domingo, 15 de março de 2020

Covid -19 - Oração para pedir ajuda, conforto e salvação


Deus Pai, Criador do mundo,
omnipotente e misericordioso,
que por nosso amor
enviaste o teu Filho ao mundo
como médico dos corpos e das almas,
olha para os teus filhos
que neste momento difícil
de desorientação e consternação
em muitas regiões da Europa e do mundo
se voltam para Ti
em busca de força, salvação e alívio.

Livra-nos da doença e do medo,
cura os nossos doentes,
conforta os seus familiares,
dá sabedoria aos nossos governantes,
energia e recompensa aos médicos,
enfermeiros e voluntários,
vida eterna aos defuntos.
Não nos abandones
neste momento de provação,
mas livra-nos de todo o mal.

Tudo isto Te pedimos, ó Pai
que, com o Filho e o Espírito Santo,
vives e reinas pelos séculos dos séculos.
Ámen.

Santa Maria,
Mãe da saúde e da esperança,
roga por nós!

[Bispos da Europa – CCEE e COMECE]

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Laissez vous consumer - Chant de communion

As três etapas da conversão de Santo Agostinho



O caminho de conversão de Agostinho prosseguiu humildemente até o fim da sua vida. Podemos dizer que as diversas etapas desse processo são divididas facilmente em três.

Ainda hoje é possível percorrer a vicissitude de Santo Agostinho graças sobretudo às Confissões, escritas para louvor de Deus e que estão na origem de uma das formas literárias mais específicas do Ocidente, a autobiografia, isto é, a expressão pessoal da consciência de si. Pois bem, quem quer que tome conhecimento deste livro extraordinário e fascinante, ainda hoje muito lido, apercebe-se facilmente do modo como a conversão de Agostinho não tinha sido improvisada nem plenamente realizada desde o início, mas possa antes ser definida um verdadeiro caminho, que permanece um modelo para cada um de nós.

Este itinerário teve certamente o seu ápice com a conversão e depois com o batismo, mas não se concluiu naquela Vigília pascal do ano 387, quando em Milão o retórico africano foi batizado pelo Bispo Ambrósio. De fato, o caminho de conversão de Agostinho prosseguiu humildemente até o fim da sua vida, a ponto que se pode verdadeiramente dizer que as suas diversas etapas podem-se distinguir facilmente em três. Essas são uma única grande conversão.

Primeira etapa [jejum]
Santo Agostinho foi um pesquisador apaixonado pela verdade: foi-o desde o início e depois em toda a sua vida. A primeira etapa do seu caminho de conversão realizou-se precisamente na progressiva aproximação ao cristianismo. Na realidade, ele tinha recebido da mãe Mônica, à qual permaneceu sempre muito ligado, uma educação cristã e, apesar de ter vivido durante os anos juvenis uma vida desregrada, sentiu sempre uma atração profunda por Cristo, tendo bebido o amor pelo nome do Senhor com o leite materno, como ele mesmo ressalta (cf. Confessiones, III, 4, 8).

Mas também a filosofia, sobretudo de índole platônica, tinha contribuído para o aproximar ulteriormente a Cristo manifestando-lhe a existência do Logos, a razão criadora. Os livros dos filósofos indicavam-lhe que há a razão, da qual vem depois todo o mundo, mas não lhe diziam como alcançar este Logos, que parecia tão distante. Só a leitura do epistolário de São Paulo, na fé da Igreja católica, lhe revelou plenamente a verdade. Esta experiência foi sintetizada por Agostinho numa das páginas mais famosas das Confessiones: ele narra que, no tormento das suas reflexões, tendo-se retirado num jardim, ouviu improvisamente uma voz infantil que repetia uma cantilena que nunca tinha ouvido: tolle, lege, tolle, lege, “toma, lê, toma, lê” (VIII, 12, 29).

Recordou-se então da conversão de Antônio, pai do monarquismo, e com solicitude voltou ao código paulino que até há pouco tinha nas mãos, abriu-o e o seu olhar caiu na passagem da epístola aos Romanos onde o Apóstolo exorta a abandonar as obras da carne e a revestir-se de Cristo (13, 13-14). Tinha compreendido que aquela palavra naquele momento se dirigia pessoalmente a ele, vinha de Deus através do Apóstolo e indicava-lhe o que fazer naquele momento. Sentiu assim dissipar-se as trevas da dúvida e encontrou-se enfim livre de se doar totalmente a Cristo: “Tinhas convertido a ti o meu ser”, comenta ele (Confessiones, VIII, 12, 30). Foi esta a primeira e decisiva conversão.

