segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Jesus está presente, mas esperemos vigilantes (...)


PAPA FRANCISCO

ANGELUS

Praça São Pedro
Domingo, 27 de novembro de 2022

 

Estimados irmãos e irmãs, bom dia, feliz domingo!

No Evangelho da Liturgia de hoje ouvimos uma bonita promessa que nos introduz no Tempo de Advento: «Virá o vosso Senhor» (Mt 24, 42). Este é o fundamento da nossa esperança, é o que nos sustenta até nos momentos mais difíceis e dolorosos da nossa vida: Deus vem, Deus está próximo e vem. Nunca nos esqueçamos disto! O Senhor vem sempre, o Senhor visita-nos, o Senhor está próximo, e voltará no final dos tempos para nos acolher no seu abraço. Diante desta palavra, perguntamo-nos: como vem o Senhor? E como o reconhecemos e acolhemos? Reflitamos brevemente sobre estas duas perguntas.

A primeira pergunta: como vem o Senhor? Tantas vezes ouvimos dizer que o Senhor está presente no nosso caminho, que Ele nos acompanha e nos fala. Mas talvez, distraídos como estamos por tantas coisas, esta verdade permanece para nós apenas teórica; sim, sabemos que o Senhor vem, mas não vivemos esta verdade ou imaginamos que o Senhor vem de uma forma sensacional, talvez através de algum sinal prodigioso. Ao contrário, Jesus diz que isso acontecerá “como nos dias de Noé” (cf. v. 37). E o que faziam nos dias de Noé?   Simplesmente as coisas normais e quotidianas da vida, como sempre: «comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento» (v. 38). Tenhamos isto em mente: Deus está escondido na nossa vida, Ele está sempre ali, Ele está escondido nas situações mais comuns e ordinárias da nossa vida. Ele não vem em eventos extraordinários, mas nas coisas do dia a dia, Ele manifesta-se nas coisas de todos os dias. Ele está ali, no nosso trabalho diário, num encontro casual, no rosto de uma pessoa em necessidade, inclusive quando enfrentamos dias que parecem cinzentos e monótonos, precisamente ali está o Senhor, que nos chama, fala-nos e inspira as nossas ações.

No entanto, há uma segunda pergunta: como reconhecer e acolher o Senhor? Devemos permanecer acordados, alerta, vigilantes. Jesus avisa-nos: há o perigo de não perceber a sua vinda e de não estar preparado para a sua visita. Recordei noutras ocasiões o que Santo Agostinho disse: «Temo o Senhor que passa» (Serm. 88.14.13), ou seja, temo que Ele passe e eu não O reconheça! De facto, Jesus diz das pessoas do tempo de Noé que comiam e bebiam «e não deram por nada até chegar o dilúvio» (v. 39). Prestemos atenção a isto: eles não repararam em nada! Estavam preocupados com as próprias coisas e não se aperceberam que o dilúvio estava a chegar. De facto, Jesus diz que quando Ele vier, «estarão dois homens no campo: um será levado e o outro será deixado» (v. 40). Em que sentido? Qual é a diferença? Simplesmente que um foi vigilante, esperava, capaz de discernir a presença de Deus na vida diária; o outro, ao contrário, estava distraído, “ia vivendo”, e não se deu conta de nada.

Irmãos e irmãs, neste tempo de Advento, deixemo-nos despertar do torpor e acordemos do sono! Perguntemo-nos: estou consciente do que vivo, estou alerta, estou desperto? Procuremos perguntar-nos: estou ciente daquilo que vivo, estou atento, estou acordado? Procuro reconhecer a presença de Deus nas situações quotidianas, ou estou distraído e um pouco sobrecarregado com as coisas? Se hoje não estivermos conscientes da sua vinda, também não estaremos preparados quando ele chegar no final dos tempos. Portanto, irmãos e irmãs, mantenhamo-nos vigilantes! À espera que o Senhor venha, à espera que o Senhor se aproxime de nós, pois Ele está presente, mas esperemos vigilantes. Que a Virgem Santa, Mulher da espera, que soube captar a passagem de Deus na vida humilde e escondida de Nazaré e o acolheu no seu ventre, nos ajude neste caminho a estar atentos para esperar o Senhor que está entre nós e passa.

