domingo, 2 de dezembro de 2018
domingo, 18 de novembro de 2018
COMER DO MESMO PRATO
Uma comunidade que se reúne para escutar
a Palavra de Deus, para comer juntos do mesmo pão e beber todos do mesmo “cálice”
de Jesus são sinais que têm uma força extraordinária de comunhão.
Perguntaram a um senhor que é o animador
de algumas comunidades cristãs na Amazónia brasileira como estão a correr as
coisas, e ele respondeu: «Temos dificuldades grandes porque já não sabemos
comer do mesmo prato!»
Há uns anos - continuou a explicar o
senhor José Valdeci (Fides, 27/6/18) - quando alguém tinha boa sorte na pesca,
ou conseguia capturar uma boa peça de caça, havia abundância para todos na
aldeia, e o prato grande onde comíamos todos juntos era um lugar especial para
nos encontrarmos todos. Hoje, o nosso grande rio continua a ser generoso, e na
nossa floresta não falta caça, mas chegou o dinheiro, e quem volta a casa carregado
já não cozinha para o grande prato comum. Vende, arrecada o dinheiro, e se
amanhã voltar a casa com o saco vazio, pode sempre comprar a quem teve mais
sorte na pesca. E o grande prato comum fica quase sempre vazio.
Enquanto se vai preparando o Sínodo especial
dos Bispos sobre a Amazónia (Outubro de 2019), esta experiência de um
catequista e animador leigo de várias comunidades cristãs ao longo do grande
rio Amazonas pode ajudar-nos a pensar sobre um aspecto da vida das nossas
comunidades que me parece importantíssimo, mas que pode estar a ficar
esquecido: comer do mesmo prato.
Quando celebramos a Eucaristia, são
absolutamente centrais os dois gestos de “comer do mesmo pão”, e “beber do
mesmo cálice”. Algumas controvérsias teológicas do passado sobre a presença
real de Jesus na Eucaristia, e talvez também a falta de cuidado de nós
sacerdotes na maneira como conduzimos a celebração, levam muitas comunidades a
prestar pouca atenção a estes dois gestos fundamentais da Missa.
É curioso notar que nas quatro narrações
que temos no Novo Testamento sobre estes dois gestos de Jesus (Mateus, Marcos,
Lucas e 1 Coríntios) os textos colocam ao centro da atenção o comer juntos do
mesmo pão que foi partido e repartido por todos, e o beber todos do mesmo
cálice (melhor traduzindo como «malga» ou «tijela»?). Os estudiosos destes
textos chamam à atenção para um pormenor interessante: quando chega o momento
de beber, a ênfase é toda sobre o «beber do mesmo recipiente»; o conteúdo que
se bebe parece ficar em segundo plano. E, no texto de S.Paulo (1 Cor 11,25…),
nem sequer fala do vinho.
Uma comunidade de pessoas de todas as
idades e condições de vida que se reúnem para escutar a Palavra de Deus e comer
juntos do mesmo pão repartido e beber todos do mesmo “cálice” de Jesus são
sinais que, se bem feitos, têm uma força extraordinária de comunhão! Seria
preciso talvez adaptar alguma coisa na nossa maneira tradicional de celebrar a
Eucaristia, para dar força a estes gestos de “comer todos do mesmo pão” e “
beber todos do mesmo cálice”. Se há gestos que criam aquilo que significam,
estes são certamente desses! Como o grande prato comum das comunidades do
animador José Valdeci, ao longo do rio Amazonas. Sentar-se todos à volta
daquele prato era muito mais do que encher a barriga de carne assada ou peixe
fresco. Conseguiremos nós fazer com que o “comer todos do mesmo pão” e “beber
todos do mesmo cálice” volte a ter a força que Jesus lhes quis dar?
Pe
Fernando Domingues-Missionário Comboniano
Artigo
retirado da Revista “além-mar” de Setembro de 2018, na rúbrica “APONTAMENTOS”.
sábado, 6 de outubro de 2018
Vida en abundancia
Vida em
abundância
Os lírios do
campo e as aves do céu
Não se
preocupam, porque estão nas Minhas mãos.