Segunda etapa [esmola]
O retórico africano chegou a esta etapa fundamental do seu longo caminho graças à sua paixão pelo homem e pela verdade, paixão que o levou a procurar Deus, grande e inacessível. A fé em Cristo fez-lhe compreender que Deus, aparentemente tão distante, na realidade não o era. Ele, de fato, tinha-se feito próximo de nós, tornando-se um de nós. Neste sentido a fé em Cristo levou a cumprimento a longa pesquisa de Agostinho sobre o caminho da verdade. Só um Deus que se fez “próximo”, um de nós, era finalmente um Deus ao qual se podia rezar, pelo qual e com o qual se podia viver. Este é um caminho a percorrer com coragem e ao mesmo tempo com humildade, na abertura a uma purificação permanente da qual cada um de nós tem sempre necessidade.

Mas com aquela Vigília pascal de 387, como dissemos, o caminho de Agostinho não estava concluído. Tendo regressado à África e fundado um pequeno mosteiro retirou-se aí com poucos amigos para se dedicar à vida contemplativa e de estudo. Este era o sonho da sua vida. Agora era chamado a viver totalmente pela verdade, com a verdade, na amizade de Cristo que é a verdade. Um sonho agradável que durou três anos, até quando foi consagrado sacerdote, a seu mau grado, em Hipona e destinado a servir os fiéis, continuando a viver com Cristo e por Cristo, mas ao serviço de todos. Isto era para ele muito difícil, mas compreendeu desde o início que só vivendo para os outros, e não simplesmente para a sua contemplação particular, podia realmente viver com Cristo e por Cristo.

Assim, renunciando a uma vida apenas de meditação, Agostinho aprendeu, muitas vezes com dificuldade, a pôr à disposição o fruto da sua inteligência em benefício do próximo. Aprendeu a comunicar a sua fé ao povo simples e a viver assim para ela naquela que se tornou a sua cidade, desempenhando incansavelmente uma atividade generosa e difícil que descreve do seguinte modo num dos seus belos sermões: “Continuamente pregar, discutir, repreender, edificar, estar à disposição de todos é uma grande tarefa, um grande peso, uma enorme fadiga” (Serm. 339, 4). Mas ele assumiu sobre si este peso, compreendendo que precisamente assim podia estar mais próximo de Cristo. Compreender que se chega aos outros com simplicidade e humildade, foi esta a sua verdadeira e segunda conversão.

Terceira etapa [oração]
Mas há uma última etapa do caminho agostiniano, uma terceira conversão: a que o levou todos os dias da sua vida a pedir perdão a Deus. Inicialmente tinha pensado que quando fosse batizado, na vida de comunhão com Cristo, nos Sacramentos, na celebração da Eucaristia, teria alcançado a vida proposta pelo Sermão da montanha: a perfeição doada no batismo e reconfirmada na Eucaristia. Na última parte da sua vida compreendeu que o que tinha dito nas suas primeiras pregações sobre o Sermão da montanha isto é, que agora nós como cristãos vivemos este ideal permanentemente era errado. Só Cristo realiza verdadeira e completamente o Sermão da montanha.

Nós temos sempre necessidade de ser lavados por Cristo, que nos lava os pés, e por Ele renovados. Temos necessidade de uma conversão permanente. Até o fim temos necessidade desta humildade que reconhece que somos pecadores a caminho, enquanto o Senhor nos dá a mão definitivamente e nos introduz na vida eterna. Agostinho faleceu com esta última atitude de humildade, vivida dia após dia.
Esta atitude de humildade profunda diante do único Senhor Jesus introduziu-o na experiência de humildade também intelectual. De fato, Agostinho, que é uma das maiores figuras na história do pensamento, quis nos últimos anos da sua vida submeter a um lúcido exame crítico as suas numerosas obras. Tiveram assim origem as Retractationes (“revisões”), que deste modo inserem o seu pensamento teológico, verdadeiramente grande, na fé humilde e santa daquela a que chama simplesmente com o nome de Catholica, isto é, da Igreja.

“Compreendi escrever precisamente neste livro muito original (I, 19, 1-3) que um só é verdadeiramente perfeito e que as palavras do Sermão da montanha estão totalmente realizadas num só: no próprio Jesus Cristo. Toda a Igreja, ao contrário todos nós, inclusive os apóstolos devemos rezar todos os dias: perdoai-nos os nossos pecados assim como nós os perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Convertido a Cristo
Convertido a Cristo, que é verdade e amor, Agostinho seguiu-o toda a vida e tornou-se um modelo para cada ser humano, para nós todos em busca de Deus. “Por isto quis concluir a minha peregrinação a Pavia recomendando idealmente à Igreja e ao mundo, diante do túmulo deste grande apaixonado de Deus, a minha primeira Encíclica, intitulada Deus Caritas Est”, afiram Bento XVI.