Texto: Retirado do Site do Vaticano - http://www.vatican.va/

Imagem: Retirada da "Google imagens".

Jesus, remember me | Taizé

sábado, 5 de novembro de 2022

Céleste Jérusalem — Chant de l'Emmanuel

Nossa morada encontra-se nos Céus,

Nós veremos a Esposa do Cordeiro

Toda adornada com a glória de Deus:

Celeste Jerusalém!


O Cordeiro será a nossa luz.

Já não precisaremos do Sol,

A noite deixará de existir

O próprio Deus nos iluminará!


Não haverá mais gritos nem dor

E as nossas lágrimas cessarão

Deus viverá no meio de nós

E um novo mundo surgirá!

(...)


Regressar ao caminho verdadeiro como Jacob...

O Patriarca Jacob

Rabi Elisha Salas

"Jacob tendo ficado só, alguém lutou com ele até ao romper da aurora.Vendo que não podia vencer Jacob, bateu-lhe na coxa, e a coxa de Jacob deslocou-se, quando lutava com ele. E disse-lhe:«Deixa-me partir, porque já rompe a aurora».Jacob respondeu: «Não te deixarei partir enquanto não me abençoares.» Perguntou-lhe então: «Qual é o teu nome?» Ao que ele respondeu: «Jacob.» E o outro continuou: «O teu nome não será mais Jacob, mas Israel; porque combateste contra Deus e contra os homens e conseguiste resistir.» Jacob interrogou-o, dizendo: «Peço-te que me digas o teu nome.» «Porque me perguntas o meu nome?» - respondeu ele. E então abençoou-o. Jacob chamou àquele lugar Penuel; «porque vi um ser divino, face a face, e conservei a vida» - disse ele. O sol principiara a levantar-se, quando Jacob deixou Penuel, coxeando por causa da sua coxa. *É por isso que os filhos de Israel não comem, ainda hoje, o nervo ciático que está na cavidade da coxa porque Jacob foi ferido no nervo ciático da coxa, que ficou paralisado." (Gn 32, 25-33)

 Luta de Jacob e o Anjo. Pintura do francês Alexander Louis Leloir

Ao regressar da casa de Labão onde esteve vinte anos, Jacob encontrava-se entre duas frentes de conflito: por um lado, Labão e os seus estavam insatisfeitos com ele, por ele ter levado as duas filhas de Labão, as suas servas e todo o gado a que tinha direito segundo o acordo que tinha feito (Gn.30,25-31;55). Por outro lado, o encontro com o seu irmão Esaú assustava-o; não se viam há vinte anos, e Jacob recordava perfeitamente e que Esaú tinha prometido matá-lo, tendo sido essa a razão da sua fuga da casa dos seus pais. Jacob não sabia se Esaú continuava a odiá-lo ou se o tinha perdoado; não tinha outra opção, já que Deus, Ele próprio, lhe tinha ordenado que regressasse à sua terra (Gn 31,3).

Na sua viagem de regresso, e prevendo já o inevitável encontro com o seu irmão, Jacob planeia este encontro meticulosamente: primeiro envia-lhe mensageiros para o avisar de que vinha ao seu encontro, mas…Más notícias! Os mensageiros regressaram com informação de que Esaú vinha na sua direcção com quatrocentos homens! Isto causou-lhe uma grande preocupação e medo, não só por ele próprio, mas também por toda a sua família. Afinal, talvez Esaú nunca lhe tivesse perdoado e estivessem todos a correr perigo de vida!

