domingo, 14 de julho de 2019
sábado, 13 de julho de 2019
Comunidade: espaço de comunhão
Catequese
do Papa sobre os Atos dos Apóstolos
Bom dia, prezados irmãos e irmãs!
O fruto do Pentecostes, a poderosa efusão do Espírito de Deus
sobre a primeira comunidade cristã, foi que muitas pessoas sentiram o próprio
coração trespassado pelo alegre anúncio — o querigma — da salvação em Cristo e
aderiram livremente a Ele, convertendo-se, recebendo o batismo em seu nome e
aceitando por sua vez o dom do Espírito Santo. Cerca de três mil pessoas
começam a fazer parte daquela fraternidade, que é o habitat dos crentes e
constitui o fermento eclesial da obra de evangelização. O fervor da fé destes
irmãos e irmãs em Cristo faz da sua vida o cenário da obra de Deus, que se
manifesta com prodígios e sinais através dos Apóstolos. O extraordinário faz-se
ordinário e o dia a dia torna-se o espaço da manifestação de Cristo vivo!
O Evangelista Lucas narra-nos isto, mostrando-nos a Igreja de
Jerusalém como o paradigma de todas as comunidades cristãs, como o ícone de uma
fraternidade que fascina e que não deve ser mitificada, nem sequer minimizada.
A narração dos Atos permite-nos olhar para dentro das paredes da domus onde os
primeiros cristãos se reúnem como família de Deus, espaço da koinonia, ou seja,
da comunhão de amor entre irmãos e irmãs em Cristo. Perscrutando no seu
interior, podemos ver que eles vivem de uma forma muito específica: são
«assíduos no ensinamento dos Apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e
nas orações» (At 2, 42). Os cristãos ouvem assiduamente a didaqué, ou seja, o
ensinamento apostólico; praticam relacionamentos interpessoais de alta
qualidade (inclusive através da comunhão dos bens espirituais e materiais);
fazem memória do Senhor mediante a “fração do pão”, isto é, a Eucaristia, e
dialogam com Deus na oração. São estas as atitudes do cristão, as quatro
caraterísticas de um bom cristão.
Contrariamente à sociedade humana, onde se tende a perseguir
os próprios interesses, prescindindo ou até em detrimento do próximo, a
comunidade dos crentes afasta o individualismo para favorecer a partilha e a
solidariedade. Não há lugar para o egoísmo na alma do cristão: se o teu coração
for egoísta, não és cristão, és um mundano, que só procuras a tua vantagem, o
teu benefício. E Lucas diz-nos que os crentes permanecem juntos (cf. At 2, 44).
A proximidade e a unidade são o estilo dos crentes: próximos, preocupados uns
pelos outros, não para falar mal do outro, não, para ajudar, para se aproximar.
Portanto, a graça do Batismo revela a íntima união entre os
irmãos em Cristo, que são chamados a compartilhar, a identificar-se com os
outros e a dar, «de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45), ou seja,
a generosidade, a esmola, preocupar-se pelo próximo, visitar os doentes, ir ao
encontro dos necessitados, de quantos precisam de consolação.
E precisamente porque escolhe o caminho da comunhão e da
atenção aos carentes, esta fraternidade que é a Igreja pode levar uma vida
litúrgica verdadeira e autêntica. Lucas diz: «Frequentavam diariamente o
templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e
simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo»
(At 2, 46-47).
Enfim, a narração dos Atos recorda-nos que o Senhor garante o
crescimento da comunidade (cf. 2, 47): a perseverança dos crentes na aliança
genuína com Deus e com os irmãos torna-se força atrativa que fascina e
conquista muitas pessoas (cf. Evangelii gaudium, 14), um princípio graças ao
qual a comunidade de crentes de todos os tempos vive.
Oremos ao Espírito Santo a fim de que faça das nossas
comunidades lugares onde receber e praticar a vida nova, as obras de
solidariedade e de comunhão, lugares onde as liturgias sejam um encontro com
Deus, que se torna comunhão com os irmãos e irmãs, lugares que sejam portas
abertas para a Jerusalém celestial.
Papa Francisco
catequese na audiência geral 26.06.2019
Texto, retirado do site
“Catequese do Brasil”, www.catequesedobrasil.org.br/ em 13.07.2019.
Imagem, retirada da "Google Imagens".
sexta-feira, 5 de julho de 2019
A vocação de São Francisco
Oração Inicial:
Ó glorioso Deus altíssimo,
ilumina as trevas do meu coração,
concede-me uma fé verdadeira,
uma esperança firme
e um amor perfeito.