De fato, ela deve muito, sobretudo na sua primeira parte, ao pensamento de Santo Agostinho. Também hoje, como no seu tempo, a humanidade precisa conhecer e sobretudo viver esta realidade fundamental: Deus é amor e o encontro com ele é a única resposta às inquietações do coração humano. Um coração habitado pela esperança, talvez ainda obscura e inconsciente em muitos dos nossos contemporâneos, mas que para nós cristãos abre já hoje ao futuro, a ponto que São Paulo escreveu que “na esperança somos salvos” (Rm 8, 24). “Quis dedicar à esperança a minha segunda Encíclica, Spe Salvi , e também ela é amplamente devedora a Agostinho e ao seu encontro com Deus”, afirma Bento XVI.

Num bonito texto Santo Agostinho define a oração como expressão do desejo e afirma que Deus responde alargando a Ele o nosso coração. Por nosso lado, devemos purificar os nossos desejos e as nossas esperanças para acolher a doçura de Deus (cf. In I Ioannis, 4, 6). De facto, só ela, abrindo-nos também aos outros, nos salva. Rezemos portanto para que na nossa vida nos seja concedido todos os dias seguir o exemplo deste grande convertido, encontrando como ele em cada momento da nossa vida o Senhor Jesus, o único que nos salva, purifica e concede a verdadeira alegria, a verdadeira vida.

28 Agosto 2018

Texto: Retirado do Site comshalom, https://www.comshalom.org , em 26.02.2020;
Imagem: Retirada da google imagens
[ no contexto quaresmal]-acrescentado pelo blog catequese missionária

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Justiça do Reino: "a mais sublime bondade"


Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus...” (Mt 5,20) 
Na Bíblia, a justiça é um dos conceitos centrais, com uma diversidade de sentidos e, por isso mesmo, difícil de ser definido. Em todo caso, trata-se de um conceito que inclui “relação”. Nas “antíteses” – “ouvistes o que foi dito..., eu, porém, vos digo” – do Sermão da Montanha, somos colocados diante de cinco casos concretos que tem a ver com a vida relacional e comunitária: a reconciliação, o olhar puro que não se apossa de outra pessoa, a veracidade e transparência no falar, a não violência (ou mansidão bíblica) e o amor gratuito que inclui o “inimigo”. Em todos eles, podemos crescer sempre mais, graças à compreensão de quem somos no nível mais profundo; o “eu, porém, vos digo” de Jesus nos inspira a descer até às raízes de nosso ser, esvaziando-nos progressivamente de nosso ego e ativando todos os recursos humanizadores aí presentes. 
Na perspectiva bíblica, “justo” é aquele que, perante Deus e os homens, se “ajusta” ao modo de agir do mesmo Deus, vivendo e agindo com a marca da bondade. Visto que justiça designa o comportamento do ser humano em conformidade com a Vontade de Deus, pode-se falar de “praticar a justiça”; ou de “cumprir toda a justiça”. Portanto, a expressão “justiça de Deus” não tem nenhuma relação com o julgamento de Deus; ela é, antes de tudo, misericórdia e fidelidade a uma vontade de salvação. O conceito descreve uma maneira de ser ou de agir de Deus. Deus é justo porque é bondade e misericórdia. Por isso, também do lado humano a justiça deve significar uma maneira de prolongar o ser e o agir de Deus.
O problema da relação entre misericórdia e justiça está em considerar como rivais ou como incompatíveis esses dois atributos de Deus. É preciso afirmar os dois ao mesmo tempo e procurar compreender como ambos estão em Deus, sem que um anule o outro, mas reforçando-se mutuamente. Poderíamos formular assim: Deus é justo em sua misericórdia e misericordioso em sua justiça. Segundo o Papa Francisco, “a misericórdia não exclui a justiça e a verdade, mas, antes de tudo, temos que dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus”. 
Já no Primeiro Testamento encontramos afirmações deste tipo: a justiça de Deus é sua misericórdia. A justiça de Deus coincide com sua misericórdia, sua bondade, sua santidade. São Paulo, em sua carta aos romanos, afirma que a justiça de Deus se manifesta na justificação do pecador, de modo que o Deus justo é justificador. Podemos concluir, pois, que Deus é justo porque quer que todos se salvem. É de esperar, portanto, que esta vontade de Deus se cumpra. É claro que, diante do dom da salvação intervém a liberdade humana, porque salvação é acolhida do Deus que é Amor, e não há amor sem recíproca acolhida. 
Jesus veio expandir o horizonte do comportamento humano; veio nos libertar dos perigos do moralismo e do legalismo. À luz da justiça de Deus (“força que salva”), Jesus nos apresenta um modo de proceder mais radical, relendo os mandamentos. 
A justiça de Deus não é poder que se impõe, mas amor aberto e libertador, a partir dos últimos e dos excluídos da humanidade. A liberdade criadora de Deus, que é amor aos pobres, se torna princípio de justiça, pois o evangelho chama “justos” precisamente aqueles que acolhem os exilados, visitam os encarcerados, dá pão a quem tem fome..., ou seja, àqueles que colocam suas vidas a serviço dos excluídos e vítimas das instituições sociais e econômicas injustas.
O único fundamento de qualquer justiça é Cristo. N’Ele nós nos tornamos justiça de Deus (2Cor 5,21). A partir desta perspectiva, podemos entender o que Jesus fez em seu tempo com a Lei de Moisés. Disse que não vinha abolir a lei, mas plenificá-la, porque foi acusado pelas autoridades religiosas de ser um transgressor das leis. Jesus não foi contra a Lei, senão que foi mais além da Lei. Quis dizer que toda lei é sempre limitada, que sempre podemos ir mais além da letra da lei, da pura formulação, até descobrir o espírito que a inspira. A vontade de Deus está mais além de qualquer formulação, por isso, não podemos nos limitar ao que está escrito, mas precisamos sempre dar um passo a mais. Na vivência do amor, que emana do nosso eu mais profundo, devemos ser sempre mais radicais, não cedendo diante da mínima manifestação do nosso autocentramento. Na realidade, quem ama, não precisa de leis. Segundo S. Paulo, “quem ama, cumpre toda lei”. 
Jesus passou de um cumprimento externo de leis a uma descoberta das exigências de seu próprio ser. Esta revolução que Ele iniciou, ainda está por ser realizada. Avançamos muito pouco nessa direção. Todas as indicações do evangelho no sentido de viver no espírito e não na letra, parece que estão sendo ignoradas. Caímos facilmente no legalismo, no farisaísmo que se perde em meio a um emaranhado de leis, desviando-se do essencial, que é a vivência do amor oblativo, gratuito, expansivo... 
“Ouvistes o que foi dito: não matarás, não cometerás adultério, não jurarás falso; eu, porém, vos digo...” Não fica abolido o mandamento antigo, mas elevado a níveis incrivelmente mais profundos. Jesus nos revela que uma atitude interna negativa é já uma falha contra nosso próprio ser, ainda que não se manifeste numa ação concreta contra o outro. Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a Lei, que ordena “não matarás”. É necessário, além disso, arrancar de nossa vida a agressividade, o desprezo ao outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas, se em seu coração há resquícios de violências, ali não reina o Deus que busca construir conosco uma vida mais humana. 
Estamos percebendo que está se estendendo cada vez mais, na sociedade atual, uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade, do preconceito, da intolerância, do fechamento diante de quem pensa e sente de maneira diferente... Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos, proferidos só para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascida da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança... Por outra parte, as conversações (sobretudo nas redes sociais) estão tecidas de palavras injustas que espalham condenações e semeiam suspeitas (fake-news). Palavras ditas sem amor e sem respeito que envenenam a convivência, causam danos e rompem as relações entre as pessoas.
Portanto, os mandamentos continuam tendo sentido. São um mapa de rota, uma proposta, um chamado [chamamento] para entender a vida. A chave é compreendê-los e vivê-los, não a partir do medo ao fracasso e ao castigo, mas a partir da disposição de crescer humanamente na relação com os outros. Quê nos ensinam eles sobre o ser humano, sobre as relações sociais e sobre nós mesmos? Quê caminho nos propõem para a vida? Quê horizonte nos mostram? 
É necessário dirigir nosso olhar a Jesus para que, na comunidade cristã, a instituição não seja mais importante que o Evangelho, nem que a Lei seja mais importante que a misericórdia. O Plano de Deus e a fé cristã são muito mais que uma adesão doutrinal, é humanizar-se para amar. “O cristianismo não é uma ética de mínimos de justiça, mas uma religião de máximos de felicidade. Os mínimos de justiça lhe parecem irrenunciáveis, mas tais mínimos não esgotam o conteúdo da religião cristã. Suas propostas não competem com a ética cívica, senão que a complementam. Enquanto que a universalidade dos mínimos de justiça é uma universalidade exigível, a dos máximos de felicidade é uma universalidade ofertável” (Adelia Cortina). A justiça do Evangelho, centrado no amor, é um plus sobre a justiça humana, centrada na lei. 
Texto bíblico:   Mt 5,17-37 
Na oração:  O empenho em favor da justiça não terá fim. Numa releitura da 4ª bem-aventurança podemos afirmar:
“Felizes os famintos de justiça, que nunca serão saciados”.
- Frente às pessoas que pensam e sentem de maneira diferente, o que prevalece em você, o peso da lei ou a força da misericórdia?
- Como você vive o quinto mandamento  -“não matar” -  no uso das redes sociais?
Pe. Adroaldo Palaoro sj