Tende
confiança em mim,
Eu estou aqui
junto a vós.
Ama o que és e
as tuas circunstâncias,
Estou contigo,
com a tua cruz às Minhas costas,
Tudo acabará
bem,
Eu faço novas
todas as coisas.
Eu venho trazer-te vida
Vida em
abundância, em abundância.
Eu Sou o
caminho
A verdade e
a vida,
Vida em
abundância, em abundância.
Não fiz o
Homem para que esteja só;
Caminhai
juntos como irmãos:
Suportai-vos
mutuamente
Amai-vos uns
aos outros.
A felicidade
da Vida Eterna
Começa Comigo
na Terra,
Sente-te vivo,
a festa do Reino começa aqui!
Eu venho trazer-te vida
Vida em
abundância, em abundância.
Eu sou o
caminho
A verdade e
a vida,
Vida em
abundância, em abundância.
Encorajo os
teus sonhos e os teus projetos,
Todas as tuas
buscas e teus anseios.
Já ouvi a tua
oração
entrega-te à
esperança.
Sobe à Minha
barca a navegar mar adentro,
No profundo
está o que é verdadeiro.
Anima-te a
voar
na aventura do
confiar.
Eu venho trazer-te vida
Vida em
abundância, em abundância.
Eu sou o
caminho
A verdade e
a vida,
Vida em
abundância, em abundância
Tradução livre
de: Gracinda Leão
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES DE 2018
«Juntamente com os jovens, levemos o
Evangelho a todos»
Queridos jovens, juntamente convosco desejo refletir sobre a
missão que Jesus nos confiou. Apesar de me dirigir a vós, pretendo incluir
todos os cristãos, que vivem na Igreja a aventura da sua existência como filhos
de Deus. O que me impele a falar a todos, dialogando convosco, é a certeza de
que a fé cristã permanece sempre jovem, quando se abre à missão que Cristo nos
confia. «A missão revigora a fé» (Carta enc. Redemptoris missio, 2): escrevia São João
Paulo II, um Papa que tanto amava os jovens e, a eles, muito se dedicou.
O Sínodo que celebraremos em Roma no próximo mês de outubro, mês
missionário, dá-nos oportunidade de entender melhor, à luz da fé, aquilo que o
Senhor Jesus vos quer dizer a vós, jovens, e, através de vós, às comunidades
cristãs.
A vida é uma missão
Todo o homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela
qual se encontra a viver na terra. Ser atraídos e ser enviados
são os dois movimentos que o nosso coração, sobretudo quando é jovem em idade,
sente como forças interiores do amor que prometem futuro e impelem a nossa
existência para a frente. Ninguém, como os jovens, sente quanto irrompe a vida
e atrai. Viver com alegria a própria responsabilidade pelo mundo é um grande
desafio. Conheço bem as luzes e as sombras de ser jovem e, se penso na minha
juventude e na minha família, recordo a intensidade da esperança por um futuro
melhor. O facto de nos encontrarmos neste mundo sem ser por nossa decisão
faz-nos intuir que há uma iniciativa que nos antecede e faz existir. Cada um de
nós é chamado a refletir sobre esta realidade: «Eu sou uma missão nesta
terra, e para isso estou neste mundo» (Papa Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium,
273).
Anunciamo-vos Jesus Cristo
A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt
10, 8; At 3, 6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a
verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e
ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar,
descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não
tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida
de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento
dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita
pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está
com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres,
muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor
do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a
lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor 1, 17-25) como anúncio
do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo
amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama
(cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos
horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância:
«Que faria Cristo no meu lugar?»
Transmitir a fé até aos últimos confins da terra
Pelo Batismo, também vós, jovens, sois membros vivos da Igreja e,
juntos, temos a missão de levar o Evangelho a todos. Estais a desabrochar para
a vida. Crescer na graça da fé, que nos foi transmitida pelos sacramentos da
Igreja, integra-nos num fluxo de gerações de testemunhas, onde a sabedoria
daqueles que têm experiência se torna testemunho e encorajamento para quem se
abre ao futuro. E, por sua vez, a novidade dos jovens torna-se apoio e
esperança para aqueles que estão próximo da meta do seu caminho. Na convivência
das várias idades da vida, a missão da Igreja constrói pontes intergeracionais,
nas quais a fé em Deus e o amor ao próximo constituem fatores de profunda
união.