Mostra-me, Senhor,
o reto sentido e conhecimento,
a fim de que possa cumprir
a tua santa e verdadeira vontade.
ilumina as trevas do meu coração,
concede-me uma fé verdadeira,
uma esperança firme
e um amor perfeito.
Mostra-me, Senhor,
o reto sentido e conhecimento,
a fim de que possa cumprir
a tua santa e verdadeira vontade.
O que é a Vocação?
O tema a aprofundar hoje será a Vocação de São
Francisco de Assis. No entanto, para compreendermos verdadeiramente como se foi
desenvolvendo a vocação na sua vida, é importante que nos questionemos primeiro
o que é a Vocação e a que tipo e vocação nos estamos a referir.
Muitas vezes já ouvimos dizer que o João tem vocação
para a música ou que a vocação da Maria é ser médica. Nestes dois casos estamos
a falar que determinada pessoa se sente inspirada a fazer algo, que tem jeito
para aquilo. Mas não é a esse tipo de vocação que nos referimos. A vocação a
que nos propomos tratar é muito mais ‘profunda’…
Vocação significa que existe alguém que chama e alguém
que responde a esse chamamento. Mais concretamente, Deus que prepara um projeto
e que chama determinada pessoa a acolher e levar por diante esse projeto, que
foi cuidadosamente preparado por Deus. É de salientar que Ele não obriga
ninguém a aceitar esse projeto, mas propõe, dá liberdade de escolha. Convida a
abandonar o caminho que a pessoa tinha planeado para abraçar o caminho que Deus
lhe propõe. E a pessoa tem a liberdade de dizer que sim, ou não…
E este chamamento não acontece apenas com alguns
eleitos, mas com todos nós. É verdade! Deus chama a todos, mas a vocações
diferentes. Isto porque, como nós não somos iguais, Deus cria um projeto
especial e único para cada um de nós. É como se o projeto estivesse
intrinsecamente unido ao nosso ADN. Assim sendo, o chamamento que faz ao
António será diferente daquele feito à Ana, ainda que por vezes possa ter
inúmeras semelhanças. Podem até ser chamados a caminhar juntos, a partilhar o
mesmo projeto, mas cada um com uma vocação única e peculiar.
A Vocação na Sagrada Escritura - A Vocação do Profeta
Jeremias
A palavra do SENHOR foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te haver
formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua
mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações.» E eu respondi: «Ah!
Senhor DEUS, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem.» Mas o SENHOR
replicou-me: «Não digas: ‘Sou um jovem’. Pois irás aonde Eu te enviar e dirás
tudo o que Eu te mandar. Não terás medo diante deles, pois Eu estou contigo
para te livrar» – oráculo do SENHOR. (Jeremias 1,4-8)
Para Refletir: Deus chama
Jeremias a abraçar a vocação que Deus cuidadosamente preparou para ele.
Jeremias tem medo de não ser capaz de levar por diante tão grande projeto e por
isso vacila. Deus jamais pediria a Jeremias mais do que aquilo que ele seria
capaz de suportar, e por isso Deus dá-lhe confiança, garantindo-lhe a Sua
presença constante a seu lado para o fortalecer e proteger nas dificuldades que
irá encontrar ao longo do caminho. Seguir o caminho proposto por Deus não é
fácil, pois irão aparecer sempre inúmeros obstáculos… mas é certamente o
caminho que conduzirá à maior das alegrias e à verdadeira felicidade.
A Vocação de São Francisco de Assis
Também Francisco foi chamado por Deus a ser sinal e
instrumento da Paz e do Bem, da alegria e do amor de Deus. A forma como cresce
dentro dele esta vocação é bastante pertinente e digna de ser observada com
maior atenção…
(lê o texto individualmente e vai sublinhando o que te
chamar mais à atenção)
Francisco nasceu na cidade de Assis. Sua mãe dera-lhe
o nome de João; mas o pai, ausente quando ele nasceu, ao voltar da França,
deu-lhe o nome de Francisco. Quando chegou à juventude, dotado de espírito
vivo, exerceu o ofício de seu pai, o comércio, mas de modo muito diferente do
dele: era mais generoso e mais alegre, entregava-se aos divertimentos e ao
canto, e vagueava, dia e noite, pela cidade, com amigos da sua idade. Era tão
liberal nos gastos, que dissipava em festas e banquetes tudo o que tinha ou
ganhava. Seus pais repreendiam-no por esbanjar o dinheiro consigo e com os
outros. Quem o visse, julgá-lo-ia filho dum príncipe e não de comerciantes.