Parte escrita - Retirada do site - "CATEQUESEHoje -  www.catequesehoje.org.br ", em 14.02.2020 - Um site com brasileiro com muita qualidade!

Imagem- Retirada da "Google Imagens", em 14.02.2020

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A Bíblia na minha experiência missionária



Detalhes
Ir.Joana Ribeiro-Timor-Leste -26 agosto 2019 

Transcrevemos a partilha da Ir. Joana Ribeiro  na Semana Bíblica Nacional, que se [realizou em Agosto de 2019], em Fátima.

«Antes de mais, quero agradecer o convite que me foi feito para estar aqui. Aqui sinto-me sempre em casa pois os frades capuchinhos foram e são companheiros de caminho, que me proporcionaram o privilégio de viver com eles em missão. Guardo sempre o vosso testemunho como uma luz. Obrigada!
Peguei num poema de Daniel Faria, usei as suas palavras como fio condutor, como fio de Ariadne, do que gostaria de partilhar convosco, pois quem vive a missão com a intensidade com que ela me envolve, corre o risco de permanecer a falar ininterruptamente. Procurei, assim, delimitar-me. Ele diz:

“Há uma palavra-pessoa,
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se
Como nunca fora ouvida.
Só posso viver cabendo nela
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio. (...)
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar” (Daniel Faria
)

“Há uma palavra-pessoa”...

Antes de partir em missão, houve umas palavras de D. António Couto que marcaram profundamente os 6 anos que permaneci em Timor-Leste. Ao falar de S. Paulo, das suas palavras: “quem és tu Senhor?” e da sua conversão, disse: “Cuidado! Um dia a Palavra de Deus vai atravessar a vossa vida e ela nunca mais será igual”. Eu escutei com o ceticismo de quem já tinha delineado muito bem o futuro, de quem já tinha sublinhado as palavras importantes dos projetos e planos, e poucas vírgulas me atreveria a alterar. Mas a missão faz-nos lançar a nossa vida para o céu e a Palavra cria e recria dias cada vez mais belos, não fáceis ou sem sofrimento, mas da beleza que mostra a fragilidade e a verdade de quem somos ou para quem somos, como nos diz o Papa Francisco.

Fui enviada em missão para Laleia, interior de Timor-Leste, onde cheguei no dia 1 de outubro de 2011. Vivi a loucura de me despedir do meu trabalho, de deixar a minha casa, carro, a minha família e partir para o outro lado do mundo, cerca de 15 mil quilómetros. Parti por um ano mas o chão vermelho tornou-se a minha terra, aqueles rostos a minha família e fiquei a pertencer-lhe para sempre. Timor é também a minha terra, a minha gente.

Quando cheguei a Timor tinha a mala cheia de sonhos, ideias, projetos, expectativas e uma vontade imensa de dar, de dar, de dar-me! Mas Deus tirou-me as palavras e deu-me o silêncio.

Sim... “Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida.”

Em Laleia, fiquei sem palavras... sem palavras que me permitissem comunicar. Poucas pessoas compreendiam português apenas tétum. É como se as palavras que sempre usei perdessem a capacidade de apontar o sentido, de possibilitar encontros e teria de abraçar palavras agora incompreensíveis e distantes. Era tempo de escutar, de aprender, de calar.

E o meu livro de aprendizagem foi... imaginem só, o Novo Testamento em tétum. Todas as semanas a Bíblia peregrinava de família em família (aos domingos a família que tinha acolhido a Bíblia em sua casa levava-a na procissão de entrada na Eucaristia dominical e outra família recebia-a no final da Eucaristia). Às quintas feiras, os missionários (freis, leigos, jovens em formação), juntamente com alguns paroquianos, fazíamos a lectio divina na casa desta família. Eu aprendia as palavras do evangelho de cada domingo e as minhas primeiras palavras foram Maromak (Deus) e Na’i (Senhor) e ia treinando a escrever umas frases muito simples para poder partilhar algo com as famílias. Ainda hoje tenho escrevinhado na minha bíblia palavras em tétum que me recordam este caminho. “Imi mai haree” (Vinde e vereis); “Ha´u mak ne´e” (Eis-me aqui Senhor).