Por isso, esta transmissão da fé, coração da missão da Igreja,
verifica-se através do «contágio» do amor, onde a alegria e o entusiasmo
expressam o sentido reencontrado e a plenitude da vida. A propagação da fé por
atração requer corações abertos, dilatados pelo amor. Ao amor, não se pode
colocar limites: forte como a morte é o amor (cf. Ct 8, 6). E tal
expansão gera o encontro, o testemunho, o anúncio; gera a partilha na caridade
com todos aqueles que, longe da fé, se mostram indiferentes e, às vezes,
impugnadores e contrários à mesma. Ambientes humanos, culturais e religiosos ainda
alheios ao Evangelho de Jesus e à presença sacramental da Igreja constituem as
periferias extremas, os «últimos confins da terra», aos quais, desde a Páscoa
de Jesus, são enviados os seus discípulos missionários, na certeza de terem
sempre com eles o seu Senhor (cf. Mt 28, 20; At 1, 8). Nisto
consiste o que designamos por missio ad gentes. A periferia mais
desolada da humanidade carente de Cristo é a indiferença à fé ou mesmo o ódio
contra a plenitude divina da vida. Toda a pobreza material e espiritual, toda a
discriminação de irmãos e irmãs é sempre consequência da recusa de Deus e do
seu amor.
Hoje para vós, queridos jovens, os últimos confins da terra são
muito relativos e sempre facilmente «navegáveis». O mundo digital, as redes
sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e
distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo
tão próximo e imediato... E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas,
poderemos ter miríades de contactos, mas nunca estaremos imersos numa
verdadeira comunhão de vida. A missão até aos últimos confins da terra requer o
dom de nós próprios na vocação que nos foi dada por Aquele que nos colocou
nesta terra (cf. Lc 9, 23-25). Atrevo-me a dizer que, para um jovem que
quer seguir Cristo, o essencial é a busca e a adesão à sua vocação.
Testemunhar o amor
Agradeço a todas as realidades eclesiais que vos permitem
encontrar, pessoalmente, Cristo vivo na sua Igreja: as paróquias, as
associações, os movimentos, as comunidades religiosas, as mais variadas
expressões de serviço missionário. Muitos jovens encontram, no voluntariado
missionário, uma forma para servir os «mais pequenos» (cf. Mt 25, 40),
promovendo a dignidade humana e testemunhando a alegria de amar e ser cristão.
Estas experiências eclesiais fazem com que a formação de cada um não seja
apenas preparação para o seu bom-êxito profissional, mas desenvolva e cuide um
dom do Senhor para melhor servir aos outros. Estas louváveis formas de serviço
missionário temporâneo são um começo fecundo e, no discernimento vocacional,
podem ajudar-vos a decidir pelo dom total de vós mesmos como missionários.
De corações jovens, nasceram as Pontifícias Obras Missionárias,
para apoiar o anúncio do Evangelho a todos os povos, contribuindo para o
crescimento humano e cultural de muitas populações sedentas de Verdade. As
orações e as ajudas materiais, que generosamente são dadas e distribuídas
através das POMs, ajudam a Santa Sé a garantir que, quantos recebem ajuda para
as suas necessidades, possam, por sua vez, ser capazes de dar testemunho no
próprio ambiente. Ninguém é tão pobre que não possa dar o que tem e, ainda
antes, o que é. Apraz-me repetir a exortação que dirigi aos jovens chilenos:
«Nunca penses que não tens nada para dar, ou que não precisas de ninguém. Muita
gente precisa de ti. Pensa nisso! Cada um de vós pense nisto no seu coração:
muita gente precisa de mim» (Encontro com os jovens,
Santiago – Santuário de Maipú, 17/I/2018).
