir à Apúlia. Não desejava mais que conformar-se com a vontade divina.
Um dia, em que ele orava ao Senhor com todo o fervor, falou-lhe uma voz: «Francisco, tudo o que tu amaste e desejaste possuir segundo a carne, tens agora que o detestar e desprezar, se queres conhecer a minha vontade. Quando o alcançares, o que outrora te parecia encantador e delicioso, ser-te-á insuportável e amargo; e no que antes te causava horror, colherás extrema doçura e suavidade ilimitada».
Confortado por estas palavras e pela graça de Deus, Francisco passeava um dia a cavalo, não longe de Assis, quando se encontrou com um leproso. Ordinariamente a vista da lepra causava-lhe calafrios. Nesta ocasião ele fez violência a si mesmo: desceu do cavalo, ofereceu uma esmola ao leproso e beijou-o; naquele momento reconheceu a verdade da promessa divina: o que outrora lhe era amargo, ou seja, a vista e o contacto dos leprosos, converteu-se em doçura. De facto, a vista dos leprosos era-lhe antes tão irritante, que não só não os queria ver como não consentia em se aproximar do lugar em que habitavam. E se alguma vez sucedia passar perto dos seus casebres ou vê-los, desviava sempre a vista e chegava mesmo a tapar o nariz. Mas a graça de Deus tornou-o familiar e amigo dos leprosos, a ponto de ficar de bom gosto em sua companhia e de os servir com humildade.
Algum tempo depois, ao passar perto da igreja de São Damião, uma voz interior impeliu-o a entrar e orar. Tendo entrado, começou a rezar com fervor diante da imagem de Cristo Crucificado, a qual lhe falou com doçura e benevolência: «Francisco, não vês que a minha casa cai em ruínas? Vai e repara-ma». A tremer e cheio de assombro, respondeu: «Vou fazê-lo prontamente, Senhor». Compreendeu tratar-se da igreja de São Damião, com muitos sinais de velhice, que faziam prever ruína próxima. As palavras divinas encheram-no de alegria e a sua alma iluminou-se de viva luz.
Um dia ouviu, durante a celebração da missa, o que Cristo recomendou aos seus discípulos quando os enviou a pregar: não levar para a viagem nem ouro, nem prata, nem bolsa, nem pão, nem bastão; não usar calçado, não possuir duas túnicas. Compreendeu mais claramente estas palavras, quando em seguida pediu ao padre que lhas explicasse. Então, cheio de indizível alegria, exclamou: «Eis o que quero realizar, com todas as minhas forças». Confiando à memória todos os conselhos ouvidos, alegremente se esforçou por pô-los em prática. Sem hesitar, desembaraçou-se da túnica dupla; e, a partir deste momento, não mais usou o bastão, nem calçado, nem saco, nem bolsa. Manda fazer uma túnica muito pobre e grosseira; deita fora a correia e, para cinto, toma uma corda. Põe toda a solicitude do seu coração em escutar as inspirações desta nova graça e pergunta- se como poderá transpô-las para a sua vida. Levado por impulso divino, fez-se o arauto da perfeição evangélica e começou a pregar a penitência ao povo em linguagem familiar.