Então, no momento da aflição, ao sentir-se encurralado por todos os lados, ele pensa noutra estratégia para melhorar este encontro: separou a sua gente em dois grupos, ambos com uma mensagem especial para Esaú e com muitos animais de oferta para o acalmar. Seguidamente, na sua angústia, sem saber como enfrentar esta situação, Jacob reza a Deus em profundo desespero, pedindo a Sua ajuda: Deus do meu pai Abraão, de Deus do meu pai Isac, Senhor que me disseste ”volta à tua terra, à terra do teu nascimento, far-te-ei bem”. Menor sou eu que todas as beneficências e que toda a fidelidade que fizeste ao Teu servo, pois com o meu cajado passei este Jordão e agora transformei-me em dois acampamentos. Livra-me, peço-Te, da mão de meu irmão…(Gn 32, 9-11).

Nós, os seres humanos, quando nos encontramos em situações de quebra, de grandes dificuldades, de solidão, é nesses momentos que podemos atingir uma transparência total connosco mesmos e com Deus.

Jacob sabe que não tem escapatória. Lembra-se de onde vem (de Charan), lembra-se que é filho de homens amados por Deus (o seu avô e o seu pai), lembra-se das promessas recebidas por parte de Deus (que lhe faria bem) e sabe que não é merecedor das bondades de HaShem: « Menor sou eu que todas as beneficências  e que toda a fidelidade que fizeste ao Teu servo…) Gn 32,10.

Mas a ajuda de Deus ainda não vem. O que fazer?? Ele olha para a sua família e eles aí estão, provavelmente tão preocupados quanto ele, e também sem saberem o que fazer. Jacob não se pode deixar ir abaixo; não quer chorar diante deles. Ele tem que ser forte, mas sabe que não é capaz. Precisa de estar só, de abrir o seu coração a Deus, a sua última esperança.

Surge-lhe  uma nova ideia: passar suas duas famílias para a outra margem do rio que tem à frente e ficar a sós com Deus (Gn 32,22-24).

Jacob fica então só e atinge a conexão espiritual necessária. De repente, os seus olhos abrem-se e vê Aquele que esteve sempre ao seu lado, mas que ele não via: um anjo, com o qual Jacob luta até ao amanhecer, talvez fazendo uma profunda auto-avaliação de consciência, uma introspecção, reflectindo sobre a sua vida, os erros cometidos, os actos imaturos que cometeu contra seu irmão, contra os seus pais...Ali está Jacob, a sós com os seus defeitos, e disposto a mudar. Talvez o anjo, ao enfrentá-lo o tenha feito reagir; é como um bom amigo que nos chama à atenção pelas nossas atitudes (ou falta delas), e que nos leva a fazer as mudanças de vida necessárias para nos transformarmos no homem que Deus vê em nós, mas nós, cegos, nunca tínhamos aberto os olhos para esse potencial; nunca tínhamos parado para nos conhecermos a nós próprios.

Chega o momento da despedida do anjo. Aquele anjo que obrigou Jacob a ver-se como era e como deveria ser, e Jacob não o  quer deixar ir. Ele sente-se diferente, tem algo diferente dentro de si, talvez sempre tenha lá estado mas ele não o deixava aparecer…Agora sim, está bem presente. Ao  ver que o sol nasce e que tem que enfrentar a realidade do temido encontro com o seu irmão, Jacob não que deixar o anjo partir, mas é inevitável, como se o anjo lhe dissesse: «O dia está a chegar e com ele a realidade; só tu podes enfrentá-la». Ao responder à pergunta do anjo-Como te chamas? –Jacob foi forçado a reencontrar-se com o seu próprio nome, representativo dos erros do seu passado: Jacob que comprou a primogenitura ao seu irmão por um simples prato de lentilhas, aproveitando-se de um momento de fraqueza dele-, Jacob que enganou o velho pai, aproveitando-se da sua cegueira; Jacob, que se foi apropriando sub-repticiamente dos rebanhos de Labão  com os estratagema das varas no bebedouro…

Toda a vida de Jacob, o seu nascimento, os ciúmes do irmão, a sua fuga de casa, a sua vida com Labão, com as sua mulheres, os seus filhos, a mudança que teve que fazer na sua vida para se tornar pastor quando em casa de seus pais «habitava em tendas» (Gn 25,27), as suas noites solitárias e frias com o gado, a saída de casa de Labão e o inevitável reencontro com Esaú…Tudo aquilo que passou trouxeram-no até este grande momento de transformação.