Queridos jovens, o próximo mês missionário de outubro, em que terá
lugar o Sínodo a vós dedicado, será mais uma oportunidade para vos tornardes
discípulos missionários cada vez mais apaixonados por Jesus e pela sua missão
até aos últimos confins da terra. A Maria, Rainha dos Apóstolos, ao Santos
Francisco Xavier e Teresa do Menino Jesus, ao Beato Paulo Manna, peço que
intercedam por todos nós e sempre nos acompanhem.
Vaticano, 20 de maio – Solenidade de Pentecostes – de 2018.
FRANCISCO
"Artigo retirado do site do Vaticano em 04.10.2018"
"Imagem-retirada do google imagens"
terça-feira, 18 de setembro de 2018
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te»
'Evangelho segundo S. Lucas 7,11-17.
Naquele tempo, dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim; iam com Ele
os seus discípulos e uma grande multidão.
Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade.
Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: «Não chores».
Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te».
O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo».
E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.
Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade.
Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe: «Não chores».
Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam. Disse Jesus: «Jovem, Eu te ordeno: levanta-te».
O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo».
E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.
Tradução litúrgica da Bíblia
Comentário de Santo Ambrósio (c. 340-397)
bispo de Milão, doutor da Igreja
Tratado sobre o Evangelho de São Lucas, 5, 89, 91-92
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te»
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te»
Ainda que os sintomas da morte tenham roubado por completo a esperança de
vida, ainda que os corpos dos defuntos se encontrem já perto do sepulcro, à voz
de Deus, os cadáveres que começavam a decompor-se recuperam a fala; o filho é
devolvido a sua mãe, é chamado do túmulo, é arrancado ao túmulo. Que túmulo é o
teu? São os teus maus hábitos, é a tua falta de fé. É deste túmulo que Cristo
te salva, será deste túmulo que ressuscitarás, se ouvires a Palavra de Deus.
Ainda que os teus pecados sejam tão graves que não possas lavar-te a ti próprio
com as lágrimas do arrependimento, a Igreja, tua Mãe, chorará por ti, pois
intercede por cada um dos seus filhos como mãe viúva com um filho único. Com
efeito, a Igreja tem compaixão, por uma espécie de sofrimento espiritual, dos
seus filhos que vê dirigirem-se para a morte em consequência de vícios
funestos. […]
Que ela chore, pois, esta mãe piedosa; que a multidão a acompanhe; que não seja uma simples multidão, mas uma multidão considerável a ter compaixão desta mãe terna. Então, ressuscitarás do teu túmulo, serás dele libertado; os carregadores deter-se-ão, começarás a dizer palavras de vivo e todos ficarão estupefactos. E o exemplo de um só permitirá corrigir muitos, que louvarão a Deus por nos ter dado tais remédios para evitarmos a morte.'
Retirado do site Evangelho Quotidiano : https://www.evangelhoquotidiano.org de 18.09.2018Que ela chore, pois, esta mãe piedosa; que a multidão a acompanhe; que não seja uma simples multidão, mas uma multidão considerável a ter compaixão desta mãe terna. Então, ressuscitarás do teu túmulo, serás dele libertado; os carregadores deter-se-ão, começarás a dizer palavras de vivo e todos ficarão estupefactos. E o exemplo de um só permitirá corrigir muitos, que louvarão a Deus por nos ter dado tais remédios para evitarmos a morte.'
imagem retirada do "google imagens"
domingo, 26 de agosto de 2018
Amar autenticamente exige libertar-se de todos os ídolos
Catequese sobre os Mandamentos – 4
Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
Ouvimos o primeiro mandamento do Decálogo: «Não terás
outros deuses diante da minha face» (Êx 20, 3). É bom refletir
sobre o tema da idolatria, que é de grande alcance e atualidade. A
ordem proíbe que se façam ídolos[1] ou imagens[2] de qualquer tipo de
realidade: [3] com efeito, tudo pode ser usado como ídolo.