Mas, como eram ricos e o amavam ternamente, iam suportando tudo, não o querendo
desgostar por tais fantasias. Ele, sempre mais pródigo, também não tinha
moderação na maneira de vestir: mandava fazer roupas mais ricas que as que
convinham à sua condição social.
Certa noite, durante o sono, apareceu-lhe um homem;
chamando-o pelo seu nome, conduziu-o a um palácio, grande e encantador, cheio
de armas de guerra; havia, suspensos das paredes, escudos refulgentes e todos
os outros objetos próprios do equipamento militar. Cheio de alegria,
interrogava-se com espanto o que significaria aquilo. Depois perguntou: «A quem
pertencem estas armas que brilham com tanto esplendor, e este palácio tão
encantador?» Ouviu esta resposta: «Todas estas armas, com o palácio, são para
ti e para os teus cavaleiros».
De manhã, levantou-se radiante. Interpretando as
coisas ao jeito do mundo, pois não tinha ainda saboreado o espírito de Deus,
acreditou que o sonho lhe pressagiava honras principescas. Julgando, portanto,
esta visão como o anúncio de grande fortuna, decidiu partir imediatamente para
a Apúlia, para ser armado cavaleiro. Mostrava uma alegria tão grande para além
do habitual, que muitos ficavam surpreendidos e perguntavam-lhe donde lhe vinha
tamanha alegria. «Sei – respondeu – que me tornarei um grande príncipe».
Um dia, quando dormitava, ouviu uma voz a
perguntar-lhe onde queria ir. Revelou com prazer toda a sua ambição. Então a
voz acrescentou: «Quem te pode dar mais, o senhor ou o servo?» Respondeu: «O
Senhor». A voz replicou: «Ora bem; porque deixas o Senhor pelo servo, o
príncipe pelo vassalo?» Então Francisco perguntou: «Que quereis que eu faça,
Senhor?» «Volta para a tua terra – disse a voz – e lá saberás o que deves
fazer, porque a visão que sonhaste, deves interpretá- la de modo completamente
diferente». Acordado, começou a refletir longamente sobre esta nova visão.
Enquanto que a primeira, por assim dizer, o pusera fora de si de alegria, pois
satisfazia os seus desejos de prosperidade temporal, esta recolheu-o todo para
dentro de si. Maravilhado, procurava- lhe o sentido e meditava-a com tanta
atenção, que não conseguiu conciliar o sono no resto da noite. De manhã, tomou
o caminho de Assis, apressado, feliz e alegre em extremo. Esperou com confiança
que Deus, depois de o honrar com esta visão, lhe desse a conhecer a sua vontade
e o aconselhasse para a sua salvação. O seu coração mudara. Renunciou a ir à
Apúlia. Não desejava mais que conformar-se com a vontade divina.
Um dia, em que ele orava ao Senhor com todo o fervor,
falou-lhe uma voz: «Francisco, tudo o que tu amaste e desejaste possuir segundo
a carne, tens agora que o detestar e desprezar, se queres conhecer a minha
vontade. Quando o alcançares, o que outrora te parecia encantador e delicioso,
ser-te-á insuportável e amargo; e no que antes te causava horror, colherás
extrema doçura e suavidade ilimitada».
Confortado por estas palavras e pela graça de Deus,
Francisco passeava um dia a cavalo, não longe de Assis, quando se encontrou com
um leproso. Ordinariamente a vista da lepra causava-lhe calafrios. Nesta
ocasião ele fez violência a si mesmo: desceu do cavalo, ofereceu uma esmola ao
leproso e beijou-o; naquele momento reconheceu a verdade da promessa divina: o
que outrora lhe era amargo, ou seja, a vista e o contacto dos leprosos,
converteu-se em doçura. De facto, a vista dos leprosos era-lhe antes tão
irritante, que não só não os queria ver como não consentia em se aproximar do
lugar em que habitavam. E se alguma vez sucedia passar perto dos seus casebres
ou vê-los, desviava sempre a vista e chegava mesmo a tapar o nariz. Mas a graça
de Deus tornou-o familiar e amigo dos leprosos, a ponto de ficar de bom gosto
em sua companhia e de os servir com humildade.