Pouco a pouco o bem-aventurado Francisco dava-se a conhecer, na verdade e simplicidade da sua doutrina e da sua vida, de modo que, dois anos após a sua conversão, alguns homens, empolgados pelo seu exemplo, decidiram fazer penitência e, renunciando a todas as coisas do mundo, quiseram juntar-se a ele pelo hábito e pela vida (Cf. Legenda dos Três Companheiros).
Para refletir: Francisco de Assis, tal como tantos jovens do seu tempo desejava ser cavaleiro, ambicionava ser alguém importante, de grande reconhecimento diante dos outros. Deus inicialmente pareceu confirmar os seus planos, mostrando-lhe que tinha grandes projetos para Francisco. No entanto, o caminho apresentado por Deus para alcançar tal meta era bem diferente daquele idealizado por Francisco. Aqui surge o mérito de Francisco: ser capaz não apenas de escutar, mas principalmente de acolher a voz que fala ao seu coração, de estar disponível para ouvir e predispor-se a percorrer novos caminhos.
O grande e ambicioso projeto é de Deus. Projeto esse que, sabemos nós hoje, levará Francisco a fazer grandes coisas.… mas para isso Francisco deveria renunciar aos seus projetos pessoais, deveria deixar-se conduzir por caminhos que até então lhe davam a maior repulsa. Francisco queria subir, mas Deus diz-lhe que tem que descer. Francisco queria ser o maior, Deus diz-lhe que deverá ser o último. E, pouco a pouco, Francisco compreenderá que aquilo que inicialmente lhe parecia amargo se converterá em doçura de alma e de corpo.
Podemos então dizer que o grande mérito de Francisco está simplesmente no dizer SIM… e não foi coisa pouca. Francisco teve a coragem de dar o seu Sim, de acolher a vocação que Deus tinha preparado para ele, mas acima de tudo, de permanecer fiel a esse Sim, a essa vocação, até ao fim…
(Após a leitura e breve reflexão individual deverão juntar-se em pequenos grupos, onde cada um possa partilhar as suas impressões.  Após a discussão nos grupos, reúnem-se todos e partilham de modo resumido os pontos essenciais falados).
Breve introdução à realidade atual
Após a partilha, poderão colocar-se algumas questões para discussão… como por exemplo…
a) Como pode Francisco de Assis ser inspiração para nós hoje?
b) Sinto que também eu estou a abraçar a Vocação à qual Deus me chama?
c). Como posso viver a minha vocação no grupo de jovens, na Igreja e no mundo?
Oração final:
Deus Pai de Misericórdia, nós te pedimos que continues a tocar os corações de todos os Teus filhos e a chamar ‘trabalhadores para a Tua vinha’, como fizeste com São Francisco de Assis e tantos outros. Tu que conheces o mais íntimo na nossa alma, converte-nos também a nós ao Teu amor, e ajuda-nos a dizermos o nosso SIM à Tua vontade. E, seguindo os Teus caminhos, nos tornemos verdadeiros sinais e instrumentos do Teu amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Ámen.
Texto e imagem retirado do site dos Franciscanos Capuchinhos,  https://capuchinhos.org, em 06.07.2019. 

