sábado, 30 de maio de 2026

DEUS AMOU TANTO O MUNDO…


IX- Domingo do Tempo Comum- Solenidade da Santíssima Trindade -Ano A

Texto Sagrado: Jo 3,16-18 

No imaginário cristão que tanto prezamos, a Santíssima Trindade é um mistério; e mistério é o inexplicável por excelência, aquilo que não pode ser compreendido, o profundamente oculto e secreto, o arcano, portanto aquilo que não pode ser explicado e só pode ser “acreditado”. Para uns, é um dogma imposto que apenas proporciona trabalho aos teólogos mais ou menos “ociosos”. Para outros, estudantes de teologia e para os de áreas afins, é um assunto mais ou menos esotérico e complicado que deve ser ultrapassado… o que significa que, para a vida concreta do dia-a-dia, não significa absolutamente nada. Que grande pena!

Vimos e celebrámos nestes últimos domingos que, para os primeiros, no calor de se sentirem amados e em paz (“os nossos corações não ardiam dentro de nós…”) pelo Crucificado e Ressuscitado, a palavra “Deus” por si só explodiu nos seus rostos. As palavras não conseguiam expressar tudo o que Jesus tinha experimentado e sentido. Queriam exprimir que Deus era aquele "Abba-Imma" (Pai-Mãe) que levou Jesus a amar os oprimidos do seu povo com tanta ternura, que se comoveu e curou os enfermos, que se encantou com as crianças e as acolheu, que se entristeceu com a dureza de coração daqueles que se sentiam seguros com Deus, mas desprezavam os outros, que orou a um Deus que dedicou toda a sua vida ao serviço até ao fim, que nada pediu para si mesmo, a não ser que nos amássemos uns aos outros... Precisavam de estender a palavra "Deus" ao seu limite, até ao seu ponto de rutura, porque em Jesus revelou-se como um Deus perdidamente apaixonado pelo seu mundo e pelas suas criaturas. Então começaram a orar e a viver em «Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo», e isto antes de os teólogos terem sistematizado o que quer que fosse, nem a hierarquia ter declarado nada — não nos esqueçamos disto. Foram os santos fiéis, como o Papa Francisco gosta de chamar aos cristãos comuns, que deram origem à novidade radical do “dogma” da Trindade… pois a sabedoria vem da simplicidade… diz Jesus.

É claro que a Santíssima Trindade é um mistério, mas um mistério é algo que vivemos todos os dias e que nos sobrecarrega com palavras. “Não há palavras…” dizemos quando queremos expressar algo que nos comoveu profundamente. Os primeiros cristãos ficaram sem palavras e, contra toda a lógica e contra toda a correcção política na esfera cultural judaica e grega, tiveram de ser criativos, lutando com a linguagem para exprimir e celebrar que o “Mistério Absoluto”, a “Realidade que, em última análise, tudo determina”, o “totalmente Outro”… em Jesus se mostrou, se revelou, como um Reino de Compaixão. (“Eu vos abençoo, Pai… vinde a mim, todos vós que estais cansados ​​e sobrecarregados…”). É uma pena que alguns de nós queiram ser contraculturais, alternativos e todas essas coisas — que não estou a dizer que não sejam santas e boas — e, ao mesmo tempo, não saibamos contar a fascinante história de Jesus com o seu Deus — connosco… Toda esta história é a Santíssima Trindade. Devemos reconhecer que Jesus deixou os seus seguidores, deixou-nos, com um problema: em qualquer tempo, o Evangelho já não é do mesmo; é novo, e o novo não pode ser “contado com as mesmas coisas de sempre”. É por isso que somos chamados à escuta contínua do Espírito. O Mistério do Amor que transborda em nós impede-nos de transformar o Deus Vivo num ídolo fossilizado.

Toni Catalá SJ

Imagem: Retirada do Google imagens em 30.05.2026;

Texto: Retirado da partilha da página Facebook de José António Pagola-9º Domingo Comum-Ano A, em 30.05.2026. Tradução livre

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