Todos nós quando temos de aprender uma nova língua experimentamos a frustração de não conseguir fazê-lo, as gargalhadas, a partilha da fraqueza e das dificuldades. Permaneci e fui parte daquele chão onde Jesus escrevia.

Muitos diziam que a Palavra de Deus traduzida para tétum perdia muito da sua profundidade, dado ser uma língua com poucos conceitos mas, para mim, a dar os primeiros passos na missão e a recomeçar, a simplicidade das palavras aproximaram-me de Deus e permitiu-me balbuciar as minhas primeiras palavras, imitando-O.

E depois fui notando que as palavras já não viviam presas num livro, mas que as lia em tantas pessoas e situações que encontrava. E passagens bíblicas que já sabia de cor, e às quais me fui tornando quase imune e indiferente, voltaram a surpreender-me e a transformar-me. Quantas vezes ouvimos a passagem do nascimento de Jesus, até ao ponto de se tornar banal, sem comover ou mover. A mim isso aconteceu, até encontrar a avó Maria. Penso que “Deus passeava maravilhado nas palavras dela, como um camponês pelo seu campo” (Bobin, 72).

“Só posso viver cabendo nela. Habito-a como Jonas o grande peixe.”

A avó Maria, ficou com a sua casa (palhota feita de paus de palmeira) soterrada na chuva forte do dia anterior, e sozinha e sem família, vieram chamar-nos para a ajudar. Ela teve 9 filhos mas, tal como seu marido, morreram durante a guerra, durante a ocupação indonésia. Quando nós lá chegamos, nem queríamos acreditar no que os nossos olhos viam. Uma velhinha quase sem roupa, a tremer de frio, deitada num pano velho no chão de terra batida de uma cozinha de um vizinho, rodeada de animais: cães, ovelhas, porcos e galinhas, que enchiam aquele espaço de excrementos. A avó Maria, quando nos aproximamos e nos apresentamos, abraçou-nos com um sorriso de orelha a orelha e apercebemo-nos que estava quase cega. Ela: “tinha uma cara maravilhosamente enrugada, semelhante à casca de uma árvore secular” (Bobin, 67). Desde o primeiro momento, estávamos decididas a levá-la para a nossa casa e começamos a conversar com ela para a convencer. Mas as suas palavras foram revelação e desnudaram-nos completamente.

Dissemos-lhe em tétum: “Avó, não pode ficar aqui. Isto não tem condições nenhumas para a avó viver. Não tem casa, nem comida, nem agasalho.”
E ela respondeu-nos, com um sorriso calmo: “Nossa Senhora também deu à luz a Jesus num sítio assim, não foi?!
Ficamos sem palavras. Depois continuamos: “Avó, não pode ficar aqui sozinha. Venha connosco e depois vamos arranjar um sítio para a avó viver.”
E ela, cheia de confiança disse: “Eu não estou sozinha. Deus está sempre comigo. E mandou as irmãs para cuidar de mim, não foi?!
As lágrimas corriam pelo meu rosto ao escutar as suas palavras, e vivi o evangelho do nascimento de Jesus ali, naquele pedaço de terra batida. Ele já tinha nascido no coração, nas palavras e no sorriso desta nossa avó.

Depois de cuidar dela, levar-lhe um colchão, dar-lhe banho, roupa e comida todos os dias, conseguimos que fosse almoçar connosco. Quando entramos fomos à capela onde estávamos todos para rezar. Dissemos-lhe que estávamos na capela e que podia fazer uma oração se quisesse.
Ela gritou assim: “Deus Pai, eu não tenho nada. Não tenho casa, não tenho comida, não tenho ninguém. Senhor, eu estou cega, eu não vejo nada. Senhor, que eu veja! Senhor, que eu veja!”. Todas nós permanecemos em silêncio, com as lágrimas a escorrer pelo rosto e eu repetia no meu coração a sua oração: “Senhor, que eu veja!”. Estas palavras eram carne e sangue, nesse dialecto que só os pobres sabem, fazendo-os espaço e instrumentos de santidade: “Eu te bendigo ó Pai...” (Lc 10, 21)
Após vários meses conseguimos que fosse viver com um primo numa terra afastada dali, após ter feito a operação às cataratas e hoje vê e está bem junto da sua família.

“Ela pronuncia-me, traz-me em viagem do nada para o silêncio.”

Quantas vezes, as palavras deixam de ter a força de nos surpreender e desinstalar, acolhidas na repetição do quotidiano, sem comoção. A missão quebra essa indiferença pois as palavras encarnadas voltam a ter a força da palavra semeada.