Jésus Christ Est Seigneur, Alléluia !

segunda-feira, 10 de junho de 2019

SOLENIDADE DE PENTECOSTES-HOMILIA DO PAPA FRANCISCO


SANTA MISSA NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Praça São Pedro
Domingo, 9 de junho de 2019

O Pentecostes chegou, para os discípulos, depois de cinquenta dias incertos. Por um lado, Jesus ressuscitara: cheios de alegria, tinham-No visto, escutado e até comido com Ele. Por outro, ainda não superaram dúvidas e temores: estavam com as portas fechadas (cf. Jo 20, 19.26), com perspetivas reduzidas, incapazes de anunciar o Vivente. Depois, chega o Espírito Santo e as preocupações desaparecem: agora os Apóstolos não têm medo nem sequer à vista de quem os prende; antes, preocupados por salvar a sua vida, agora já não têm medo de morrer; antes, fechados no Cenáculo, agora levam o anúncio a todas as nações. Até à Ascensão de Jesus, aguardavam um Reino de Deus para eles (cf. At 1, 6), agora estão ansiosos por alcançar fronteiras desconhecidas. Antes, quase nunca falaram em público e muitas vezes, quando o fizeram, criaram problemas como Pedro que renegou Jesus; agora falam corajosamente a todos. Em resumo, a história dos discípulos, que parecia ter chegado ao fim, é renovada pela juventude do Espírito: aqueles jovens, que dominados pela incerteza se sentiam no fim, foram transformados por uma alegria que os fez renascer. Foi o Espírito Santo que fez isto. O Espírito não é, como poderia parecer, uma coisa abstrata; é a Pessoa mais concreta, mais próxima, aquela que muda a nossa vida. E como faz? Vejamos os Apóstolos. O Espírito não lhes tornou as coisas mais fáceis, não fez milagres espetaculares, não eliminou problemas nem opositores, mas o Espírito trouxe para a vida dos discípulos uma harmonia que faltava: a Sua, porque Ele é harmonia.
Harmonia dentro do homem. Era dentro, no coração, que os discípulos precisavam de ser mudados. A sua história diz-nos que a própria visão do Ressuscitado não basta; é preciso acolhê-Lo no coração. De nada aproveita saber que o Ressuscitado está vivo, se não se vive como ressuscitados. E é o Espírito que faz viver e ressurgir Jesus em nós, que nos ressuscita dentro. Por isso Jesus, ao encontrar os Seus, repete: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19.21) e dá o Espírito. A paz não consiste em resolver os problemas a partir de fora – Deus não tira aos Seus tribulações e perseguições –, mas em receber o Espírito Santo. Nisto consiste a paz, aquela paz dada aos Apóstolos, aquela paz que não livra dos problemas, mas, nos problemas, é oferecida a cada um de nós. É uma paz que torna o coração semelhante ao mar profundo: permanece tranquilo, mesmo quando as ondas estão revoltas à superfície. É uma harmonia tão profunda que pode até transformar as perseguições em bem-aventurança. Mas, em vez disso, quantas vezes permanecemos à superfície! Em vez de procurar o Espírito, tentamos flutuar, pensando que tudo ficará bem se certo problema passar, se não virmos mais tal pessoa, se melhorar aquela situação. Mas isto é permanecer à superfície: superado um problema, chegará outro; e a ansiedade voltará. Não é afastando-nos de quem pensa diferente de nós que ficaremos tranquilos, não é resolvendo o problema presente que estaremos em paz. O ponto de mudança é a paz de Jesus, é a harmonia do Espírito.
Com a pressa que o nosso tempo nos impõe, parece que a harmonia esteja posta de lado: reclamados por uma infinidade de coisas, arriscamo-nos a explodir, solicitados por um nervosismo contínuo que nos faz reagir mal a tudo. E procura-se a solução rápida: uma pastilha atrás doutra para continuar, uma emoção atrás doutra para se sentir vivo, quando na verdade aquilo de que precisamos é sobretudo o Espírito. É Ele que coloca ordem neste frenesi. É paz na ansiedade, confiança no desânimo, alegria na tristeza, juventude na velhice, coragem na prova. É Ele que, no meio das correntes tempestuosas da vida, mantém firme a âncora da esperança. Como nos diz hoje São Paulo, é o Espírito que nos impede de recair no medo, fazendo-nos sentir filhos amados (cf. Rm8, 15). É o Consolador, que nos transmite a ternura de Deus. Sem o Espírito, a vida cristã desfia-se, privada do amor que tudo une. Sem o Espírito, Jesus permanece um personagem do passado; com o Espírito, é pessoa viva hoje. Sem o Espírito, a Escritura é letra morta; com o Espírito, é Palavra de vida. Um cristianismo sem o Espírito é um moralismo sem alegria; com o Espírito, é vida.