Referimo-nos a uma tendência humana, que não poupa nem crentes nem ateus. Por
exemplo, nós cristãos podemos interrogar-nos: qual é verdadeiramente o meu
Deus? É o Amor Uno e Trino ou então a minha imagem, o meu sucesso pessoal,
talvez dentro da Igreja? «A idolatria não diz respeito apenas aos falsos cultos
do paganismo. Continua a ser uma tentação constante para a fé. Ela consiste em
divinizar o que não é Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2113).
O que é um “deus” no plano existencial? É aquilo que
está no cerne da própria vida e do qual depende o que fazemos e
pensamos.[4] Podemos crescer numa família cristã de nome, mas na realidade
centrada em pontos de referência alheios ao Evangelho.[5] O ser humano não
vive sem se centrar em algo. Eis, então, que o mundo oferece o “supermarket”
dos ídolos, que podem ser objetos, imagens, ideias, papéis.
Por
exemplo, inclusive a oração. Devemos rezar a Deus, nosso Pai. Recordo que certa
vez fui a uma paróquia na diocese de Buenos Aires para celebrar uma Missa e
depois devia fazer as crismas noutra paróquia, a 1 km de distância. Fui a pé e
atravessei um bonito parque. Mas naquele parque havia mais de 50 mesinhas, cada
uma com duas cadeiras e as pessoas sentadas uma em frente da outra. O que
faziam? Jogo de cartas. Iam ali “para rezar” ao ídolo. Em vez de rezar a Deus,
que é providência do futuro, iam ali porque liam as cartas para ler o futuro.
Esta é uma idolatria dos nossos tempos. Pergunto-vos: quantos de vós fostes,
para que vos lessem as cartas a fim de ver o futuro? Quantos de vós, por
exemplo, fostes para que vos lessem as mãos a fim de ler o futuro, em vez de
rezar ao Senhor? Esta é a diferença: o Senhor está vivo; os outros são ídolos,
idolatrias que não servem.
Como se desenvolve uma idolatria? O mandamento
descreve algumas fases: «Não farás para ti escultura, nem figura alguma [...] /
Não te prostrarás diante delas / e não lhes prestarás culto» (Êx 20,
4-5). A palavra “ídolo” em grego deriva do verbo “ver”.[6] O
ídolo é uma “visão” que tende a tornar-se uma fixação, uma obsessão. Na
realidade, o ídolo é uma projeção de nós mesmos nos objetos ou nos projetos.
Por exemplo, é desta dinâmica que se serve a publicidade: não vejo o objeto em
si, mas concebo aquele automóvel, aquele smartphone, aquele papel — ou outras
coisas — como um meio para me realizar e responder às minhas necessidades
essenciais. E procuro isto, falo disso, penso naquilo; a ideia de possuir tal
objeto ou de realizar aquele projeto, alcançar essa posição, parece uma via
maravilhosa para a felicidade, uma torre para chegar ao céu (cf. Gn 11,
1-9), e tudo se torna funcional para esta meta.
Então, entramos na segunda da fase: «Não te
prostrarás diante delas». Os ídolos exigem um culto, rituais; a eles as
pessoas prostram-se e sacrificam tudo. Faziam-se sacrifícios humanos aos ídolos
na antiguidade, mas também hoje: pela carreira sacrificam-se os filhos,
descuidando-os ou simplesmente deixando de os gerar; a beleza exige sacrifícios
humanos. Quantas horas diante do espelho! Certas pessoas, determinadas
mulheres, quanto gastam para se pintar! Também esta é uma idolatria. Não é
negativo pintar-se, mas de modo normal, não para se tornar uma deusa. A beleza
exige sacrifícios humanos. A fama requer a imolação de si mesmo, da própria
inocência e autenticidade. Os ídolos pedem sangue. O dinheiro rouba a vida e o
prazer leva à solidão. As estruturas económicas sacrificam vidas humanas para
obter maiores lucros. Pensemos em tantas pessoas desempregadas. Porquê? Porque
às vezes acontece que os empresários daquela empresa, dessa firma, decidiram
despedir as pessoas, para ganhar mais dinheiro. O ídolo do dinheiro. Vive-se na
hipocrisia, fazendo e dizendo o que os outros esperam, porque é o deus da
própria afirmação que o impõe. E arruínam-se vidas, destroem-se famílias e
abandonam-se jovens nas mãos de modelos arrasadores, contanto que aumente o
lucro. Também a droga é um ídolo. Quantos jovens estragam a saúde, até a vida,
adorando este ídolo da droga.