Na missão houve vários projetos a que me entreguei: a abertura do jardim de infância de Laleia, a bênção de sentir os abraços dos meninos e de os ouvir chamar, pois mesmo os leigos tratamo-nos como irmãos, como o bom Pai São francisco: “irmã Joana”, nome que o Senhor designou e que apontava já caminho novos; o colaborar na catequese, na preparação de materiais, na preparação da liturgia, o centro social S. Francisco de Assis, a biblioteca, a pastoral das pessoas portadoras de deficiência em toda a diocese de Baucau; a rádio comunitária, sonhar, gravar e preparar os programas para irem para o ar, e tantos outros que nasciam com as necessidades dos que nos batiam à porta, e nós freis e leigos, acolhíamos todos. Íamos para o campo de arroz, levávamos pessoas ao hospital, desdobrávamo-nos em encontros e as palavras “saiam” da Bíblia e vinham ao nosso encontro dando sentido e apontando caminhos sempre novos. “Irmã entre, que Deus até um simples copo de água recompensa”; “Irmã obrigada porque cuida de nós em nome do Senhor”. Lavaram-me os pés tantas vezes que fiquei parte deles e eles parte de quem sou ou de quem quero ser.

Recordo de forma muito especial, o início da rádio comunitária de Laleia, a alegria das pessoas quando ouviam a sua voz na rádio, as histórias que partilhavam sobre a sua cultura, a sua fé, e em que, mesmo os que viviam mais longe nas montanhas, se sentiam mais próximos e menos sós. Na diferença, Deus foi-se revelando e tornou-se mais e mais presente. Achava que bastava aprender as palavras em tétum mas depois descobri que os significados eram tão diferentes, que a única língua era mesmo a do Senhor: o amor!

Estive num orfanato, cerca de 3 meses, em que a criança mais nova tinha 4 anos e o mais velho 17. Com eles aprendi o significado desta passagem dos atos: “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum.” (...) “distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse”. Havia muito pouco. Eu passei fome pela primeira vez na minha vida. Experimentei que quando temos fome, só pensamos em comida e não conseguimos fazer mais nada. A comida era à conta para as 50 crianças e jovens e muitas vezes era apenas arroz, enfeitada com um bocadinho de legumes. Mas eles sabiam o que era viver em comunidade e partilhar. Fomos visitar uma família pobre e depois estávamos no final do dia a ver como poderíamos ajudar essa família. E os miúdos propuseram e todos concordaram dar 2 dos 5 ovos que tínhamos para a refeição do dia seguinte para aquela família. Nós só tínhamos 5 ovos para 50 miúdos mais 4 de nós, mas assim seriam apenas 3 ovos mexidos para 54 pessoas.

Fiquei cara a cara com a pobreza crua e suja e injusta. Uma caminhada de desprendimento foi-me dando a ilusão de “ser pobre” mas só quando faltou o pão da boca, o conforto de uma casa limpa e uma despensa para providenciar o necessário, desejei ser pão e partir-me para os saciar, mas nem a mim me alimentava distraída por um estômago vazio e uma mente a exigir-me comida. Também de pão vive o homem... mas sabe a pouco!

E Deus deu-me irmãos, que nem metro e meio têm, que não sabem o dia em que nasceram, que esqueceram o cheiro da sua terra e que entre a mãe biológica e as muitas “mães” de criação brincam apanhando frutos verdes para enganar a fome. O prato de arroz é garantido mas não sacia quem de tanto precisa.

Os irmãos do ISMAEK (Instituto Secular Maun-Alin iha Kristu - Irmãos em Cristo) ali vivem, servindo e retirando as crianças de famílias desestruturadas, tentando dar-lhes uma família e fazê-los sentirem-se irmãos. Recordo uma menina, a quem vou chamar Joana, com 9 anos, que desde o nascimento a destinaram a casar com um primo e a quem uma tia, para impedir que fosse viver e consumar este casamento aos 7 anos, a trouxe e a colocou nas mãos dos irmãos. Há dois anos que não vai a casa, que não abraça a sua mãe, nem brinca com os seus muitos irmãos. É com lágrimas nos olhos que pede para ir a casa. A palavra que ela sempre dizia, quando nos sentávamos a brincar ou a estudar, era um “obrigado”, o mais sincero que alguma vez ouvi, acompanhado de um abraço, o mais doce que recebi.