Algum tempo depois, ao passar perto da igreja de São
Damião, uma voz interior impeliu-o a entrar e orar. Tendo entrado, começou a
rezar com fervor diante da imagem de Cristo Crucificado, a qual lhe falou com
doçura e benevolência: «Francisco, não vês que a minha casa cai em ruínas? Vai
e repara-ma». A tremer e cheio de assombro, respondeu: «Vou fazê-lo
prontamente, Senhor». Compreendeu tratar-se da igreja de São Damião, com muitos
sinais de velhice, que faziam prever ruína próxima. As palavras divinas
encheram-no de alegria e a sua alma iluminou-se de viva luz.
Um dia ouviu, durante a celebração da missa, o que
Cristo recomendou aos seus discípulos quando os enviou a pregar: não levar para
a viagem nem ouro, nem prata, nem bolsa, nem pão, nem bastão; não usar calçado,
não possuir duas túnicas. Compreendeu mais claramente estas palavras, quando em
seguida pediu ao padre que lhas explicasse. Então, cheio de indizível alegria,
exclamou: «Eis o que quero realizar, com todas as minhas forças». Confiando à
memória todos os conselhos ouvidos, alegremente se esforçou por pô-los em
prática. Sem hesitar, desembaraçou-se da túnica dupla; e, a partir deste
momento, não mais usou o bastão, nem calçado, nem saco, nem bolsa. Manda fazer
uma túnica muito pobre e grosseira; deita fora a correia e, para cinto, toma
uma corda. Põe toda a solicitude do seu coração em escutar as inspirações desta
nova graça e pergunta- se como poderá transpô-las para a sua vida. Levado por
impulso divino, fez-se o arauto da perfeição evangélica e começou a pregar a
penitência ao povo em linguagem familiar.
Pouco a pouco o bem-aventurado Francisco dava-se a
conhecer, na verdade e simplicidade da sua doutrina e da sua vida, de modo que,
dois anos após a sua conversão, alguns homens, empolgados pelo seu exemplo,
decidiram fazer penitência e, renunciando a todas as coisas do mundo, quiseram
juntar-se a ele pelo hábito e pela vida (Cf. Legenda dos Três Companheiros).
Para refletir: Francisco de
Assis, tal como tantos jovens do seu tempo desejava ser cavaleiro, ambicionava
ser alguém importante, de grande reconhecimento diante dos outros. Deus
inicialmente pareceu confirmar os seus planos, mostrando-lhe que tinha grandes
projetos para Francisco. No entanto, o caminho apresentado por Deus para
alcançar tal meta era bem diferente daquele idealizado por Francisco. Aqui
surge o mérito de Francisco: ser capaz não apenas de escutar, mas
principalmente de acolher a voz que fala ao seu coração, de estar disponível
para ouvir e predispor-se a percorrer novos caminhos.
O grande e ambicioso projeto é de Deus. Projeto esse
que, sabemos nós hoje, levará Francisco a fazer grandes coisas.… mas para isso
Francisco deveria renunciar aos seus projetos pessoais, deveria deixar-se
conduzir por caminhos que até então lhe davam a maior repulsa. Francisco queria
subir, mas Deus diz-lhe que tem que descer. Francisco queria ser o maior, Deus
diz-lhe que deverá ser o último. E, pouco a pouco, Francisco compreenderá que
aquilo que inicialmente lhe parecia amargo se converterá em doçura de alma e de
corpo.
Podemos então dizer que o grande mérito de Francisco
está simplesmente no dizer SIM… e não foi coisa pouca. Francisco teve a coragem
de dar o seu Sim, de acolher a vocação que Deus tinha preparado para ele, mas
acima de tudo, de permanecer fiel a esse Sim, a essa vocação, até ao fim…
(Após a leitura e breve reflexão individual deverão
juntar-se em pequenos grupos, onde cada um possa partilhar as suas
impressões. Após a discussão nos grupos, reúnem-se todos e partilham de
modo resumido os pontos essenciais falados).
Breve introdução à realidade atual
Após a partilha, poderão colocar-se algumas questões
para discussão… como por exemplo…
a) Como pode Francisco de Assis ser inspiração para
nós hoje?
b) Sinto que também eu estou a abraçar a Vocação à
qual Deus me chama?
c). Como posso viver a minha vocação no grupo de
jovens, na Igreja e no mundo?
Oração final:
Deus Pai de Misericórdia, nós te pedimos que continues
a tocar os corações de todos os Teus filhos e a chamar ‘trabalhadores para a
Tua vinha’, como fizeste com São Francisco de Assis e tantos outros. Tu que
conheces o mais íntimo na nossa alma, converte-nos também a nós ao Teu amor, e
ajuda-nos a dizermos o nosso SIM à Tua vontade. E, seguindo os Teus caminhos,
nos tornemos verdadeiros sinais e instrumentos do Teu amor. Por nosso Senhor
Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Ámen.