Aqui chegamos à terceira e mais trágica fase: «...e
não lhes prestarás culto», diz. Os ídolos escravizam. Prometem a
felicidade, mas não a dão; e passamos a viver por aquela coisa, por essa visão,
arrebatados num vórtice autodestruidor, à espera de um resultado que nunca
chega.
Caros
irmãos e irmãs, os ídolos prometem a vida, mas na realidade tiram-na. O Deus
verdadeiro não pede a vida, mas doa-a, concede-a. O Deus verdadeiro não oferece
uma projeção do nosso sucesso, mas ensina a amar. O Deus verdadeiro não pede
filhos, mas dá o seu Filho por nós. Os ídolos projetam hipóteses futuras e
fazem desprezar o presente; o Deus verdadeiro ensina a viver na realidade de
cada dia, no concreto, não com ilusões sobre o porvir: hoje, amanhã e depois de
amanhã, a caminho do futuro. A concretude do Deus verdadeiro contra a liquidez
dos ídolos. Hoje convido-vos a pensar: quantos ídolos tenho, ou qual é o meu
ídolo preferido? Pois reconhecer as próprias idolatrias é um início da graça, e
põe no caminho do amor. Com efeito, o amor é incompatível com a idolatria: se
algo se torna absoluto e intocável, então é mais importante que um cônjuge, um
filho ou uma amizade. O apego a um objeto ou a uma ideia torna-nos cegos ao
amor. E assim, para ir atrás dos ídolos, de um ídolo, podemos chegar a renegar
o pai, a mãe, os filhos, a esposa, o esposo, a família... as coisas mais
queridas. O apego a um objeto ou a uma ideia torna-nos cegos ao amor. Levai
isto no coração: os ídolos roubam-nos o amor, os ídolos tornam-nos cegos ao
amor, e para amar autenticamente é preciso libertar-se de todos os ídolos. Qual
é o meu ídolo? Elimina-o e lança-o da janela!
Papa Francisco
Catequese
na audiência geral 1.08.2018
[1] O termo Pesel indica «uma imagem divina originariamente esculpida na madeira ou na pedra, e sobretudo no metal» (L. Koehler — W. Baumgartner, The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, vol. 3, p. 949).
[2] O vocábulo Temunah tem um
significado muito vasto, reconduzível a “semelhança, forma”; portanto, a
proibição é muito ampla e estas imagens podem ser de todos os tipos (cf. L.
Koehler — W. Baumgartner, Op. cit., vol. 1, p. 504).
[3] O comando não proíbe as imagens em si mesmas
— o próprio Deus ordenará a Moisés que realize os querubins de ouro para a
tampa da arca (cf. Êx 25, 18) e uma serpente de bronze
(cf. Nm 21, 8) — mas proíbe adorá-las e prestar-lhes culto, ou
seja, todo o processo de deificação de algo, não só a
reprodução.
[4] A Bíblia judaica refere-se às idolatrias
cananeias com o termo Ba’al, que significa “senhorio, relação
íntima, realidade da qual se depende”. O ídolo é o que domina, arrebata o
coração e se torna eixo da vida (cf. Theological Lexicon of the Old
Testament, vol. 1, pp. 247-251).
[5] Cf. Catecismo da Igreja Católica,
n. 2114: «A idolatria é uma perversão do sentido religioso inato no homem.
Idólatra é aquele que “refere a sua indestrutível noção de Deus seja ao que
for, que não a Deus” (Orígenes, Contra Celsum, 2, 40)».