Diz Christian Bobin, num livro muito especial com o título “Ressuscitar”: “Tudo o que sei do céu me vem do espanto que experimento (...) à luz de uma palavra ou um gesto tão puros que me revelam bruscamente que nada no mundo poderia ser a sua origem.“ (p. 29)

À luz de uma palavra, a vida pode ser transformada. E nós podemos ser instrumentos dessa alegria e paz. Na missão em Timor, conheci o padre Chris Riley. Ele foi com um grupo de jovens fazer uma experiência missionária em Laleia, Timor-Leste, e tive o privilégio de conhecer um santo pouco convencional que não se esforçando por agradar, a sua história nunca mais se libertou da minha mente nem das minhas orações. Na Austrália, donde é natural, é uma figura pública e a sua organização, Youth off the streets (“Jovens fora da rua”), tem um investimento de milhões de dólares em quintas residenciais, um centro de desintoxicação, carrinhas para alimentação, escolas espalhadas por toda a Austrália, programas de acompanhamento para crianças com histórias de negligência e abuso em todos os bairros mais problemáticos. Mais de 60,000 crianças passaram já por todos estes projetos.

Uma noite, enquanto planeávamos o dia seguinte não hesitei em perguntar-lhe como é que este projeto tinha começado. E ele contou-nos. Um fim de tarde, enquanto regressava a casa, um jovem encostou-lhe uma navalha às costas e obrigou-o a entrar num táxi. Quando o jovem chegou ao destino, empurrou-o, bateu-lhe e fugiu, deixando-o sozinho numa rua abandonada. O padre Chris, estava bastante longe e regressou a casa a pé. Durante a noite, não se conseguia esquecer deste jovem. No dia seguinte, voltou àquela rua para ver se o encontrava. E nada! Depois foi num jornal que viu a notícia de um jovem que tinha sido preso numa rua próxima. O padre Chris foi à prisão ter com ele e disse-lhe: “Eu acredito em ti! Acredito que podes fazer muitas coisas boas e belas neste mundo. E eu estou aqui para te ajudar!”. E aqui começou o “youth off the streets”, pois como diz o padre Chris. “Não existem jovens maus só circunstâncias más”. A partir daí, a vida do padre Chris mudou. Deixou o trabalho na escola salesiana, em 1991, e mudou-se para uma auto-caravana para poder trabalhar a tempo inteiro nas ruas. Pouco tempo depois, conseguiu fundos para conseguir um local para acolher crianças sem-abrigo. Gradualmente, o seu trabalho com crianças com problemas – pais abusivos, vítimas de violência sexual, consumo de álcool e drogas – tornou-se um sucesso. O padre Chris refere que “Partilhar uma refeição, ter alguém com quem conversar e sentir-se seguro - são coisas que os jovens realmente valorizam. São os pequenos milagres que fazem a vida valer a pena.”; “Temos de ter a coragem de exigir grandeza dos nossos jovens”. E a nós? Onde é que a Palavra nos conduz?

“Eu posso propagá-la e posso amá-la até me transformar”

Temos apenas de, como diz Bobin, de “tirá-la dos livros onde definha para a fazer entrar no coração, único local onde poderia viver” (49). A missão é colocar a Palavra no coração pois “talvez nada chegue a dar quem não oferece o próprio coração” (p. 82). A todos nós missionários, chamados a ser palavra de Deus viva e atuante hoje, missão concedida por um Deus que faz tudo para nos conseguir tocar. “(53) e que sabe que “A missão é a nossa identidade em ação” e que, tal como diz o Papa Francisco na exortação apostólica pós sinodal “Cristo vive”, primeiro temos de abraçar para depois transformar.
Em Timor me entregaste a minha missão: ser um pedacinho de pão Teu, pão do céu e da terra, ser palavra e pão, ser Missão!»

Texto - retirado do site dos Franciscanos Capuchinhos,  https://capuchinhos.org, em 06.01.2020;
Imagem: retirada da "Google Imagens"  em 06.01.2020;

domingo, 5 de janeiro de 2020

JERUSALÉM, DEIXA O TEU LUTO (Is, 60)


                         Refrão: Jerusalém, Jerusalém, deixa o teu luto e a tristeza!
                                      Jerusalém, Jerusalém, canta e dança p'ra Teu Deus!

Põe-te de pé, eis que chega a tua luz,
Sobre ti a glória do Senhor (bis)
Levanta os olhos e avista ao longe,
Que o teu coração rejubile.
Eis os Teus filhos que voltam para Ti,
E as tuas filhas cheias de alegria.

Todas as nações caminharão à Tua luz
E os reis à Tua claridade. (bis)
Grandes riquezas virão a Ti,
Todos os rebanhos de Cedar e de Efá,
Vindos de Sabá trazem ouro e incenso,
Cantando a glória do Senhor.