Texto e imagem retirado do site dos Franciscanos Capuchinhos, https://capuchinhos.org, em 06.07.2019.
segunda-feira, 10 de junho de 2019
SOLENIDADE DE PENTECOSTES-HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
SANTA MISSA NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
HOMILIA DO PAPA
FRANCISCO
Praça São Pedro
Domingo, 9 de junho de 2019
Domingo, 9 de junho de 2019
O Pentecostes chegou, para os discípulos, depois de
cinquenta dias incertos. Por um lado, Jesus ressuscitara: cheios de alegria,
tinham-No visto, escutado e até comido com Ele. Por outro, ainda não superaram
dúvidas e temores: estavam com as portas fechadas (cf. Jo 20,
19.26), com perspetivas reduzidas, incapazes de anunciar o Vivente. Depois,
chega o Espírito Santo e as preocupações desaparecem: agora os Apóstolos não
têm medo nem sequer à vista de quem os prende; antes, preocupados por salvar a
sua vida, agora já não têm medo de morrer; antes, fechados no Cenáculo, agora
levam o anúncio a todas as nações. Até à Ascensão de Jesus, aguardavam um Reino
de Deus para eles (cf. At 1, 6), agora estão ansiosos por
alcançar fronteiras desconhecidas. Antes, quase nunca falaram em público e
muitas vezes, quando o fizeram, criaram problemas como Pedro que renegou Jesus;
agora falam corajosamente a todos. Em resumo, a história dos discípulos, que
parecia ter chegado ao fim, é renovada pela juventude do Espírito:
aqueles jovens, que dominados pela incerteza se sentiam no fim, foram
transformados por uma alegria que os fez renascer. Foi o Espírito Santo que fez
isto. O Espírito não é, como poderia parecer, uma coisa abstrata; é a Pessoa
mais concreta, mais próxima, aquela que muda a nossa vida. E como faz? Vejamos
os Apóstolos. O Espírito não lhes tornou as coisas mais fáceis, não fez
milagres espetaculares, não eliminou problemas nem opositores, mas o Espírito
trouxe para a vida dos discípulos uma harmonia que faltava: a Sua, porque Ele
é harmonia.
Harmonia dentro do homem. Era dentro, no coração, que os
discípulos precisavam de ser mudados. A sua história diz-nos que a própria
visão do Ressuscitado não basta; é preciso acolhê-Lo no coração. De nada
aproveita saber que o Ressuscitado está vivo, se não se vive como
ressuscitados. E é o Espírito que faz viver e ressurgir Jesus em nós, que nos
ressuscita dentro. Por isso Jesus, ao encontrar os Seus, repete: «A paz esteja
convosco» (Jo 20, 19.21) e dá o Espírito. A paz não consiste em
resolver os problemas a partir de fora – Deus não tira aos Seus tribulações e
perseguições –, mas em receber o Espírito Santo. Nisto consiste a paz, aquela
paz dada aos Apóstolos, aquela paz que não livra dos problemas,
mas, nos problemas, é oferecida a cada um de nós. É uma paz
que torna o coração semelhante ao mar profundo: permanece tranquilo, mesmo
quando as ondas estão revoltas à superfície. É uma harmonia tão profunda que
pode até transformar as perseguições em bem-aventurança. Mas, em vez disso,
quantas vezes permanecemos à superfície! Em vez de procurar o Espírito,
tentamos flutuar, pensando que tudo ficará bem se certo problema passar, se não
virmos mais tal pessoa, se melhorar aquela situação. Mas isto é permanecer à
superfície: superado um problema, chegará outro; e a ansiedade voltará. Não é
afastando-nos de quem pensa diferente de nós que ficaremos tranquilos, não é
resolvendo o problema presente que estaremos em paz. O ponto de mudança é a paz
de Jesus, é a harmonia do Espírito.
Com a pressa que o nosso tempo nos impõe, parece que a
harmonia esteja posta de lado: reclamados por uma infinidade de coisas,
arriscamo-nos a explodir, solicitados por um nervosismo contínuo que nos faz
reagir mal a tudo. E procura-se a solução rápida: uma pastilha atrás doutra
para continuar, uma emoção atrás doutra para se sentir vivo, quando na verdade
aquilo de que precisamos é sobretudo o Espírito. É Ele que coloca ordem neste
frenesi. É paz na ansiedade, confiança no desânimo, alegria na tristeza,
juventude na velhice, coragem na prova. É Ele que, no meio das correntes
tempestuosas da vida, mantém firme a âncora da esperança. Como nos diz hoje São
Paulo, é o Espírito que nos impede de recair no medo, fazendo-nos sentir filhos
amados (cf. Rm8, 15). É o Consolador, que nos transmite a ternura
de Deus. Sem o Espírito, a vida cristã desfia-se, privada do amor que tudo une.