Então, revelando e confirmando a mudança total operada em Jacob, surge a resposta do anjo: o teu nome já não será Jacob, mas ISRAEL-[]-que significa «Deus é recto, transparente, verdadeiro». A Torá mostra-nos, desde Abraão, a importância do significado dos nomes na vida das pessoas, a capacidade que os nomes têm de influenciar a personalidade e os comportamento humanos e esta é, talvez, a mudança de nome mais representativa que a Torá nos apresenta.

Aprendamos com Jacob a reconhecer a necessidade de mudança nas nossas próprias vidas, e não deixarmos escapar os movimentos altos de transformação que a vida nos proporciona. Saibamos agarrá-los e aproveitá-los ao máximo. Esta é uma das ideias importantes do Judaísmo: a noção de Teshuvá (regressar ao caminho verdadeiro). Enfrentarmos os erros do nosso passado, assumir-mo-los e decidirmos mudar, para avançar rumo ao futuro como uma nova pessoa.

Texto: Retirado da revista "Biblica", n.º 401 de Agosto de 2022, da Difusora Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos. Uma Revista Fantástica!

Imagem: Retirada da "Google imagens" em 06.11.2022

domingo, 9 de outubro de 2022

Tournez les yeux vers le Seigneur - Chant de l'Emmanuel

Os elementos do discernimento: a familiaridade com o Senhor


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Retomemos as catequeses sobre o tema do discernimento, pois é muito importante o tema do discernimento para saber o que acontece dentro de nós; dos sentimentos e das ideias, devemos discernir de onde veem, para onde me levam, para qual decisão - e hoje concentremo-nos no primeiro dos seus elementos constitutivos, isto é a oração. Para discernir é preciso estar num ambiente, num estado de oração.

A oração é uma ajuda indispensável para o discernimento espiritual, sobretudo quando envolve os afetos, permitindo que nos dirijamos a Deus com simplicidade e familiaridade, como se fala com um amigo. É saber ir além dos pensamentos, entrar em intimidade com o Senhor, com uma espontaneidade afetuosa. O segredo da vida dos santos é a familiaridade e a confidência com Deus, que cresce neles e torna cada vez mais fácil reconhecer o que Lhe agrada. A oração verdadeira é familiaridade e confidência com Deus. Não é recitar orações como um papagaio, blá-blá-blá, não. A verdadeira oração é aquela espontaneidade e afeto com o Senhor. Esta familiaridade supera o medo ou a dúvida de que a sua vontade não é para o nosso bem, uma tentação que às vezes atravessa os nossos pensamentos, tornando o coração inquieto e incerto ou até amargo.

O discernimento não pretende uma certeza absoluta – não é quimicamente um puro método, não, pretende uma certeza absoluta porque diz respeito à vida, e a vida nem sempre é lógica, apresenta muitos aspetos que não se deixam encerrar numa única categoria de pensamento. Gostaríamos de saber exatamente o que se deveria fazer, e, no entanto, até quando acontece, nem por isso agimos sempre em conformidade. Quantas vezes também nós vivemos a experiência descrita pelo apóstolo Paulo, que diz assim: «Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero» (Rm 7, 19). Não somos apenas razão, não somos máquinas, não é suficiente receber instruções para as pôr em prática: os obstáculos, assim como as ajudas, a decidir-se pelo Senhor são acima de tudo afetivos, do coração.

É significativo que o primeiro milagre realizado por Jesus no Evangelho de Marcos seja um exorcismo (cf. 1, 21-28). Na sinagoga de Cafarnaum, liberta um homem do demónio, livrando-o da falsa imagem de Deus que Satanás sugere desde as origens: a de um Deus que não quer a nossa felicidade. O endemoninhado daquele trecho de Evangelho, sabe que Jesus é Deus, mas isto não o leva a acreditar n’Ele. Com efeito, diz: «Vieste arruinar-nos» (v. 24).