[6] A etimologia do grego eidolon,
derivada de eidos, é da raiz weid, que significa ver (cf. Grande
Lessico dell’Antico Testamento, Bréscia 1967, vol. III, p. 127)..
terça-feira, 7 de agosto de 2018
Ser cristão é um caminho de libertação
Catequese do Papa Francisco sobre os Mandamentos- 3
Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, esta audiência
terá lugar como na quarta-feira passada. Na Sala Paulo VI há muitos
doentes, e para os proteger do calor, a fim de que estivessem mais
confortáveis, estão ali. Mas acompanharão a audiência através do grande ecrã, e
também nós com eles, ou seja, não há duas audiências. Há uma só. Saudemos os
enfermos na Sala Paulo VI. E continuemos a falar dos mandamentos que, como
dissemos, mais do que mandamentos, são as palavras de Deus ao seu povo, para
que caminhe bem; palavras amorosas de um Pai. As dez Palavras começam assim: «Eu
sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão» (Êx 20,
2). Este início pareceria não estar relacionado com verdadeiras leis que
seguem. Mas não é assim!
Qual o motivo desta
proclamação que Deus faz de si mesmo e da libertação? Porque só se chega ao
Monte Sinai depois de ter atravessado o Mar Vermelho: primeiro, o Deus de
Israel salva, e depois pede confiança.[1] Ou seja: o Decálogo começa pela
generosidade de Deus. Deus nunca pede sem dar primeiro. Jamais! primeiro salva,
primeiro doa e depois pede. Assim é o nosso Pai, o bom Deus.
E compreendemos a
importância da primeira declaração: «Eu sou o Senhor teu Deus». Há
um possessivo, existe uma relação, uma pertença. Deus não é um estranho: é o teu Deus.[2] Isto
ilumina o Decálogo inteiro e revela também o segredo do agir cristão, porque é
a própria atitude de Jesus que diz: «Assim como o Pai me ama, também Eu
vos amo» (Jo 15, 9). Cristo é o Amado do Pai e ama-nos com
este amor. Ele não começa por si mesmo, mas pelo Pai. Muitas vezes as nossas
obras falham, porque começamos por nós mesmos, e não pela gratidão. E onde
chega quem começa por si mesmo? Chega a si próprio! É incapaz de progredir,
volta para si mesmo. É exatamente aquela atitude egoísta que, brincando, as
pessoas dizem: “Essa pessoa é um eu, eu comigo mesmo e para mim”. Sai de si e
volta para si.
A vida cristã é antes
de tudo a resposta grata a um Pai generoso. Os cristãos que
seguem apenas “deveres” denunciam que não têm uma experiência
pessoal daquele Deus que é “nosso”. Devo fazer isto, isso,
aquilo... Somente deveres. Mas falta-te algo! Qual é o fundamento deste dever?
O fundamento deste dever é o amor de Deus Pai, que primeiro dá, depois manda.
Colocar a lei antes da relação não ajuda o caminho de fé. Como pode um jovem
desejar ser cristão, se nós começamos pelas obrigações, compromissos,
coerências, e não pela libertação? Mas ser cristão é um caminho de libertação!
Os mandamentos libertam-te do teu egoísmo, e libertam-te porque há o amor de
Deus que te faz ir em frente. A formação cristã não está baseada na força de
vontade, mas no acolhimento da salvação, no deixar-se amar: primeiro o Mar
Vermelho, depois o Monte Sinai. Primeiro a salvação: Deus salva o seu povo no
Mar Vermelho; depois, no Sinai diz-lhe que deve fazer. Mas aquele povo sabe que
Ele faz tais gestos porque foi salvo por um Pai que o ama.
A gratidão é um traço
caraterístico do coração visitado pelo Espírito Santo; para obedecer a Deus é
preciso, antes de tudo, recordar os seus benefícios. São Basílio diz: «Quem não
deixa que tais benefícios caiam no esquecimento, orienta-se para a boa virtude
e para todas as obras de justiça» (Regras breves, 56). Onde nos leva
tudo isto? A fazer exercício de memória:[3] quantas maravilhas fez Deus
por cada um de nós! Como é generoso o nosso Pai celestial! Agora gostaria de
vos propor um pequeno exercício, em silêncio, cada qual responda no seu
coração. Quantas maravilhas fez Deus por mim? Esta é a pergunta. Cada um de nós
responda em silêncio. Quantas maravilhas fez Deus por mim? E esta é a
libertação de Deus. Deus faz muitas maravilhas e liberta-nos.