Sem o Espírito, Jesus permanece um personagem do passado; com o Espírito, é
pessoa viva hoje. Sem o Espírito, a Escritura é letra morta; com o Espírito, é
Palavra de vida. Um cristianismo sem o Espírito é um moralismo sem alegria; com
o Espírito, é vida.
O Espírito Santo produz harmonia não só dentro,
mas também fora, entre os homens. Faz-nos Igreja, compõe partes
distintas num único edifício harmónico. Explica-o bem São Paulo que, ao falar
da Igreja, repete muitas vezes a palavra «diferente»: «diferentes carismas, diferentes atividades, diferentes ministérios»
(cf. 1 Cor 12, 4-6). Somos diferentes, na variedade das
qualidades e dos dons. O Espírito distribui-os com criatividade, sem rebaixar
nem nivelar. E, a partir desta diversidade, constrói a unidade. Assim procede
desde a criação, porque é especialista em transformar o caos em cosmo, em criar
harmonia. Ele é especialista em criar as diversidades, as riquezas; cada um com
a sua, diversa. Ele é o criador desta diversidade e, ao mesmo tempo, é Aquele
que harmoniza, que dá harmonia, e dá unidade na diversidade. Somente Ele pode
fazer estas duas coisas.
Hoje, no mundo, as desarmonias tornaram-se verdadeiras
divisões: há quem tenha demais e quem não tem nada, há quem procure viver cem
anos e quem não pode vir à luz. Na era dos computadores, permanece-se à
distância: mais sociedade, mas menos sociais. Precisamos do Espírito de
unidade, que nos regenere como Igreja, como Povo de Deus e como humanidade
inteira. Que nos regenere. Há sempre a tentação de construir «ninhos»:
reunir-se à volta do próprio grupo, das próprias preferências, o semelhante com
o semelhante, alérgicos a toda a contaminação. E do ninho à seita, o passo é
curto, mesmo dentro da Igreja. Quantas vezes se define a própria identidade
contra alguém ou contra alguma coisa! Pelo contrário, o Espírito Santo junta os
distantes, une os afastados, reconduz os dispersos. Funde tonalidades diferentes
numa única harmonia, porque em primeiro lugar vê o bem, vê o homem antes dos
seus erros, as pessoas antes das suas ações. O Espírito molda a Igreja, molda o
mundo como espaços de filhos e de irmãos. Filhos e irmãos: substantivos que vêm
antes de qualquer adjetivo. Está na moda adjetivar, se não mesmo, infelizmente,
insultar. Podemos dizer que vivemos na cultura do adjetivo que esquece do
substantivo das coisas; e também numa cultura do insulto, que é a primeira
resposta para uma opinião que eu não compartilho. Depois damo-nos conta de que
faz mal a quem é insultado, mas também a quem insulta. Retribuindo o mal com
mal, passando de vítimas a verdugos, não se vive bem. Pelo contrário, quem vive
segundo o Espírito leva paz onde há discórdia, concórdia onde há conflito. Os
homens espirituais retribuem o mal com bem, respondem à arrogância com a
mansidão, à maldade com a bondade, à barafunda com o silêncio, às maledicências
com a oração, ao derrotismo com o sorriso.
Para ser espirituais, para saborear a harmonia do
Espírito, é preciso colocar a sua visão à frente da nossa. Então as coisas
mudam: com o Espírito, a Igreja é o Povo santo de Deus, a missão é o contágio
da alegria - não o proselitismo - os outros são irmãos e irmãs amados pelo
mesmo Pai. Mas, sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é
propaganda, a comunhão é um esforço. E tantas Igrejas fazem acções
programáticas no sentido de planos de pastoral, de discussões sobre todas as
coisas. Pode parecer que este seja o caminho para nos unir, porém este não é o
caminho do Espírito, é o caminho da divisão. A primeira e a derradeira
necessidade da Igreja é o Espírito (cf. São Paulo VI, Catequese na
Audiência Geral de 29/XI/1972). Ele «vem aonde é amado, aonde é convidado,
aonde é esperado» (São Boaventura, Sermão para o IV Domingo depois da
Páscoa). Irmãos e irmãs, rezemos-Lhe diariamente. Espírito Santo, harmonia
de Deus! Vós que transformais o medo em confiança e o fechamento em dom, vinde
a nós. Dai-nos a alegria da ressurreição, a perene juventude do coração.