Muitas pessoas, inclusive cristãos, pensam a mesma coisa: que Jesus pode até ser o Filho de Deus, mas duvidam que Ele quer a nossa felicidade; aliás, alguns temem que levar a sério a sua proposta, o que Jesus nos propõe,  signifique arruinar a vida, mortificar os nossos desejos, as nossas aspirações mais fortes. Às vezes surgem dentro de nós estes pensamentos: que Deus nos pede demasiado, temos medo de que Deus nos peça demasiado, que não nos ame verdadeiramente. Ao contrário, na nossa primeira audiência vimos que o sinal de um encontro com o Senhor é a alegria. Quando me encontro com o Senhor na oração, fico alegre. Cada um de nós torna-se jubiloso, algo bonito. Por outro lado, a tristeza ou o medo são sinais de distância de Deus: «Se quiseres entrar na vida, observa os mandamentos», diz Jesus ao jovem rico (Mt 19, 17). Infelizmente para aquele jovem, alguns obstáculos não lhe permitiram satisfazer o desejo que tinha no coração, de seguir mais de perto o “bom mestre”. Era um jovem interessado, empreendedor, tinha tomado a iniciativa de se encontrar com Jesus, mas vivia também muito dividido nos afetos; para ele as riquezas eram demasiado importantes. Jesus não o obriga a decidir, mas o texto observa que o jovem se afasta de Jesus «contristado» (v. 22). Quem se afasta do Senhor nunca se sente satisfeito, mesmo que tenha à sua disposição uma grande abundância de bens e possibilidades. Jesus nunca obriga a segui-lo, nunca. Jesus faz-te conhecer a sua vontade, de coração faz com que saibas as coisas, mas deixa-te livre. E isto é o aspeto mais bonito da oração com Jesus: a liberdade que Ele nos deixa. Ao contrário, quando nos afastamos do Senhor permanecemos com alguma coisa triste, algo negativo no coração.

Discernir o que acontece dentro de nós não é fácil, porque as aparências enganam, mas a familiaridade com Deus pode dissipar delicadamente dúvidas e temores, tornando a nossa vida cada vez mais recetiva à sua «luz suave», de acordo com a bonita expressão de São John Henry Newman. Os santos brilham com luz refletida, mostrando nos gestos simples do seu dia a presença amorosa de Deus, que torna possível o impossível. Diz-se que dois cônjuges que viveram juntos durante muito tempo, amando-se, acabam por se assemelhar um ao outro. Algo análogo pode-se dizer da oração afetiva: de modo gradual, mas eficaz, torna-nos cada vez mais capazes de reconhecer o que conta por conaturalidade, como algo que brota das profundezas do nosso ser. Estar em oração não significa pronunciar palavras, palavras, não; estar em oração significa abrir o coração a Jesus, aproximar-se de Jesus, deixar que Jesus entre no meu coração e nos faça sentir a sua presença. E nisto podemos discernir quando é Jesus e quando somos nós com os nossos pensamentos, muitas vezes distantes daquilo que Jesus quer.

Peçamos esta graça: viver uma relação de amizade com o Senhor, como um amigo fala com o amigo (cf. Santo Inácio de Loyola, Exercícios espirituais, 53). Conheci um irmão religioso idoso que era o porteiro de um colégio e cada vez que podia ele aproximava-se da capela, olhava para o altar, e dizia: “olá”, porque tinha proximidade com Jesus. Ele não precisava de dizer blá-blá-blá, não: “olá, estou perto de ti e tu estás perto de mim”. Esta é a relação que devemos ter na oração: proximidade, proximidade afetiva, como irmãos, proximidade com Jesus. Um sorriso, um simples gesto e não recitar palavras que não chegam ao coração. Como eu dizia, falar com Jesus como um amigo fala a outro amigo. É uma graça que devemos pedir uns pelos outros: ver Jesus como o nosso amigo, o nosso maior amigo, o nosso amigo fiel, que não chantageia, sobretudo que nunca nos abandona, nem sequer quando nos afastamos d’Ele. Ele permanece à porta do coração. “Não, não quero saber de nada de ti”, dizemos. E Ele permanece calado, fica ali ao alcance das mãos, ao alcance do coração porque Ele é sempre fiel. Vamos em frente com esta oração, recitamos a prece do “olá”, a oração de saudar o Senhor com o coração, a oração do afeto, a oração da proximidade, com poucas palavras, mas com gestos e com boas obras. Obrigado.