E no entanto, alguém
pode sentir que ainda não viveu uma verdadeira experiência da libertação feita
por Deus. Isto pode acontecer. Pode ser que alguém olhe para dentro de si e só
encontre sentido de dever, uma espiritualidade de servo, e não de filho. Que
fazer em tal caso? Como faz o povo eleito. O livro do Êxodo diz: «Os israelitas,
que ainda gemiam sob o peso da servidão, clamaram e, do fundo da própria
escravidão, subiu o seu clamor até Deus. Deus ouviu os seus gemidos,
lembrando-se da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. Deus olhou para os
israelitas e reconheceu-os» (Êx 2, 23-25). Deus pensa em mim!
A ação libertadora de
Deus, inserida no início do Decálogo — ou seja, dos mandamentos — é a resposta
a esta lamentação. Nós não nos salvamos sozinhos, mas de nós pode brotar um
grito de ajuda: “Senhor, salvai-me; Senhor, ensinai-me o caminho;
Senhor, acariciai-me; Senhor, concedei-me um pouco de júbilo”. Trata-se de um
clamor que pede ajuda. Compete-nos isto: pedir para ser libertados do egoísmo,
do pecado, das correntes da escravidão. Este brado é importante, é oração, é consciência
daquilo que ainda existe de oprimido e não libertado em nós. Existem muitas
coisas não libertadas na nossa alma. “Salvai-me, ajudai-me, libertai-me!”. Esta
é uma bonita prece ao Senhor. Deus espera este grito, porque pode e quer
quebrar as nossas correntes; Deus não nos chamou à vida para que
permanecêssemos oprimidos, mas para ser livres, e para vivermos na gratidão,
obedecendo com alegria Àquele que nos ofereceu tanto, infinitamente mais do que
poderíamos dar-lhe. Isto é bonito! Que Deus seja sempre bendito por tudo o que
fez, faz e há de fazer em nós!
Papa Francisco
Catequese na audiência
Geral
27 de junho de 2018
Notas
[1] Na tradição
rabínica encontra-se um texto iluminador a este propósito: «Por que as dez
palavras não foram proclamadas no início da Torá? [...] Com o que se pode
comparar? A um tal que, assumindo o governo de uma cidade, perguntou aos
habitantes: “Posso reinar sobre vós?”. Mas eles replicaram: “Que nos fizeste de
bem, para que pretendas reinar sobre nós?”. Então, que fez? Construiu-lhes
muros de defesa e uma canalização para abastecer a cidade de água; depois,
combateu guerras a favor deles. E quando voltou a perguntar: “Posso reinar
sobre vós?”, eles retorquiram-lhe: “Sim, sim!”. Assim também o Lugar fez Israel
sair do Egito, dividiu o mar para eles, fez com que lhes descesse o maná e
subisse a água do poço, levou até eles codornizes em voo e finalmente combateu
para eles a guerra contra Amalec. E quando os interrogou: “Posso reinar sobre
vós?”, eles responderam-lhe: “Sim, sim!”» (Il dono della Torah.
Commento al decalogo di Es 20 nella Mekilta di R. Ishamael, Roma 1982,
p. 49).
[2] Cf. Bento
XVI, Carta Enc. Deus caritas est, 17: «A história do amor
entre Deus e o homem consiste precisamente no facto de que esta comunhão de
vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso
querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de
ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a
minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus é mais
íntimo para mim mesmo de quanto o seja eu próprio. Cresce então o abandono em
Deus, e Deus torna-se a nossa alegria».
[3] Cf. Homilia
da Missa em Santa Marta, 7 de outubro de 2014: «[Que significa
rezar?]. É fazer memória diante de Deus da nossa história. Porque a nossa
história [é] a história do seu amor por nós». Cf. Detti e fatti dei
padri del deserto, Milão 1975, p. 71: «O esquecimento é a raiz de
todos os males»
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