Espírito Santo, nossa harmonia! Vós que fazeis de nós um só corpo, infundi a
vossa paz na Igreja e no mundo. Espírito Santo: tornai-nos artesãos de
concórdia, semeadores de bem, apóstolos de esperança.
Imagem: Retirada
do “Google Imagens”;
domingo, 9 de junho de 2019
Esprit de dieu, souffle de vie
Refrão: Espírito de Deus, sopro de vida,
Espírito de Deus, sopro de fogo,
Espírito de Deus, consolador,
Tu nos santificas.
Vem aos nossos corações,
Vem Espírito, vem visitar-nos
Vem Espírito vivificar-nos,
Vem, nós Te esperamos!
Vem , Espírito de santidade,
Vem Espírito de verdade,
Vem Espírito de caridade,
Vem, nós Te esperamos!
Vem, Espírito, vem reunir-nos,
Vem, Espírito, fortalecer-nos,
Vem, Espírito, vem recriar-nos,
Vem, nós Te esperamos!
domingo, 2 de junho de 2019
Ascensão: bênção que se expande sobre a humanidade
“Então Jesus levou-os para fora, até perto de
Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os.
Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu” (Lc 24,50-51)
Agora
que estamos chegando ao final do tempo pascal, vale a pena notar que a Páscoa,
chave, centro e ponto de partida da fé cristã, é um acontecimento de uma
riqueza tal que é impossível descrevê-lo com uma só imagem. Por isso,
celebramos o mistério pascal durante cinquenta dias, e logo prolongamos esta
celebração cada domingo. Trata-se de um acontecimento único, embora nós, para
entendê-lo melhor, o celebremos por etapas. Dito de outra maneira: Paixão,
Páscoa, Ascensão e Pentecostes são a mesma realidade. Pode-se falar de quatro
momentos, mas, na realidade são distintas perspectivas do mesmo Mistério.
Quê
estamos celebrando com a Ascensão? A Ascensão é mais um aspecto da cristologia
pascal.
Cristo
alcançou, na Ascensão, uma situação e um estado de infinitude que lhe permite
preencher tudo com sua presença definitiva, e para comunicar-nos sua presença
divina. Portanto, não se trata de uma Ascensão para um lugar físico que o
afastaria para longe da humanidade.
A
nuvem que o “oculta”, enquanto subia ao céu, não está nos indicando sua
“ausência”, mas uma forma distinta de sua presença. Daqui em diante, Jesus
estará presente entre nós através de seu Espírito, cuja missão é ser memória
permanente e dinâmica para que não nos esqueçamos do que Ele disse e fez.
Precisamos
recordar que, terminada a presença histórica de Jesus, vivemos o “tempo do
Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável. O Espírito não
nos proporciona a nós, seguidores(as) de Jesus, “receitas eternas”. Mas nos dá
luz e ânimo para buscar caminhos sempre novos a fim de prolongar hoje o modo
original de ser e de atuar de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade
completa de Jesus.
Lucas,
o único evangelista que fala de ascensão, termina seu relato apresentando-nos
os discípulos como que pasmados, olhando para o alto e a alguns personagens
vestidos de branco que lhes repreendem: “Homens da Galileia, porque estás aí
olhando ao céu?”
Como
Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude da vida não é “subir”, mas é
“descer” até o mais profundo de nosso ser. Aquele que mais desceu é o que subiu
mais alto.
Jesus
deixou suas pegadas cravadas na terra, mas os discípulos ficaram assombrados
com o olhar fixo nas alturas. Ao céu só se chega caminhando para as profundezas
de nosso ser, pois só no mais profundo de cada um (céu interior), podemos
encontrar o divino.
Não
causa estranheza que, ao narrar a despedida de Jesus deste mundo, Lucas
descreva de forma surpreendente: Jesus ergue as mãos e “abençoa” seus
discípulos. É seu último gesto. Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e
abençoando os seus seguidores. Ele entra no mistério insondável de Deus e sobre
o mundo faz descer sua bênção. Jesus deixa atrás de si sua bênção. Os
discípulos, envolvidos por sua bênção, respondem ao gesto de Jesus indo ao
templo cheios de alegria. E estavam ali “bendizendo” a Deus.