Papa Francisco

Catequese na audiência geral 28.09.22

Texto: Retirado do Site do Vaticano em 09.10.2022- http://www.vatican.va/

Imagem: Retirada da "Google imagens" em 09.10.2022


sábado, 1 de outubro de 2022

O que significa discernir?


Catequeses sobre o discernimento

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje iniciamos um novo ciclo de catequeses: terminámos as catequeses sobre a velhice, agora começamos um novo ciclo sobre o tema do discernimento. Discernir é um ato importante que se refere a todos, pois as escolhas constituem uma parte essencial da vida. Discernir as escolhas. Escolhe-se uma comida, uma roupa, um percurso de estudos, um emprego, uma relação. Em tudo isto realiza-se um projeto de vida, e também se concretiza a nossa relação com Deus.

No Evangelho, Jesus fala do discernimento com imagens tiradas da vida comum; por exemplo, descreve os pescadores que selecionam os peixes bons e descartam os maus; ou o comerciante que sabe identificar, entre muitas pérolas, a de maior valor. Ou aquele que, lavrando um campo, se depara com algo que se revela um tesouro (cf. Mt 13, 44-48).

À luz destes exemplos, o discernimento apresenta-se como um exercício de inteligência, também de perícia e inclusive de vontade, para reconhecer o momento favorável: são estas as condições para fazer uma boa escolha. É preciso inteligência, perícia e também vontade para fazer uma boa escolha. E há ainda um custo necessário para que o discernimento se torne viável. Para desempenhar a sua profissão da melhor forma, o pescador tem em consideração o cansaço, as longas noites passadas no mar, e além disso descarta uma parte da pesca, aceitando uma perda do lucro para o bem daqueles a quem se destina. O mercador de pérolas não hesita em gastar tudo para comprar aquela pérola; e o homem que se deparou com um tesouro faz o mesmo. Situações inesperadas, não programadas, onde é fundamental reconhecer a importância e urgência de uma decisão a tomar. Cada um deve tomar decisões; não há ninguém que as tome por nós. Numa certa altura os adultos, livres, podem pedir conselhos, pensar, mas a decisão é pessoal; não se pode dizer: “Perdi isto, porque o meu marido decidiu, a minha esposa decidiu, o meu irmão decidiu”: não! Tu deves decidir, cada um de nós deve decidir, e por isso é importante saber discernir: para decidir bem, é necessário saber discernir.

O Evangelho sugere outro aspeto importante do discernimento: ele envolve os afetos. Quem encontrou o tesouro não tem dificuldade de vender tudo, tão grande é a sua alegria (cf. Mt 13, 44). O termo usado pelo evangelista Mateus indica uma alegria totalmente especial, que nenhuma realidade humana pode dar; e com efeito, repete-se em pouquíssimas outras passagens do Evangelho, todas elas relativas ao encontro com Deus. É a alegria dos Magos quando, depois de uma viagem longa e árdua, veem de novo a estrela (cf. Mt 2, 10); a alegria, é a alegria das mulheres que regressam do sepulcro vazio, depois de ter ouvido o anúncio da ressurreição, feito pelo anjo (cf. Mt 28, 8). É a alegria de quem encontrou o Senhor! Tomar uma boa decisão, uma decisão certa, leva-te sempre àquela alegria final; talvez ao longo do caminho tenhamos que sofrer um pouco de incerteza, pensar, procurar, mas no final a decisão certa beneficia-te com a alegria.