O Espírito Santo produz harmonia não só dentro, mas também fora, entre os homens. Faz-nos Igreja, compõe partes distintas num único edifício harmónico. Explica-o bem São Paulo que, ao falar da Igreja, repete muitas vezes a palavra «diferente»: «diferentes carismas, diferentes atividades, diferentes ministérios» (cf. 1 Cor 12, 4-6). Somos diferentes, na variedade das qualidades e dos dons. O Espírito distribui-os com criatividade, sem rebaixar nem nivelar. E, a partir desta diversidade, constrói a unidade. Assim procede desde a criação, porque é especialista em transformar o caos em cosmo, em criar harmonia. Ele é especialista em criar as diversidades, as riquezas; cada um com a sua, diversa. Ele é o criador desta diversidade e, ao mesmo tempo, é Aquele que harmoniza, que dá harmonia, e dá unidade na diversidade. Somente Ele pode fazer estas duas coisas.
Hoje, no mundo, as desarmonias tornaram-se verdadeiras divisões: há quem tenha demais e quem não tem nada, há quem procure viver cem anos e quem não pode vir à luz. Na era dos computadores, permanece-se à distância: mais sociedade, mas menos sociais. Precisamos do Espírito de unidade, que nos regenere como Igreja, como Povo de Deus e como humanidade inteira. Que nos regenere. Há sempre a tentação de construir «ninhos»: reunir-se à volta do próprio grupo, das próprias preferências, o semelhante com o semelhante, alérgicos a toda a contaminação. E do ninho à seita, o passo é curto, mesmo dentro da Igreja. Quantas vezes se define a própria identidade contra alguém ou contra alguma coisa! Pelo contrário, o Espírito Santo junta os distantes, une os afastados, reconduz os dispersos. Funde tonalidades diferentes numa única harmonia, porque em primeiro lugar vê o bem, vê o homem antes dos seus erros, as pessoas antes das suas ações. O Espírito molda a Igreja, molda o mundo como espaços de filhos e de irmãos. Filhos e irmãos: substantivos que vêm antes de qualquer adjetivo. Está na moda adjetivar, se não mesmo, infelizmente, insultar. Podemos dizer que vivemos na cultura do adjetivo que esquece do substantivo das coisas; e também numa cultura do insulto, que é a primeira resposta para uma opinião que eu não compartilho. Depois damo-nos conta de que faz mal a quem é insultado, mas também a quem insulta. Retribuindo o mal com mal, passando de vítimas a verdugos, não se vive bem. Pelo contrário, quem vive segundo o Espírito leva paz onde há discórdia, concórdia onde há conflito. Os homens espirituais retribuem o mal com bem, respondem à arrogância com a mansidão, à maldade com a bondade, à barafunda com o silêncio, às maledicências com a oração, ao derrotismo com o sorriso.
Para ser espirituais, para saborear a harmonia do Espírito, é preciso colocar a sua visão à frente da nossa. Então as coisas mudam: com o Espírito, a Igreja é o Povo santo de Deus, a missão é o contágio da alegria - não o proselitismo - os outros são irmãos e irmãs amados pelo mesmo Pai. Mas, sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é propaganda, a comunhão é um esforço. E tantas Igrejas fazem acções programáticas no sentido de planos de pastoral, de discussões sobre todas as coisas. Pode parecer que este seja o caminho para nos unir, porém este não é o caminho do Espírito, é o caminho da divisão. A primeira e a derradeira necessidade da Igreja é o Espírito (cf. São Paulo VI, Catequese na Audiência Geral de 29/XI/1972). Ele «vem aonde é amado, aonde é convidado, aonde é esperado» (São Boaventura, Sermão para o IV Domingo depois da Páscoa). Irmãos e irmãs, rezemos-Lhe diariamente. Espírito Santo, harmonia de Deus! Vós que transformais o medo em confiança e o fechamento em dom, vinde a nós. Dai-nos a alegria da ressurreição, a perene juventude do coração. Espírito Santo, nossa harmonia! Vós que fazeis de nós um só corpo, infundi a vossa paz na Igreja e no mundo. Espírito Santo: tornai-nos artesãos de concórdia, semeadores de bem, apóstolos de esperança.
Texto: Retirado do site do Vaticano em 10.06.2019, http://w2.vatican.va/ ;
Imagem: Retirada do  “Google Imagens”;