Saboreando
com mais profundidade a narrativa da Ascensão, caímos na conta da insistência
de Lucas no tema do bendizer de Jesus: “levantando as mãos os abençoou e
enquanto os abençoava, se afastou deles...”.
Ao
fixar a atenção no seu “bendizer” e fazendo uma tradução ao pé da letra do
verbo grego “eu-logeo” (“eu”= bem; “logeo”= dizer), ficamos surpresos de que
Jesus sobe aos céus dizendo coisas boas de seus discípulos e deixando um
“informe final” sobre eles, claramente positivo.
É
como se, antes de partir, Jesus tivesse redigido sua avaliação para prestar
contas ao Pai e, para alívio nosso, revela-se satisfatória e elogiosa: somos
boa gente, com pontos da vida a serem melhorados com certeza, mas, no conjunto,
estamos bem. Ele leva anotadas muitas coisas boas de nossas vidas para
contá-las ao Pai.
Vamos
agora contemplar o gesto das mãos de Jesus que abençoam.
Jesus
sempre gostou de “abençoar”. Abençoou as crianças, os pobres, os doentes e
desventurados. Seu gesto era carregado de fé e de amor. Ele desejava envolver
aqueles que mais sofriam, com a compaixão, a proteção e a bênção de Deus.
A
partir de então, seus(suas) seguidores(as) começam sua caminhada, animados por
aquela bênção com a qual Jesus curava os doentes, perdoava os pecadores e
acariciava os pequenos.
Nós,
seguidores(as) de Jesus, somos portadores(as) e testemunhas de sua bênção no
mundo.
Como
cristãos, esquecemo-nos que somos canais da bênção de Jesus. A nossa primeira
tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus. Manter viva a esperança, não nos
rendermos diante de tanto “maldizer”.
Deus
olha a humanidade com ternura e compaixão.
Já
faz muito tempo que esquecemos isso, mas a Igreja deve ser, no meio do mundo,
uma fonte de bênção. Num mundo onde é tão frequente “maldizer”, condenar,
prejudicar e difamar, é mais necessária do que nunca a presença de
seguidores(as) de Jesus que saibam “abençoar”, buscar o bem, dizer bem, fazer o
bem, atrair para o bem.
A
bênção é uma prática enraizada em quase todas as culturas como o melhor desejo
que podemos despertar para com os outros. O judaísmo, o islamismo e o
cristianismo lhe deram sempre grande importância. E, embora em nossos dias
tenha sido reduzida a um ritual quase em desuso, não são poucos os que ainda
destacam seu conteúdo profundo e a necessidade de recuperá-la.
Abençoar
é, antes de mais nada, desejar o bem às pessoas que encontramos em nosso
caminho. Querer o bem de maneira incondicional e sem reservas. Querer a saúde,
o bem-estar, a alegria..., tudo o que pode ajudá-las a viver com dignidade.
Quanto mais desejamos o bem para todos, mais possível é sua manifestação.
Abençoar
é aprender a viver a partir de uma atitude básica de amor à vida e às pessoas.
Aquele que abençoa esvazia seu coração de outras atitudes pouco sadias, como a
agressividade, o medo, a hostilidade ou a indiferença. Não é possível abençoar
e ao mesmo tempo viver condenando, rejeitando, odiando.
Abençoar
é desejar a alguém o bem do mais profundo de nosso ser, mesmo que nós não
sejamos a fonte da bênção, mas apenas suas testemunhas e portadores. Aquele que
abençoa não faz senão evocar, desejar e pedir a presença bondosa do Criador,
fonte de todo bem. Por isso, só se pode abençoar numa atitude de agradecimento
a Deus.
A
bênção faz bem a quem a recebe e a quem a pratica. Quem abençoa os outros abençoa-se
a si mesmo. A bênção fica ressoando em seu interior, como prece silenciosa que
vai transformando seu coração, tornando-o melhor e mais nobre. Ninguém pode
sentir-se bem consigo mesmo enquanto continua maldizendo o outro no fundo do
seu ser. Não é possível ser canal de bênção do Criador se do próprio coração
brotam palavras de intolerância, de preconceito e julgamento. “Maldizer” o
outro é maldizer-se a si mesmo.
Texto bíblico: Lc 24,46-53
Na oração: Fazer memória dos
momentos em que você foi canal de bênção para muitas pessoas.
-
Você usa as redes sociais para “bendizer” ou “mal-dizer”?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
"Retirado
em 02.06.2019 do site - CATEQUESE Hoje-" www.catequesehoje.org.br "- Um site
com brasileiro com muita qualidade!"
Imagem- Retirada da
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