No juízo final Deus fará um discernimento – um grande discernimento – em relação a nós. As imagens do camponês, do pescador e do comerciante são exemplos do que acontece no Reino dos céus, um Reino que se manifesta nas ações comuns da vida, que exigem uma tomada de posição. Por isso é muito importante saber discernir: as grandes escolhas podem surgir de circunstâncias à primeira vista secundárias, mas que se revelam decisivas. Por exemplo, pensemos no primeiro encontro de André e João com Jesus, um encontro que nasce de uma simples pergunta: “Rabi, onde moras?” – “Vinde ver!” (cf. Jo 1, 38-39), diz Jesus. Um diálogo muito breve, mas é o início de uma mudança que, passo a passo, marcará a vida inteira. Anos mais tarde, o Evangelista continuará a lembrar-se daquele encontro que o mudou para sempre, recordando-se até da hora: «Eram cerca das quatro horas da tarde» (v. 39). Foi a hora em que o tempo e o eterno se encontraram na sua vida. E, numa decisão boa, certa, encontra-se a vontade de Deus com a nossa vontade; encontra-se o caminho atual com o eterno. Tomar uma decisão certa, depois de um caminho de discernimento, significa fazer este encontro: o tempo com o eterno.

Portanto: conhecimento, experiência, afetos, vontade: eis alguns elementos indispensáveis para o discernimento. No decurso destas catequeses veremos outros, igualmente importantes.

O discernimento - como eu dizia – exige esforço. Segundo a Bíblia, não encontramos diante de nós, já embalada, a vida que devemos viver: não! Devemos decidi-la continuamente, de acordo com as realidades que se apresentam. Deus convida-nos a avaliar e a escolher: Criou-nos livres e quer que exerçamos a nossa liberdade. Por isso, discernir é difícil.

Vivemos frequentemente esta experiência: escolher algo que nos parecia bom e, no entanto, não o era. Ou saber qual era o nosso verdadeiro bem e deixar de o escolher. O homem, diversamente dos animais, pode errar, pode não desejar escolher de modo correto. A Bíblia mostra-o a partir das suas primeiras páginas. Deus dá ao homem uma instrução exata: se quiseres viver, se quiseres desfrutar da vida, lembra-te que és criatura, que não és o critério do bem e do mal, e que as escolhas que fizeres terão uma consequência para ti, para os outros e para o mundo (cf. Gn 2, 16-17); podes fazer da terra um jardim magnífico, ou podes transformá-la num deserto de morte. Um ensinamento fundamental: não é por acaso que se trata do primeiro diálogo entre Deus e o homem. O diálogo é: o Senhor dá a missão, é preciso fazer isto e aquilo; e o homem, a cada passo que dá, deve discernir qual é a decisão a tomar. O discernimento é aquela reflexão da mente, do coração que devemos fazer antes de tomar uma decisão.

O discernimento é árduo, mas indispensável para viver. Requer que eu me conheça, que saiba o que é bom para mim aqui e agora. Exige sobretudo uma relação filial com Deus. Deus é Pai e não nos deixa sozinhos, está sempre disposto a aconselhar-nos, a encorajar-nos, a acolher-nos. Mas nunca impõe a sua vontade. Porquê? Porque quer ser amado, não temido. E Deus também quer que sejamos filhos, não escravos: filhos livres. E o amor só pode ser vivido na liberdade. Para aprender a viver é preciso aprender a amar, e por isso é necessário discernir: o que posso fazer agora, diante desta alternativa? Que seja um sinal de mais amor, de mais maturidade no amor. Peçamos que o Espírito Santo nos guie! Invoquemo-lo todos os dias, especialmente quando devemos fazer escolhas. Obrigado!

Papa Francisco

31.08.22

Catequese na audiência geral

Texto: Retirado do Site do Vaticano em 01.10.2022- http://www.vatican.va/

Imagem: Retirada da "Google imagens" em 01.10.2022