domingo, 9 de junho de 2019

Esprit de dieu, souffle de vie



Refrão: Espírito de Deus, sopro de vida,
Espírito de Deus, sopro de fogo,
Espírito de Deus, consolador,
Tu nos santificas.

Vem aos nossos corações,
Vem Espírito, vem visitar-nos
Vem Espírito vivificar-nos,
Vem, nós Te esperamos!

Vem , Espírito de santidade,
Vem Espírito de verdade,
Vem Espírito de caridade,
Vem, nós Te esperamos!

Vem, Espírito, vem reunir-nos,
Vem, Espírito, fortalecer-nos,
Vem, Espírito, vem recriar-nos,
Vem, nós Te esperamos!

domingo, 2 de junho de 2019

Ascensão: bênção que se expande sobre a humanidade

 
“Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os.
Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu(Lc 24,50-51)
Agora que estamos chegando ao final do tempo pascal, vale a pena notar que a Páscoa, chave, centro e  ponto de partida da fé cristã, é um acontecimento de uma riqueza tal que é impossível descrevê-lo com uma só imagem. Por isso, celebramos o mistério pascal durante cinquenta dias, e logo prolongamos esta celebração cada domingo. Trata-se de um acontecimento único, embora nós, para entendê-lo melhor, o celebremos por etapas. Dito de outra maneira: Paixão, Páscoa, Ascensão e Pentecostes são a mesma realidade. Pode-se falar de quatro momentos, mas, na realidade são distintas perspectivas do mesmo Mistério.
Quê estamos celebrando com a Ascensão? A Ascensão é mais um aspecto da cristologia pascal.
Cristo alcançou, na Ascensão, uma situação e um estado de infinitude que lhe permite preencher tudo com sua presença definitiva, e para comunicar-nos sua presença divina. Portanto, não se trata de uma Ascensão para um lugar físico que o afastaria para longe da humanidade.
A nuvem que o “oculta”, enquanto subia ao céu, não está nos indicando sua “ausência”, mas uma forma distinta de sua presença. Daqui em diante, Jesus estará presente entre nós através de seu Espírito, cuja missão é ser memória permanente e dinâmica para que não nos esqueçamos do que Ele disse e fez.
Precisamos recordar que, terminada a presença histórica de Jesus, vivemos o “tempo do Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável. O Espírito não nos proporciona a nós, seguidores(as) de Jesus, “receitas eternas”. Mas nos dá luz e ânimo para buscar caminhos sempre novos a fim de prolongar hoje o modo original de ser e de atuar de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade completa de Jesus.
Lucas, o único evangelista que fala de ascensão, termina seu relato apresentando-nos os discípulos como que pasmados, olhando para o alto e a alguns personagens vestidos de branco que lhes repreendem: “Homens da Galileia, porque estás aí olhando ao céu?”
Como Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude da vida não é “subir”, mas é “descer” até o mais profundo de nosso ser. Aquele que mais desceu é o que subiu mais alto.
Jesus deixou suas pegadas cravadas na terra, mas os discípulos ficaram assombrados com o olhar fixo nas alturas. Ao céu só se chega caminhando para as profundezas de nosso ser, pois só no mais profundo de cada um (céu interior), podemos encontrar o divino.
Não causa estranheza que, ao narrar a despedida de Jesus deste mundo, Lucas descreva de forma surpreendente: Jesus ergue as mãos e “abençoa” seus discípulos. É seu último gesto. Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e abençoando os seus seguidores. Ele entra no mistério insondável de Deus e sobre o mundo faz descer sua bênção. Jesus deixa atrás de si sua bênção. Os discípulos, envolvidos por sua bênção, respondem ao gesto de Jesus indo ao templo cheios de alegria. E estavam ali “bendizendo” a Deus.
Saboreando com mais profundidade a narrativa da Ascensão, caímos na conta da insistência de Lucas no tema do bendizer de Jesus: “levantando as mãos os abençoou e enquanto os abençoava, se afastou deles...”.
Ao fixar a atenção no seu “bendizer” e fazendo uma tradução ao pé da letra do verbo grego “eu-logeo” (“eu”= bem; “logeo”= dizer), ficamos surpresos de que Jesus sobe aos céus dizendo coisas boas de seus discípulos e deixando um “informe final” sobre eles, claramente positivo.
É como se, antes de partir, Jesus tivesse redigido sua avaliação para prestar contas ao Pai e, para alívio nosso, revela-se satisfatória e elogiosa: somos boa gente, com pontos da vida a serem melhorados com certeza, mas, no conjunto, estamos bem. Ele leva anotadas muitas coisas boas de nossas vidas para contá-las ao Pai.
Vamos agora contemplar o gesto das mãos de Jesus que abençoam.
Jesus sempre gostou de “abençoar”. Abençoou as crianças, os pobres, os doentes e desventurados. Seu gesto era carregado de fé e de amor. Ele desejava envolver aqueles que mais sofriam, com a compaixão, a proteção e a bênção de Deus.
A partir de então, seus(suas) seguidores(as) começam sua caminhada, animados por aquela bênção com a qual Jesus curava os doentes, perdoava os pecadores e acariciava os pequenos.
Nós, seguidores(as) de Jesus, somos portadores(as) e testemunhas de sua bênção no mundo.
Como cristãos, esquecemo-nos que somos canais da bênção de Jesus. A nossa primeira tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus. Manter viva a esperança, não nos rendermos diante de tanto “maldizer”.
Deus olha a humanidade com ternura e compaixão.
Já faz muito tempo que esquecemos isso, mas a Igreja deve ser, no meio do mundo, uma fonte de bênção. Num mundo onde é tão frequente “maldizer”, condenar, prejudicar e difamar, é mais necessária do que nunca a presença de seguidores(as) de Jesus que saibam “abençoar”, buscar o bem, dizer bem, fazer o bem, atrair para o bem.
A bênção é uma prática enraizada em quase todas as culturas como o melhor desejo que podemos despertar para com os outros. O judaísmo, o islamismo e o cristianismo lhe deram sempre grande importância. E, embora em nossos dias tenha sido reduzida a um ritual quase em desuso, não são poucos os que ainda destacam seu conteúdo profundo e a necessidade de recuperá-la.
Abençoar é, antes de mais nada, desejar o bem às pessoas que encontramos em nosso caminho. Querer o bem de maneira incondicional e sem reservas. Querer a saúde, o bem-estar, a alegria..., tudo o que pode ajudá-las a viver com dignidade. Quanto mais desejamos o bem para todos, mais possível é sua manifestação.
Abençoar é aprender a viver a partir de uma atitude básica de amor à vida e às pessoas. Aquele que abençoa esvazia seu coração de outras atitudes pouco sadias, como a agressividade, o medo, a hostilidade ou a indiferença. Não é possível abençoar e ao mesmo tempo viver condenando, rejeitando, odiando.
Abençoar é desejar a alguém o bem do mais profundo de nosso ser, mesmo que nós não sejamos a fonte da bênção, mas apenas suas testemunhas e portadores. Aquele que abençoa não faz senão evocar, desejar e pedir a presença bondosa do Criador, fonte de todo bem. Por isso, só se pode abençoar numa atitude de agradecimento a Deus.
A bênção faz bem a quem a recebe e a quem a pratica. Quem abençoa os outros abençoa-se a si mesmo. A bênção fica ressoando em seu interior, como prece silenciosa que vai transformando seu coração, tornando-o melhor e mais nobre. Ninguém pode sentir-se bem consigo mesmo enquanto continua maldizendo o outro no fundo do seu ser. Não é possível ser canal de bênção do Criador se do próprio coração brotam palavras de intolerância, de preconceito e julgamento. “Maldizer” o outro é maldizer-se a si mesmo.

Texto bíblico:  Lc 24,46-53
Na oração: Fazer memória dos momentos em que você foi canal de bênção para muitas pessoas.
- Você usa as redes sociais para “bendizer” ou “mal-dizer”?
Pe. Adroaldo Palaoro sj

"Retirado em 02.06.2019 do site - CATEQUESE Hoje-"  www.catequesehoje.org.br  "- Um site com brasileiro com muita qualidade!"
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